O que se esconde nas bolhas

Escrito por Tiago Reis, em 25-03-2008 13:40


Image 

Desde há muito se debate, no seio da comunidade científica, as implicações da ingestão de bebidas carbonatadas para o sistema gastrointestinal. Este ano, algumas destas dúvidas acabaram por ser desfeitas durante o Encontro Nacional. Contudo, fica a certeza de que são essenciais mais estudos nesta área

Convidado a apresentar dados sobre os efeitos do consumo de bebidas carbonatadas no sistema gastrointestinal, Rosário Cuomo (professor de Gastrenterologia na Universidade de Nápoles - Frederico II) recordou que o mercado global que envolve este tipo de bebidas se cifrou em algo como 260 biliões de litros em 2006 (o equivalente a mais 30 litros per capita). Trata-se, alias, do género de bebida não alcoólica mais vendida no mundo inteiro, sendo o seu consumo quase 50% mais elevado do que o de água sem gás engarrafada.

É, portanto, da máxima importância perceber as implicações na saúde pública da ingestão deste tipo de bebida, tão difundida nas sociedades modernas.

Rosário Cuomo veio a Portugal apresentar alguns estudos que se debruçaram sobre os efeitos do consumo destas bebidas na cavidade oral e nos tractos digestivos superiores e inferiores. Realce, por exemplo, para um estudo realizado no Departamento Pediátrico da Faculdade de Medicina Dentária de Buenos Aires, em que se procurou avaliar eventuais mudanças do pH salivar de crianças que consomem estas bebidas. "Os autores concluíram que vários factores estudados estavam envolvidos na erosão dentária verificada num conjunto alargado de crianças, pelo que cuidados preventivos se revelavam obrigatórios, em particular para os indivíduos que consumiam bebidas carbonatadas. Isto porque a saliva encontra-se alterada (em indivíduos com erosão dentária) e as bebidas carbonatadas apenas contribuem para agravar a situação, conduzindo a possíveis cáries", alerta Rosário Cuomo.

Benefícios no esófago?

De acordo com um estudo a publicar (no jornal Neurogastroenterology and Motility) por uma equipa coordenada pelo próprio Cuomo, os efeitos do consumo de bebidas carbonatadas em várias patologias que afectam o esófago, em particular o refluxo gastro-esofágico, podem ser quase inofensivos. Os investigadores testaram, em sete voluntários saudáveis, cinco substâncias distintas, sempre em doses de 300 ml: água sem gás e sem sacarose, água com 10% de concentração de sacarose mas sem gás e água com 10% de sacarose e três concentrações diferentes de dióxido de carbono.

"Todas as substâncias usadas determinaram um aumento do número de episódios de refluxo, na hora que se seguiu à ingestão de uma refeição acompanhada de 300 ml de bebida. No entanto, apenas a bebida com sacarose, mas sem gás, implica a persistência de um número significativo de episódios de refluxo na segunda hora após a refeição".

Ou seja, o grupo de investigadores conclui que embora as bebidas carbonatadas "causem a modificação de alguns parâmetros funcionais do esófago em indivíduos saudáveis, tal não corresponde a um refluxo gastro-esofágico incrementado".

Na mesma investigação – e recorrendo às bebidas atrás referenciadas – os cientistas avaliaram igualmente o impacto na saciedade dos indivíduos, determinando que não existiam diferenças assinaláveis entre os produtos testados.

Ao nível dos efeitos no estômago, a equipa liderada por Rosário Cuomo avaliou também o volume gástrico após ingestão de bebidas não calóricas com ou sem gás, recorrendo à ressonância magnética nuclear.

Segundo Rosário Cuomo, verificou-se que o volume gástrico "se encontrava significativamente aumentado apenas nos momentos imediatos que se seguiram à ingestão da bebida carbonatada. Nos períodos temporais que se seguiram (saciedade máxima e 120 minutos após a refeição) os volumes eram similares, qualquer que fosse a bebida tomada".

De notar ainda que os dados recolhidos pelo especialista italiano sugerem que a presença de dióxido de carbono na bebida ingerida não modifica o esvaziamento gástrico, embora transforme a distribuição intragástrica dos alimentos. Por outro lado, parece já consensual que a água carbonatada permite um aumento da absorção medicamentosa.

Implicações oncológicas

Na tentativa de analisar a relação entre o consumo de bebidas carbonatadas e a doença do refluxo gastro-esofágico, diversos investigadores a nível internacional acabaram também por tropeçar nas implicações deste tipo de bebidas ao nível do risco de desenvolvimento de carcinoma esofágico. Um exemplo importante nesta área envolve um estudo epidemiológico realizado nos EUA, no qual se observou a relação entre a quantidade de bebidas carbonatadas consumidas e o risco de desenvolvimento de quatro tipos de neoplasias que afectam o tracto digestivo superior. Rosário Cuomo avança com as conclusões: "apenas o adenocarcinoma esofágico apresenta uma correlação com as bebidas consumidas, apesar de, curiosamente, a relação seja inversa. Isto significa que o consumo aumentado deste tipo de bebidas pode resultar num risco mais baixo deste tipo de cancro, sendo o fenómeno mais evidente entre o sexo masculino".

Em contraposição, um outro estudo (caso-controlo de base populacional) levado a cabo na Austrália sugere que o aumento do consumo de bebidas carbonatadas pode estar associado a um risco diminuído de carcinoma de células escamosas do esófago.

Pese embora, numa primeira instância, Rosário Cuomo declare que todos dados disponíveis apontem para a inexistência de um elo entre o consumo aumentado de bebidas carbonatadas e o risco de neoplasia esofágica (e indirectamente de refluxo gastro-esofágico), o especialista da Universidade de Nápoles – Frederico II assegura ser importante confirmar estas evidências com estudos adicionais.


   
Cite este artigo
Favorito
Imprimir
Enviar a um amigo
Artigos relacionados
Gravar em del.icio.us

Comentários  
 

 


Adicionar comentário
Nome
E-mail
Titulo  
Comentário
 
Caracteres disponíveis: 600
   Notificar-me se este comentário tem desenvolvimento
   
   

Nenhum comentário



mXcomment 1.0.4 © 2007-2013 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved