| Escrito por Cláudia Brito Marques,
em 03-09-2010 15:33
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Passar
a condução da reforma para o terreno e tornar o grupo de coordenação
estratégica desnecessário, é a grande finalidade da estrutura liderada por
Vítor Ramos. Na primeira entrevista após a apresentação, pela tutela, dos
desafios a vencer na II Etapa para a Reforma dos CSP - que se inicia hoje - o
MF da USF Marginal revelou ao nosso jornal que, mesmo em tempo de férias, o
grupo que lidera não parou... E pode apresentar trabalho: o documento sobre as prioridades formativas para 2011 já está disponível
para consulta no site da ACSS
Jornal Médico de Família - O novo modelo de
coordenação da reforma dos cuidados de saúde primários (CSP) foi justificado
com a necessidade de se imprimir um novo impulso ao processo em curso. Impulso
esse que prometia contrariar uma alegada estagnação que se verificaria, quer no
número de candidaturas a unidades de saúde familiar (USF), quer na
implementação de outras medidas previstas, no que toca às restantes unidades
funcionais (UF). Ora, na verdade, mais de três meses volvidos, o número de
novas USF e de candidaturas a este modelo organizativo continua muito abaixo do
desejável...
Vítor
Ramos
- Um novo impulso não se prepara de um dia para o outro e essa é uma possível
leitura dos números... No entanto, só durante o passado mês de Julho entraram em
funcionamento oito novas USF. E é preciso não esquecer que as USF são apenas
uma peça entre tantas outras peças fundamentais da reforma em curso.
Nestes três meses, a coordenação estratégica
tem feito o trabalho de casa, trabalho esse que ainda não se vê... Mas que está subjacente
aos sete projectos-guia apresentados no passado dia 14 de Julho, pelos membros
do Governo - Ministra e Secretário de Estado, com metas e prazos bem definidos.
Nós [coordenação estratégica] temos
organizado reuniões e auscultado os profissionais no terreno e diversas
associações. Temos preparado iniciativas para viabilizar o cumprimento daquelas
metas e avançar nas restantes áreas também enunciadas do dia 14 de Julho... Já
estabelecemos agendas e prazos e procuramos, sobretudo, reforçar os dispositivos
de apoio, tanto a nível regional (ERA) como a nível local. Já identificámos a
necessidade de criar equipas locais de apoio (ELA) e os conselhos clínicos
terão um papel fundamental neste processo. Portanto, os dados estão lançados...
Mas
como explica que, nesta fase, se continue a aguardar a aprovação, entre outros
instrumentos, de legislação essencial, como a de enquadramento das unidades de
cuidados de saúde personalizados (UCSP)?
Estamos a trabalhar nesse domínio e a Equipa
Regional de Apoio (ERA) do Norte já está a preparar um documento. Até ao final
de Setembro apresentaremos uma proposta nesse sentido, que não terá que ter,
obrigatoriamente, a forma de legislação.
Contudo, emitiremos orientações no sentido de
aproximar as UCSP do espírito das USF. Tanto nas USF como nas UCSP os médicos
são todos médicos de família (MF) e o MF tem um perfil bem definido a cumprir,
independentemente dos factores organizativos. A diferença essencial entre estes
dois tipos de unidades está nas suas dinâmicas de grupo/equipa, no grau de
autonomia organizativa e nos seus órgãos e processos de decisão colectiva
internos. Por exemplo, nas USF existe o conselho
geral e mecanismos de monitorização, avaliação e retribuição incompatíveis
com práticas individualistas. Estou convencido de que muitas UCSP acabarão por
evoluir para equipas coesas com desempenhos idênticos aos das melhores USF. Por
que não hão-de querer ter também as vantagens organizativas destas?
Como
tem sido o trabalho, nestes meses, dos três grupos que integram a renovada estrutura
de reforma? Mais concretamente, o que tem feito a coordenação estratégica?
Tanto a Coordenação Nacional como o Conselho
Consultivo já iniciaram o seu funcionamento, respectivamente em 8 e em 14 de
Julho. A Coordenação Estratégica, por sua vez, identificou áreas essenciais e
propôs à Senhora Ministra uma agenda com metas até 31 de Dezembro. Distribuiu
trabalho e solicitou colaboração às ERA e a profissionais e dirigentes dos ACES
e de unidades funcionais. A nossa preocupação prioritária é a de trabalhar com
os órgãos regionais e locais, porque a ideia é internalizar o locus de controlo e de condução da
reforma e criar condições para que as equipas no terreno possam assumir, por
auto-iniciativa, a consolidação da reforma.
A lógica de haver uma entidade nacional ou
administrações regionais de saúde (ARS) a comandar ou a tutelar directamente as
equipas da linha da frente faz cada vez menos sentido e temos que pensar em
fazer o desmame desse centralismo
disfuncional... Assim sendo, os dispositivos de apoio e de contratualização com
as equipas têm que estar localizados.
A função das ERA, a médio prazo, será de
apoio às futuras ELA, para que estas consigam trabalhar bem, localmente, com as
equipas. Só agora se tornou óbvio que, à medida que o número de UF aumenta, as
ERA deixam de ter capacidade de as acompanhar... Se queremos internalizar a
condução da reforma, temos que autonomizar os ACES e os seus dispositivos de
governação, de apoio e de contratualização. O núcleo central da ELA será, em
cada ACES, o seu conselho clínico, mas o seu trabalho é distinto do da
contratualização interna. Quem apoia e ajuda não deve ser quem exige, pede
contas e acciona consequências. São papéis complementares, mas distintos.
No
lançamento da II Etapa da Reforma dos CSP, a 14 de Julho, a Ministra da Saúde
classificou as novas estruturas de governação de "simplificadas, funcionais e
flexíveis"... Têm-se revelado realmente assim?
Sim. A coordenação estratégica tem reunido
regularmente e temos tido inúmeros participantes convidados nas reuniões. As
ERA estão sempre lá, por direito próprio. Também já reunimos com profissionais
das unidades de recursos assistenciais partilhados (URAP) - que é das UF mais
complexas, sendo os grandes prestadores de serviços às restantes UF dos ACES -
que, com o nosso apoio, constituíram um grupo de trabalho de âmbito nacional
que já tem uma agenda com tarefas e prazos concretos.
Uma mensagem que a coordenação estratégica
está a tentar passar insistentemente e que, mesmo volvidos cinco anos, parece
não estar ainda interiorizada por muitos profissionais e dirigentes, é a de que
o núcleo central, o elemento estruturante desta reforma é a equipa
multiprofissional. O trabalho em equipa é o conceito fundamental e servir a
população é a missão. Uma vez que a população tem necessidades muito diversas,
não seria fácil para uma mesma equipa abranger indivíduo/família/grupos/comunidade/população...
Assim, há quatro tipos de equipas, com vocações específicas, e uma equipa de
prestação de serviços a estas quatro: a URAP.
A II
Etapa da Reforma dos CSP configura sete projectos-guia, cuja concretização
deverá ocorrer até 31 de Dezembro deste ano. Uma dessas metas diz respeito à
formação. O que já foi feito nesse âmbito?
O documento sobre as prioridades formativas
para 2011 já está pronto e disponível no site
da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). A nossa proposta vai ao
encontro de muitas das questões levantadas pela USF-AN e é sobretudo um
documento de apoio à reforma, que preconiza o desenvolvimento de competências
de gestão, de team-building e a
formação dos coordenadores de todas as UF. Outras prioridades são as de desenvolver
a governação clínica e de saúde e uma cultura de qualidade e de
contratualização, a todos os níveis. A contratualização deve começar por fazer-se
a nível local, que é a melhor forma de se construírem compromissos justos e
realistas.
E no
que toca à investigação?
Já foi produzida uma proposta de Agenda de
Investigação para 2011 e aguardamos que a Senhora Ministra da Saúde se encontre
com o Senhor Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior para, depois,
ser lançado um concurso de projectos de investigação.
Os
sistemas de informação continuam a ser uma preocupação nesta segunda fase da
reforma...
Esse é um dos pontos mais críticos, que pode
comprometer a prossecução da reforma. Estamos a trabalhar nele e está já
agendada uma reunião com responsáveis da ACSS, no início de Setembro, para
analisar essa questão e acordar acções imediatas concretas.
Como
serão alcançados os compromissos assumidos relativamente à contratação célere
de jovens especialistas?
Quanto à questão dos recursos humanos (RH),
estamos a trabalhar em conjunto com a USF-AN e com a Associação Portuguesa dos
Médicos de Clínica Geral (APMCG) para conseguirmos encontrar soluções justas e
céleres para os problemas que se têm sentido a este nível.
Vamos aproveitar muito do que são as ideias
da APMCG sobre a gestão de RH, em especial de MF, nos CSP, no sentido de
elaborarmos uma proposta para um novo regulamento dos concursos de provimento
dos novos especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF).
Queremos ter uma gestão previsional a 10/15
anos, ajustável ao longo do tempo, e para isso pedimos a colaboração das
coordenações do internato de MGF, da APMCG e da ACSS.
Relativamente
às estruturas a quem cabe agora conduzir a reforma - Coordenação Estratégica
incluída -, a sua existência é informal. Garante-se que existe, mas a verdade é
que ainda não foram criadas formalmente... Como se explica este facto?
Bom... Acima de tudo há um acordo tácito e um
compromisso explícito claro, conhecido e assumido por todos. Apenas se aguarda a
publicação do Despacho no Diário da República. É uma mera questão formal. A
coordenação estratégica não tem orçamento, nem burocracias. Todos os seus
membros mantêm as respectivas actividades nos CSP e dedicam parte do seu tempo
a pensar e a actuar estrategicamente em relação àquilo que conhecem e fazem no
seu dia-a-dia. É como que uma extensão lógica, embora especial, da sua missão
enquanto profissionais dedicados aos CSP.
Mas não
existindo formalmente, coloca-se em questão a sua capacidade para assumir
compromissos e impor vontades... Como é que têm contornado este obstáculo?
Não temos sentido essa "não formalização"
como um obstáculo, porque é tudo uma questão de bom senso! A ideia do Estado
burocrático e do comando autoritário estão, felizmente, a desaparecer...
Procuramos [coordenação estratégica] apoiar
os profissionais e os membros do Governo, de quem temos tido, reciprocamente,
um apoio inequívoco. Não penso que uma existência formal altere a essência do
nosso trabalho enquanto analistas e orientadores estratégicos no âmbito da
reforma dos CSP. Os protagonistas da reforma não somos nós, mas sim as equipas.
Nem os órgãos de governação e de gestão dos ACES se deveriam "colocar em bicos
dos pés"... Há uma tendência para colocar "os bastidores em cima do palco", o que
gera muita confusão. Nós somos apenas bastidores de apoio.
Qual é,
então, a essência do vosso trabalho?
O nosso trabalho é identificar, harmonizar e
ajudar a articular as peças do "puzzle", para que todos possam fazer bem o seu
trabalho. Entre outras tarefas, está estipulado que à coordenação estratégica
cabe: auscultar e analisar contributos de instituições e dos actores envolvidos
na reforma; manter actualizado o quadro de orientação estratégica geral,
publicamente disponível, que constitua um guia de referência para todos; apoiar
os membros do Governo na concertação e harmonização das estratégias parcelares
dos principais actores envolvidos na execução da reforma, designadamente a
ACSS, a Direcção-Geral da Saúde e as cinco ARS; preparar instrumentos
conceptuais e orientadores de apoio ao aprofundamento das transformações em
curso, relacionados com o desenvolvimento das UF.
Isto é uma parte do que temos vindo a fazer
nos últimos meses e que, aos poucos, vai ficando disponível no site que dá continuidade à página da
Missão para os Cuidados de Saúde Primários (MCSP) na Internet. O site chama-se actualmente "Cuidados de
Saúde Primários Portugal" e está acessível através dos endereços www.csp.min-saude.pt ou www.mcsp.min-saude.pt.
Esse é
o site oficial da reforma para os
CSP?
Sim, mas ainda não é um produto acabado.
Queremos que o site seja um veículo
de comunicação com os profissionais e com o público em geral. Também
pretendemos, através do site,
divulgar projectos inovadores nos CSP. Já pedimos aos directores executivos que
nos enviem, pelo menos, um projecto inovador identificável no seu ACES, de que
são exemplo as Ligas de Amigos, o SAGRIS, o PIPS (Partilha de Ideias, Problemas
e Soluções) ou o Guia Protocolar de Relação com o Utente da USF Dafundo. A
ideia é criar um banco de projectos que sirvam de inspiração a outras equipas e
aos seus ACES. Daí termos escolhido o lema "Copiar
é ganhar!"
Exemplificar uma prática de transparência e
de comunicação da reforma, através da apresentação de relatórios de progresso
periódicos é outra das tarefas da coordenação estratégica. Assim sendo, está a
ser preparado o primeiro relatório de progresso da reforma, que remete para a
situação em 30 de Junho de 2010. Será apresentado, no final do próximo mês de
Outubro. O segundo relatório remeterá para 31 de Dezembro e dará já ideia do
que mudou no semestre precedente, e assim sucessivamente. Serão documentos
semestrais, bastante exaustivos, com tudo o que diz respeito à reforma dos CSP
discriminado por região de saúde.
Voltando
às metas definidas até ao final deste ano, como é que se chegou ao número de
oito novas USF por mês?
Através da análise do histórico mensal de
aberturas de USF. Também indagámos as ERA sobre quantas unidades têm em
carteira com condições para poderem iniciar actividade ao longo dos próximos meses.
Prevalece,
contudo,
a ideia de que há USF que estão a abrir "a
martelo"... Equipas forçadas a arrancar no novo modelo organizativo sem as
condições mínimas...
A ideia de que as USF abrem a martelo não é de agora. Faz parte,
desde sempre, deste processo de reforma... Por vezes, são as próprias equipas que
têm de forçar a abertura, que obrigam a que sejam criadas condições, e é isso
que faz com que as coisas andem para a frente. No caso da USF Marginal também foi
assim.
É certo que a abertura de USF abrandou, mas
esse abrandamento não teve que ver com o final da segunda prorrogação do
mandato da MCSP. Abrandou porque se esgotou, naturalmente, a primeira onda de inovadores
espontâneos e seus seguidores imediatos. Agora, o desafio é o de encontrar
estratégias para prosseguir, procurando contornar e superar constrangimentos
estruturais, que subsistem, e ter em conta as características e as motivações
dos restantes grupos do heterogéneo universo profissional e humano dos CSP em
Portugal.
E agora,
há inovadores?
Há! Há novos inovadores! É preciso estar
ciente de que estas dinâmicas exigem um trabalho humano muito intenso no
terreno. No caso das USF, e também das UCC, são as equipas que criam as
unidades, não são os dirigentes locais, regionais ou nacionais. Estes podem e
devem facilitar e apoiar o processo, mas só isso. O que pretendemos fazer agora
é estimular os processos de interacção e de transformação locais, nas equipas e
nos ACES. E criar três coisas: ritmos, ciclos e marcos.
Quando dizemos que devem iniciar actividade
pelo menos oito USF/mês estamos a procurar criar um ritmo. Passaremos, depois,
a uma fase em que quem vai alimentar as novas USF são, essencialmente, os recém
especialistas em MGF, e isso pode garantir a criação de, pelo menos, 50/60
novas USF por ano. Mais tarde, o Internato servirá essencialmente para
substituir os MF que se reformam em cada ano. Também chegaremos um dia, talvez
daqui a 30-40 anos (quem sabe?), a uma fase em que o modelo se tornará
obsoleto. Como tudo na vida e nas sociedades.
Para já, temos uma força estratégica
renovadora poderosa: os internos e os recém especialistas. Em dez anos vamos
conseguir formar cerca de quatro mil novos MF. A ideia da década dos CSP,
preconizada pela APMCG, não podia estar mais sintonizada com este contexto.
Vamos ter MF muito bem formados e com a vantagem de não serem todos da mesma
idade.
Quanto aos ciclos, temos o exemplo do desejável
ciclo anual dos concursos de colocação de especialistas em MGF que deverá
passar a ter uma regularidade bem definida. Marcos são, por exemplo, datas como
o 14 de Julho, em que houve a apresentação da II Etapa da Reforma dos CSP. O
próximo marco será, certamente, no início do próximo ano, em que se fará a
análise de como reagiram os dispositivos da administração central, das ARS e
dos ACES aos sete desafios e metas estabelecidas.
O que
pode ser considerado uma má reacção desses dispositivos?
Se não forem cumpridos os mínimos em relação
aos sete desafios definidos isso pode indicar disfunções desses dispositivos e
terão de ser corrigidas as respectivas causas. Caso se ultrapassem os mínimos, isso
criará um forte impulso e fortalecerá a auto-estima e a auto-confiança de todos
para a próxima etapa: 2011.
O Diário de Notícias (DN) noticiou que a
coordenação estratégica para a reforma dos CSP defende o alargamento da
contratualização a todo o universo das unidades dos CSP. Sabendo-se que o
sucesso da contratualização implementada no âmbito da reforma dos CSP se
sustenta, essencialmente, no facto de os compromissos assumidos com as agências
de contratualização serem consensualizados no seio das equipas
multiprofissionais, auto-organizadas... Crêem ser possível alargar o modelo às
restantes UF, onde o trabalho não é organizado em equipa? Trata-se apenas de
uma hipótese a ponderar ou há a intenção de avançar rapidamente com a ideia?
O que é para avançar já é o "comprometimento"
ou "compromisso" das unidades. É diferente de contratualização, no sentido de
contrato. Os ingleses têm duas palavras: contracting
e comissioning. Nós não... A questão é
que tudo o que fazemos deve implicar algum compromisso de objectivos. O
comprometimento de uma UCSP, como o de qualquer outra unidade deve ser para com
o conjunto do ACES, através do seu director executivo. Isto requer equipas
coesas e solidárias entre si e não se faz uma equipa de um dia para o outro.
Uma coisa são grupos de pessoas, outra são as equipas. Há UCSP que ainda são
grupos... Outras já serão equipas.
A coordenação estratégica vai elaborar um
documento a explicar o que é uma UCSP, colocando-as na mesma linha funcional
das USF. Os cuidados que prestam são basicamente os mesmos, o grau de autonomia
e os instrumentos de gestão é que divergem, fundamentalmente porque algumas
UCSP não são ainda equipas e poderão nunca chegar a sê-lo. Há coisas que não se
comandam, nem se decretam... Os ingredientes essenciais para o sucesso de uma USF
e também para as restantes unidades são humanos, de valores, de motivação, de
entusiasmo. Estão para além de leis e de normas.
Então,
nesse caso, não haverá nenhuma lei que permita enquadrar estes aspectos para as
UCSP... E afinal, em que diferem as USF das UCSP?
Há aspectos que não são regulamentáveis.
Outros podem sê-lo. A ERA Norte está a elaborar um documento sucinto com as principais
diferenças práticas entre USF e UCSP. Dessa clarificação decorrerá, certamente,
alguma orientação estratégica. As USF têm que ter uma carta de qualidade
explícita/as UCSP terão que ter uma preocupação de qualidade. Há grande diferença?
As USF têm autonomia organizativa e um conselho geral, as UCSP são comandadas
pelo director executivo: essa já parece ser uma diferença essencial. Esta
clarificação das diferenças também poderá levar algumas UCSP a darem o salto,
como equipas, para USF.
Um problema
que continua a colocar USF e UCSP de costas voltada é a questão dos utentes sem
MF atribuído. O que pode ser feito no sentido de resolver esta questão?
As USF e UCSP têm que trabalhar conjuntamente
para resolver esse e outros problemas no âmbito da prestação de cuidados à
população que servem. Deve haver solidariedade entre as várias unidades. Mas essa
é também a habilidade do director executivo. Cada sítio terá que procurar
soluções diferentes, à sua medida...
É nesse
sentido que diz que os ACES têm que ser mais exigentes com as diferentes UF?
Exigentes no sentido do rigor. Mas, claro que
têm que haver também exigências para com os níveis regional e central. Por
exemplo, as questões dos sistemas de informação adequados ou da actualização automática
dos ficheiros do SNS é algo que tem que vir da ACSS, porque é de âmbito
nacional e os ACES e seus profissionais no terreno não têm instrumentos
técnicos para tal. É nossa intenção estimular o desenvolvimento de um sistema inteligente
de gestão de utentes, acoplado ao actual Registo Nacional de Utentes (RNU).
Temos que tentar chegar a um ponto em que os ficheiros do SNS estão
permanentemente actualizados e se conhece com precisão quem são os utentes
reais inscritos nas diversas unidades de saúde e nos diversos ACES. Isto dará
uma grande ajuda para minorar, ou mesmo resolver, o problema dos utentes sem MF
atribuído e que o desejam ter.
Não há uma solução mágica, há que combinar
várias soluções e o papel da coordenação estratégica também passa por apontar
medidas nesse sentido.
Na
mesma entrevista ao DN, revela alguma abertura para a implementação de USF em
Modelo C. Ora, num momento em que nem sequer foi ainda possível aprovar a
legislação que permitirá enquadrar as UCSP, não será prematuro avançar já com
contratualização com o sector privado e social?
Eu nunca disse que as USF de modelo C deveriam
avançar já! O modelo C está na lei e não faz mal falar nele... Mas, primeiro,
temos que ver se o poder político está disposto a recorrer a essa possibilidade
legal. O que a coordenação estratégica pode fazer é uma proposta sobre como
esse tipo de USF poderia ser ensaiado, em 2011, com duas ou três unidades, em
sítios precisos, a identificar, onde haja necessidades não satisfeitas.
Poderia haver candidaturas para USF de modelo
C em determinadas localidades, tendo que ser o Estado a indicar a localização e
a abrir o concurso. Não é um movimento voluntarista como nas outras USF. Em tudo
o resto, estas USF seriam idênticas às de modelo A e B: a ARS e o respectivo
ACES têm que ser bastante exigentes, tal como o são com as outras. Em termos
práticos, para a população, não pode haver diferenças.
No meio
de tantas tarefas, qual é o grande objectivo da coordenação estratégica para a
reforma dos CSP?
Passar para o terreno os processos de
condução e de consolidação da reforma e tornar o grupo desnecessário. Um pouco
à semelhança da máxima de William Mayo quando afirmava que "a grande finalidade
da medicina e do médico é tornarem-se desnecessários".
A próxima grande meta é o dia 31 de Dezembro,
prazo estabelecido para o cumprimento dos desafios que compõem a II Etapa da
Reforma dos CSP. Até lá, é deixar trabalhar os profissionais e os vários órgãos
de administração dos CSP.
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