| Escrito por Vitor Frias,
em 25-01-2008 15:44
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O Hospital de Santa Maria (HSM) pediu descontos à indústria farmacêutica (IF) para evitar que o tecto definido pelo Executivo para a despesa com medicamentos fosse ultrapassado – uma engenharia financeira que está a deixar descontentes vários laboratórios.
O presidente do conselho de administração do HSM, Adalberto Campos Ferreira, reconheceu, em declarações à agência Lusa, que o aumento da despesa com medicamentos em 2007 foi superior aos quatro por cento definidos no protocolo assinado entre o Governo e a IF.
O médico e gestor considera, porém, que os 4,9 por cento de aumento “real” da despesa com fármacos alcançados por este hospital, e ainda segundo dados provisórios, são “um valor que orgulharia a tutela”.
Contudo, não serão estes 4,9 por cento definitivos, uma vez que o hospital, e “à semelhança do que aconteceu em anos anteriores”, como frisou Adalberto Campos Ferreira, promoveu no final do ano passado uma série de encontros com representantes da IF, com vista a “convidá-los” a realizarem descontos nos medicamentos já vendidos, com base nos consumos efectuados.
Por se tratar do maior hospital do País, o HSM apresenta-se como um apetecível cliente, que os laboratórios não menosprezam. Por esta razão, os descontos efectuados terão permitido ganhos na ordem dos dez milhões de euros, ou seja, uma despesa menor com os fármacos que assegurou o cumprimento da meta dos quatro por cento.
Questionado sobre o interesse da IF em ganhar menos, e logo no final do ano, quando já estavam há muito assinados os protocolos, Adalberto Campos Ferreira ironiza: “Somos o Belmiro de Azevedo da Saúde”.
De acordo com o gestor – apontado por algumas partes do sector como um forte candidato ao cargo agora ocupado por Correia de Campos – o hospital que dirige representa, para alguns laboratórios, entre 30 a 50 por cento do seu mercado.
Opinião diferente sobre estes descontos terão alguns laboratórios que não concordam com esta forma de convite em cima da hora, ou seja, no final do ano, e com vista a garantir o cumprimento do protocolo para combater o crescimento com a despesa do medicamento hospitalar.
Uma fonte da IF, presente em uma das reuniões promovidas pelo HSM, e que pediu o anonimato, avançou à Lusa que o que esta direcção está a fazer é a solicitar descontos sobre vendas futuras. No seio da IF, são já famosas as negociações promovidas pelo HSM, com vários laboratórios a discordarem dos métodos, mas a terem de aceitar as condições para se manterem no negócio.
Adalberto Campos Ferreira garante que a poupança alcançada na área dos medicamentos justifica os meios e assegura que são os utentes que beneficiam mais com as iniciativas da direcção.
“Os descontos que conseguimos da IF durante um ano foram suficientes para as obras da nova farmácia hospitalar”, que deverá ser inaugurada em Fevereiro, anunciou. Sobre as críticas de outros laboratórios, o gestor considera-as “naturais, por parte de quem não ganha” e, por isso, “não está contente”.
Contactada pela Lusa, fonte do INFARMED disse que as questões referentes a estas técnicas de venda “não são matéria para a Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde”. Também a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde não tem conhecimento de qualquer ilegalidade nesta área, relacionada com o HSM e a IF.
Adalberto Campos Ferreira termina este ano o mandato de três anos à frente do Hospital de Santa Maria e garante que deixa obra feita, visível um pouco por toda a instituição, e merecedora de rasgados elogios por parte do ministro da Saúde, António Correia de Campos.
Recorde-se que, há dois anos atrás, o ministro da Saúde anunciava que esta direcção do HSM havia recebido ameaças de morte, e garantiu que as mudanças na instituição vinham para ficar.
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