| Escrito por CBM,
em 19-06-2009 16:20
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A reforma dos serviços
de saúde - particularmente a dos cuidados de saúde primários -, a lei do
tabaco, as melhorias nas listas de espera cirúrgicas e a revitalização dos
processos de contratualização são os quatro grandes progressos na governação da
Saúde, registados nos últimos anos. Esta é uma das conclusões do mais recente
relatório do Observatório Português dos Sistemas de Saúde, intitulado 10 anos de OPSS e 30 anos de SNS - Razões
para Continuar. Mas esta avaliação não se faz apenas de progressos... As
falhas sistémicas e os aspectos complexos também merecem a atenção do OPSS, que
alerta para problemas como a falta de planeamento estratégico de longo prazo
(que compromete a disponibilidade dos recursos humanos), a fraca componente
analítica (nomeadamente, no que toca à política do medicamento) ou a ausência
de um centro inteligente de análise e direcção estratégica na governação da
saúde
À
semelhança das edições anteriores, o Relatório de Primavera de 2009 do
Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) tem como principal objectivo
analisar os "processos da governação da saúde" em Portugal, de forma a
"esclarecer os principais actores sobre aspectos críticos da evolução do
sistema de saúde, instigando-os assim a contribuírem positivamente para a sua
melhoria".
Resultante
de uma parceria entre a Escola Nacional de Saúde Pública, a Faculdade de
Economia da Universidade de Coimbra /Centro de Estudos e Investigação em Saúde
da Universidade de Coimbra e o Instituto Superior de Serviço Social do Porto, a
análise do OPSS marca, este ano, uma década de existência do Observatório e os
30 anos do Serviço Nacional de Saúde (SNS). E não será, de todo, incorrecto afirmar
que, face às análises anteriores, este 9º Relatório surge imbuído de um
espírito mais optimista, que se projecta sobre o futuro do sistema de saúde
português. Para tal, basta atentar no título do documento - Razões para Continuar - para percebê-lo...
Ou avançar para as conclusões, onde o OPSS identifica, claramente, quatro áreas
de progresso na governação da Saúde. São elas: a reforma dos cuidados de saúde
primários (CSP), a implementação da lei do tabaco, a melhoria nas listas de
espera para cirurgia e a revitalização dos processos de contratualização.
O
Relatório Primavera de 2009 pretende ir além da observação e avaliação do
último ano no sector da saúde, reflectindo e procurando compreender o peso das
críticas contínuas feitas pelo OPSS ao longo de 10 anos nas transformações
operadas em Portugal pelos players na
área da saúde.
Para
Constantino
Sakellarides, um dos coordenadores desta análise, "importa
ressalvar que as mudanças em saúde não acontecem a curto prazo, mas sim no
médio prazo. Assim sendo, a influência do relatório na saúde em Portugal começa
agora a tornar-se visível, daí a importância de um balanço após 10 anos de
observações."
Por
sua vez, Ana Escoval defende que "a recolha e sistematização de informação e a
sua disponibilização pública são um contributo importante para estimular a
discussão assente em evidência e, desta forma, contribuir para reflexões e,
porque não, decisões mais sustentadas e de maior efectividade"
Na
óptica do coordenador do OPSS, Pedro Lopes Ferreira, "criar mais valor e fazer
mais e melhor com os recursos existentes é o que, já hoje, começa a distinguir
os sistemas e as organizações de saúde. Em Portugal, isso é bem evidente nos CSP,
provavelmente, porque neste sector é mais visível a existência de uma
estratégia de saúde dialogante com os cidadãos, com os profissionais e com a
própria administração".
Constantino Sakellarides, coordenador da análise, ressalva que "as mudanças em saúde não acontecem a curto, mas sim,a médio prazo. Assim sendo, a influência dos relatórios do OPSS na saúde em Portugal começa agora a tornar-se visível, daí a importância de um balanço após 10 anos de observações"
CSP: Dois pesos, duas
medidas?
Sobre
a reforma dos CSP - e utilizando como referência o Relatório do Grupo Consultivo
para os Cuidados de Saúde Primários, Acontecimento
Extraordinário, de Fevereiro de 2009 - o OPSS destaca a forma como os mais
de três mil profissionais de saúde, correspondendo às 170 unidades de saúde familiar
(USF) actualmente em actividade, com mais de dois milhões de utentes potencias,
"estão a criar no terreno verdadeiros serviços de saúde de proximidade com
qualidade, modificando a forma como se relacionam: com o cidadão (facilitando
drasticamente o acesso); entre profissionais (formação de pequenas equipas
coesas e solidárias e intersubstituição); com a administração (autonomia com
responsabilidade, através de um processo de contratualização do desempenho)".
De
acordo com os investigadores do Observatório, esta reforma - "feita
essencialmente de baixo para cimadescongelamento
periférico - representa uma alteração profunda na organização dos serviços
de saúde, constituindo um exemplo de inovações desejáveis no conjunto da administração
pública portuguesa. É desejável que as principais características deste modelo
se difundam o mais rapidamente possível ao conjunto dos serviços de saúde portugueses",
preconizam os redactores do documento. "Está actualmente em curso no país "um
verdadeiro laboratório vivo para o sistema ciência, a administração
pública, a promoção da inovação, o plano tecnológico, a articulação da saúde
com os poderes autárquicos, o ensino/aprendizagem", apontam os redactores do
OPSS.
As
apreciações do OPSS sobre a reforma dos CSP apoiam-se, também, nos resultados
do estudo da satisfação dos profissionais e utentes das unidades familiares
(Junho de 2009): para os utilizadores das USF observam-se taxas de satisfação
de 76,5% para a relação que estabelecem com médicos e enfermeiros, de 74,5%
para os cuidados médicos aí prestados, de 69,2% para a organização dos
serviços; no que diz respeito aos profissionais as taxas de satisfação foram de
77,6% para a qualidade dos cuidados prestados nas USF, de 72,2% para a
qualidade da USF como local de trabalho, de 81,1% para o desempenho destas
unidades na melhoria da qualidade dos cuidados prestados. Os níveis de
satisfação mais baixos observados dizem respeito aos vencimentos auferidos
(48,6%) e às instalações e equipamentos (61,4%).
Apesar
dos progressos no que toca aos CSP, o OPSS deixa um alerta: "a coexistência no
terreno de USF e de unidades tradicionais
cria hoje importantes desigualdades de acesso a CSP de qualidade no país". E apesar
desta situação ser inevitável num processo de transformação genuína dos
serviços de saúde como é este, refere o documento, "torna-se necessário
estabelecer explicitamente um prazo razoável para completar esta transformação
para o conjunto da população portuguesa".
Listas de espera
cirúrgica: lição apreendida!
Ao
longo de quase uma década, no que respeita às esperas cirúrgicas, o OPSS tem insistido,
com alguns resultados, em dois pontos essenciais: a importância de uma grande
transparência informativa, proporcionando-se a todos os interessados fácil
acesso à informação sobre esperas cirúrgicas por patologia e hospital (acompanhada
pelas necessárias auditorias aos sistemas de informação que asseguram a
qualidade da informação disponibilizada); a necessidade do sistema político não
utilizar imprudentemente as esperas cirúrgicas como armas de confronto
político.
"Depois
de um período particularmente infeliz nesta matéria, parece que a lição da
experiência foi finalmente apreendida", refere o 9º Relatório do OPSS. Dados de
1999 mostram que havia 86.500 doentes em espera para uma cirurgia para além do
tempo considerado clinicamente aceitável (em média, o tempo de espera era
superior a 121 dias). Hoje, e após implementação de vários programas
organizados de combate a estas listas, o número de doentes em espera é de 174.179
doentes (em 31/12/2008 - menos 12% do que em 31/12/2007), enquanto a moda da
espera se situava no intervalo de 61-120 dias.
No
que toca à contratualização - outro ponto forte da governação da Saúde, segundo
o Relatório de Primavera 2009 - "embora ainda lhe falte uma componente importante
que se prende com o investimento nos resultados em saúde (outcomes) e, consequentemente, a explicitação da criação de valor
para os cidadãos, o desenvolvimento e a implementação da contratualização, ainda
que pautada por uma evolução lenta, tem permitido incorporar uma nova
perspectiva de gestão em saúde que visa promover a qualidade e a eficiência dos
cuidados, contribuindo, ainda, de forma decisiva para um maior rigor,
transparência e responsabilização do sistema", pode ler-se no documento agora apresentado.
Como ultrapassar os
problemas "crónicos"?
Ao
procurar resumir as falhas sistémicas da governação - aquelas que persistem independentemente
de quem governa e das políticas que são adoptadas - há aspectos que se tornam particularmente
salientes aos olhos dos investigadores do OPSS, como a ausência persistente de
um centro tangível de análise e direcção estratégica na saúde.
"Apesar
da grande complexidade do sector da saúde, da sua importância para a população,
da sensibilidade das matérias que trata, da grande influência social das
profissões e agentes económicos que nele se movem, do volume orçamental que
movimenta, da extensão dos serviços públicos que é necessário gerir, o investimento na qualidade, especificidade e necessidades instrumentais
da governação da saúde écronicamente
quase inexistente", refere o OPSS, apontando as consequências deste
cenário.
Neste
sentido, o Relatório alerta para a falta de planeamento estratégico de longo prazo - indispensável para assegurar a
disponibilidade dos recursos humanos da saúde necessários - que é "responsável
pelos conhecidos desequilíbrios que o país actualmente padece nesta matéria, nomeadamente o acentuado
envelhecimento da população médica do país e o aproveitamento pouco adequado dos profissionais de enfermagem que
o país tem formado".
O
medicamento, pela sua relevância como tecnologia terapêutica essencial e pela
proporção nos gastos públicos e privados com a saúde, é outro dos temas que, desde o início, tem merecido
destaque nas análises do OPSS. Neste domínio, os investigadores do OPSS
sustentam que "uma governação
inteligente da saúde terá que se basear numa forte componente analítica" e
questionam: "como é
possível estabelecer objectivos concretos e amplamente partilhados para
melhorar o bom uso do
medicamento, sem uma análise e divulgação contínuas sobre a situação no país neste domínio?".
A
análise deste ano permite ainda concluir que, "apesar de se observarem ligeiras
melhorias na prescrição no ambulatório das cefalosporinas de 3ª geração, os
padrões de prescrição observados em Portugal para estes antibióticos não são
aceitáveis sob o ponto de vista das boas práticas médicas e da saúde pública,
para além de, pelo seu preço, não obedecerem a qualquer racionalidade económica".
Outro
dos aspectos "mais polémicos e
polarizadores da governação da saúde", no entender dos peritos do
Observatório, é a concepção e a
implementação das parcerias público-privadas (PPP) na saúde. Durante vários
anos, o OPSS alertou para o facto de as PPP terem sido implementadas sem ter
sido feito um debate sobre a sua fundamentação e sem uma estimativa rigorosa do
impacto a longo prazo desta medida no sistema de saúde português. Para além
disso, a estrutura questionou as mais-valias deste modelo aconselhando
ponderação, necessidade de transparência e revisão de compromissos que pusessem
em causa os interesses de saúde dos cidadãos.
Já
este ano, o Tribunal de Contas analisou as PPP e deu fundamento às preocupações
levantadas pelo OPSS. Segundo o relatório de auditoria ao programa de PPP de
primeira vaga, "o Estado decidiu implementar um programa complexo sem paralelo
no campo internacional e sem recorrer a um projecto-piloto que possibilitasse
testar o modelo, o que levou a que diversas fragilidades do projecto apenas
fossem verificadas na fase de avaliação de propostas". O relatório concluiu,
ainda, que "nenhum dos objectivos da contratação inicialmente definidos foi
concluído à data do termo da auditoria, o que mostra a ineficácia do Estado em
produzir benefícios tanto para os utentes como para o próprio Estado", cita a
análise do OPSS.
OPSS em risco? Transparência e
financiamento precisam-se!
No
decurso dos últimos dez anos, salienta o OPSS, todos os governos convidados para
assistir e participar na apresentação do Relatório de Primavera do OPSS, têm
aceitado fazê-lo através do Ministro da Saúde, ou excepcionalmente através dos
Secretários de Estado.
"Está
ainda por fazer a análise detalhada dessa participação. Parece, no entanto, ser
desde já possível observar que a aceitação deste processo de análise e comunicação
por parte dos agentes políticos e sociais tem melhorado progressivamente no
decurso dos últimos anos", reconhecem os peritos do OPSS.
No
entanto, advertem, "os exercícios da análise e comunicação sobre a governação
da saúde em Portugal que o OPSS tem vindo a realizar anualmente mantêm ainda
importantes limitações". Estas decorrem essencialmente "da não realização das
expectativas do OPSS quanto aos desenvolvimentos metodológicos e
comunicacionais, considerados necessários para uma evolução satisfatória deste
projecto". Na opinião dos especialistas, essa situação é furto do
"conservadorismo do sistema de ciência
português, que continua a não financiar investigação em políticas e serviços de
saúde". Uma situação que, a continuar a verificar-se, "irá seguramente pôr em
risco a existência do OPSS a muito curto prazo", alertam.
Falhas sistémicas
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Ausência de um centro inteligente de análise e direcção estratégica
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Falta de planeamento estratégico a longo prazo (recursos humanos)
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Fraca componente analítica (política do medicamento)
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Implementação das PPP
Aspectos complexos
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Envelhecimento, dependência e saúde
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Tuberculose pulmonar
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Sustentabilidade política, económica e financeira dos sistemas de protecção
social
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Estratégias locais de saúde; maior envolvimento dos cidadãos
Áreas de progresso
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Reforma dos CSP
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Implementação da lei do tabaco
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Melhoria nas listas de espera cirúrgicas
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Revitalização dos processos de contratualização
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