| Escrito por Hernâni Caniço/JMF,
em 04-06-2009 15:57
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Realizou-se, a 14 de Maio último, o seminário "Ser médico e ser médico de família", organizado pela disciplina de Clínica Geral/Medicina Geral e Familiar da Faculdade de Medicina de Coimbra. O evento teve a participação activa de dezenas de alunos - empenhados, com múltiplas questões e opiniões. A coordenação da iniciativa, que contou com o apoio da Administração Regional de Saúde do Centro e Associação Nacional dos Estudantes de Medicina, esteve a cargo do assistente Humberto Vitorino, no âmbito dos projectos do ano lectivo 2008/2009, idealizados por Hernâni Caniço e aprovados pelo corpo docente da disciplina regida por Armando Carvalho
Logo na abertura do seminário "Ser médico e ser médico de família", Armando Carvalho apontou o ensino da Medicina Geral e Familiar (MGF) na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) como inovador, dada a sua vertente prática e as iniciativas públicas desenvolvidas ao longo do ano. Factores motivadores para os alunos, dos quais 30% serão obrigatoriamente médicos de família (MF), devendo sê-lo por gosto.
O mesmo responsável referiu que, sem boa MGF, não há serviço de saúde com qualidade aceitável, destacando o apoio incondicional da ARS Centro ao bom desempenho da disciplina académica.
Já Joaquim Gomes da Silva, em representação da Administração Regional de Saúde do Centro (ARS Centro), considerou que o MF é o elemento mais importante na saúde das populações, fazendo parte dos seus atributos a solidariedade, a proximidade e a competência técnica. Ao ser generoso e gerir a ansiedade das famílias, contribui para ganhos em saúde.
Afirmou, ainda, não haver lugar para o trabalho isolado, pelo que se torna necessário investir nos novos modelos de organização de cuidados.
Especialista no ser humano
O professor e presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (OM), José Manuel Silva, abordou em Coimbra a temática "Ser médico em Portugal". Lamentou, antes de mais, o facto de o programa da iniciativa não contemplar como conferencista um aluno, que pudesse dizer o que significa, para si, ser médico. Algo que, aliás, veio a acontecer durante o debate subsequente, graças a várias intervenções.
"Ser médico é ser humano", disse José Manuel Silva. Acrescentou ainda que "o médico existe para servir os doentes e não para se servir deles, havendo médicos que tratam os doentes de forma intolerável e a quem apetece dar um par de chapadas".
Ficou a tónica de que "gostar de relações humanas e de as estudar - ter espírito de sacrifício e ser uma pessoa sensível - são requisitos para se ser médico".
O internista dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) frisou que muita da Medicina que hoje se faz "privilegia a ligeireza, o imediato e a imagem (pedido de exames, RX, ecografia, TAC, ressonância, positrões, etc.), havendo por outro lado pressões economicistas sobre os médicos". José Manuel Silva considera que o médico "necessita ainda de ter cuidados na relação com a indústria farmacêutica".
Quanto ao Serviço Nacional de Saúde, salientou que se deveria apostar na qualidade: "quando as pessoas se concentram nos custos, então estes tendem a aumentar e a qualidade diminui com o curso do tempo", disse, citando William Deming.
O dirigente da OM reservou ainda algum tempo para dissecar vários problemas que afectam a classe. Por exemplo, o burnout que ameaça os profissionais, a aguardada proletarização e desemprego médico (em Portugal, o número de médicos irá duplicar, no espaço de 30 anos) e as deficientes condições de trabalho ou os riscos que envolvem as carreiras médicas. Neste cenário em transformação, José Manuel Silva entende que a OM "deve ter um papel auto-regulador - não corporativo - e não se pode desculpar com a prática médica ou com o sistema".
Concluiu com a noção de que o associativismo médico é a única esperança para um futuro melhor, mas que é importante dizer não à guerra de classes.
Vantagens da especialidade
Vítor Ramos, em conferência sobre "Ser médico de família em Portugal", fez uma resenha histórica - desde o saudoso relatório inicial sobre as carreiras médicas, em 1961 até à criação dos centros de saúde ditos de primeira geração em 1971, pelos Professores Gonçalves Ferreira e Arnaldo Sampaio, era ministro Baltazar Rebelo de Sousa... Terminado com a actual reforma dos CSP.
O clínico da USF Marginal esclareceu que se encontra na fase mais gratificante de uma carreira de 30 anos e que o MF se depara, actualmente, com dez vantagens para cada inconveniente.
Assim, são vantagens a promoção e manutenção da saúde entre as pessoas e as famílias (daí quem defenda que a MGF passe a chamar-se Medicina Pessoal e Familiar), a detecção precoce de doenças graves, o esclarecimento sobre o significado e gravidade dos sintomas, o diagnóstico e tratamento das doenças mais frequentes, a prevenção relativamente ao acto de medicalizar problemas psicossociais, a abordagem a múltiplos problemas na mesma pessoa, a orientação do recurso a outras especialidades, meios e serviços, a promoção da acessibilidade aos cuidados no domicílio, a garantia de continuidade de cuidados e o apoio (à pessoa e à família) em fase final da vida.
Ciente de que a MGF é uma especialidade de eleição, Vítor Ramos terminou a sua conferência com duas citações lapidares. A primeira de Manuela Grazina - professora da FMUC -, que sobre o médico disse: "espantoso é quando funciona; não quando deixa de funcionar". A segunda tirada, bem conhecida, pertence a William Mayo: "a finalidade do médico é tornar-se desnecessário".
Jovem médica de família interroga-se sobre solidão
Após as duas conferências inaugurais, iniciou-se então a mesa-redonda relacionada com o Exercício da MGF no Mundo. Esta sessão foi moderada (com emoção) por Humberto Vitorino, alguém sempre motivado para o exercício e solidariedade. Importante, também, o contributo de Nádia Moreira, recém-especialista em MGF que retratou a prática da MGF em Portugal. A jovem especialista ironizou sobre os comentários de alguns colegas relativamente à MGF, que vêem esta especialidade como "menor".
Ao apontar a definição europeia da MGF de 2005, destacou múltiplas áreas de intervenção do MF em todas as vertentes do corpo humano, o grande número de oportunidades, a abordagem holística, a possibilidade de resolver 70% a 90% das necessidades em saúde dos seus doentes e a ausência dos limites do conhecimento.
Todavia, parte substancial da sua intervenção foi dedicada à descrição de um dia de trabalho, na vida do MF.
Assim, para Nádia Moreira, uma qualquer segunda-feira poderá integrar variadas consultas, algumas com grupos de risco e vulneráveis, o atendimento complementar, domicílios, a emergência, a articulação do problema individual com o "estado" da família, os sistemas de informação, a consulta de oportunidade, a realização de rastreios, a actuação orientada para a pessoa global, a utilização dos métodos de avaliação familiar, a renovação do receituário e a transcrição de EAD, sem esquecer a cooperação com outros níveis de prestação de cuidados.
Acrescem, ainda, áreas como a educação para a saúde, a formação profissional contínua, a condução de programas e projectos de investigação.
A energia do MF e a sua dimensão
António Rodrigues, médico e gestor de contratualização, apresentou à audiência nove países da Europa em que o MF exerce as funções de "gatekeeping". Explicou, em contraposição, o que se passa em dez outras nações onde esta responsabilidade não lhe pertence.
Outra comparação trazida à liça foi a que separa os países onde existem listas fixas de utentes, atribuídas a um MF, e aqueles onde não se verifica esta realidade. Assim, o médico de família enumerou seis países onde essas listas foram adoptadas, doze em que se prescindiu das mesmas e um exemplo nacional em que se recorre a listas apenas para os cidadãos de baixo rendimento.
Refira-se, como exemplo, que na Suécia uma lista média de utentes engloba 2.870 inscritos, por comparação com 588 utentes na Bélgica (dados de 2003). Em Portugal, tal valor estava estimado em 1.476 utentes e no Reino Unido numa média de 1.892 pessoas.
No que respeita ao exercício liberal da Medicina Familiar, a situação é também muito variável no Velho Continente. Este representa 100% do universo de MF na Dinamarca e na Alemanha e 99% no Reino Unido, Suíça e Áustria. No pólo oposto, estão países como a Turquia (3% dos médicos exercem exclusivamente em regime liberal), Finlândia (apenas 2%), Portugal e Suécia (com somente 1% da classe nestas condições).
Após realizar uma análise de vários factores que envolvem o exercício da profissão, em inúmeros países europeus, António Rodrigues sublinhou que existem fenómenos que exigem hoje uma particular atenção, apontando como preocupação séria o "over care".
Especialidade médica com futuro... primazia ao cidadão
No debate final deste evento, vários alunos pediram esclarecimentos sobre a caracterização das unidades de saúde familiar, cabendo a Joaquim Gomes da Silva dimensionar a reforma em curso.
Já Armando Carvalho retomou a mais-valia da MGF, traçando quadro comparativo e interface com a especialidade de Medicina Interna em que é graduado. Abordou também a postura das outras especialidades médicas face à MGF (nem sempre exemplar).
Por outro lado, Hernâni Caniço referenciou os objectivos do seminário e o interesse da visão biopsicosocial da MGF. Tentou, em paralelo, motivar os alunos para a escolha futura da especialidade.
Lembrou que está em curso um questionário que coordena, dirigido aos cerca de 500 alunos da FMUC, do 5º e 6º ano do curso médico, preenchido antes e após leccionação da disciplina. Este questionário, concluído no final do ano lectivo, relaciona-se com as razões da escolha da especialidade médica e grau de conhecimento sobre a MGF.
Nele encontram-se várias opções de resposta, focadas em conceitos e pré-conceitos como medicina de proximidade, medicina solidária, esforço acrescido, burocracia excessiva, razões salariais, falta de prestígio, entre outros.
Considerou que a (boa) relação médico/doente é chave para o exercício e identificação profissional do médico, sendo a (boa) comunicação em saúde chave para o MF.
Humberto Vitorino, além da coordenação da sessão, respondeu a questões práticas sobre o exercício da medicina solidária e a prática do voluntariado, enquanto formação médica e desempenho profissional atraente e consolador. Citou, inclusive, a instituição Saúde em Português - na qual está envolvido - como exemplo de organização em que a solidariedade não é palavra vã.
Texto: Hernâni Caniço (Assistente Convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra) e redacção JMF
Fotos: Humberto Vitorino (Assistente da Disciplina de CG/MGF da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra)
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