| Escrito por Tiago Reis,
em 22-05-2009 16:24
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De um conjunto de acções desenvolvidas pela Inspecção-Geral das
Actividades em Saúde (IGAS), entre 2006 e 2007, resultou uma constatação
preocupante: um número substancial de centros de saúde portugueses não possuía
registos actualizados sobre as actividades do Programa Nacional da Diabetes ou
do Programa Nacional de Prevenção e Controlo das Doenças Cardiovasculares. Em
muitos casos, era impossível o acesso dos doentes a serviços fundamentais
nestes domínios e a ligação aos hospitais, onde se efectivam rastreios,
consultas de especialidade e cirurgias, revelava-se deficiente. Fomos à procura
das diferenças sentidas, hoje, em alguns dos centros de saúde escrutinados
nessa altura pelos inspectores. Descobrimos que a democratização de ferramentas
como o SAM, a entrada em vigor da nova Lei do Tabaco - com as respectivas
obrigações - e a nova cultura vigente nas unidades de saúde familiar,
contribuíram para diluir as carências do passado
Em 2007, a Inspecção-Geral das
Actividades em Saúde (IGAS) produziu um relatório de avaliação das condições de
implementação, em centros de saúde, de dois programas do Plano Nacional da
Saúde (PNS): o Programa Nacional de Prevenção e Controlo das Doenças Cardiovasculares
(PNPCDC) e o Programa Nacional da Diabetes (PND).
A avaliação sobre o andamento
destes dois programas, nos Cuidados de Saúde Primários (CSP), centrou-se numa
amostra de 21 CS, localizados de norte a sul do país. Teve por base acções
inspectivas realizadas, numa primeira fase, até Junho de 2006. Seguiram-se mais
duas fases de estudo: a primeira durante o segundo semestre de 2006 (com a
aplicação, nos CS, de um questionário previamente preparado pela Direcção-Geral
da Saúde e Alto-Comissariado da Saúde) e a segunda na primeira metade de 2007,
dedicada à análise e tratamento dos dados.
As conclusões obtidas foram pouco
lisonjeiras para os CSP. No total da amostra monitorizada, aproximadamente 50%
das instituições "revelou uma quase total ausência de registos ou efectiva
monitorização dos dados em saúde solicitados (...) nalguns casos devido à
inexistência de sistemas de registo de informação adequados", pode ler-se no
relatório. O mesmo documento frisa que pese embora muito do hardware e software
já tivesse sido adquirido em 2006, abundavam os CS em que "nem todos os
gabinetes médicos tinham acesso ao SAM, ou a outro sistema de informação".
Era pré-reforma: faltava cultura
de responsabilização
Os inspectores da IGAS garantiram
ter identificado, numa época em que a reforma dos CSP mal saíra do papel,
"falta de uma cultura de responsabilização ou de avaliação de desempenho,
conclusão que foi contrariada pontualmente nalgumas situações (...)".
A má articulação entre CS e hospitais
de referência observou-se em quase todos os casos analisados, com efeitos
gravosos na gestão dos doentes cardiovasculares e diabéticos (o rastreio de
retinopatia é um exemplo elucidativo). Contudo, as dificuldades intrínsecas aos
CS também se fizeram sentir. Assim, 71% das unidades avaliadas não possuía uma
consulta do pé diabético organizada e a "maioria dos CS não dispunha de
registos actualizados e fidedignos do número de utentes referenciados ou
convocados para uma consulta de retinopatia".
Já no âmbito da HTA, cerca de
metade dos CS escrutinados (abrangiam aproximadamente 900 mil pessoas) não foi
capaz de contabilizar o número de hipertensos identificados durante o triénio
de 2004/2006. Por outro lado, somente 9 dos 21 CS estudados disponibilizaram dados
sobre o número de consultas de vigilância para o controlo da TA.
Ao nível da cessação tabágica -
área sensível na redução do risco cardiovascular -, a generalidade dos CS não
conseguia determinar o número de fumadores identificados nas listas de utentes
ou o total de referenciações para consulta de evicção tabágica.
A IGAS dá nota, neste relatório,
que a assumpção de responsabilidades ao nível do cumprimento do PNS, por parte
de directores de serviços assistenciais, é fundamental e que a contratualização
que se tem vindo a efectuar com as USF é positiva, mas não suficiente: "a
contratualização com as ARS constitui uma boa prática, mas não resolve o
problema, na medida em que a avaliação da execução do PNS não se pode
circunscrever à avaliação dos resultados ou ganhos em saúde nas USF".
Perspectivas apontam para melhoria
O Médico de Família contactou vários responsáveis de CS retratados no
relatório da IGAS, no intuito de perceber o que teria mudado desde 2007.
Das informações recolhidas é
possível aferir uma tendência positiva, senão nos processos que conduzem à
execução dos dois programas do PNS, pelo menos nas condições em que se registam
os dados referentes aos mesmos. Sobretudo, por se terem
concretizado avanços significativos nas ferramentas informáticas colocadas ao
dispor dos profissionais de saúde, com destaque para a generalização nos CS (e
em particular nos mais rurais e isolados) de sistemas como o SAM/SAPE, ou outros
equivalentes.
De facto, só quando estes sistemas
entram na rotina de médicos e enfermeiros se torna exequível um registo
consistente, útil para o desenvolvimento do PNPCDC e do PND. Isto apesar de os
autores do relatório ressalvarem, desde logo, que a inexistência de sistemas de
informação jamais poderá "desresponsabilizar os dirigentes dos serviços".
A ainda directora do CS de
Gouveia, Maria de Fátima Lima, adianta que desde 2007 o panorama transformou-se
naquela unidade, em particular no que toca às críticas sobre a não
informatização dos ficheiros clínicos: "o SAM já está operacional em todo o CS,
o que não foi tarefa fácil". Há dois anos, também não existia uma consulta
estruturada para os diabéticos ou hipertensos, situação que, segundo aquela
responsável, evoluiu de modo positivo: "agora, todos os médicos fazem uma
consulta diferenciada para estes utentes, em horário bem definido". A consulta de desabituação
tabágica, indisponível em 2007, passou a realizar-se em Gouveia, como aliás
seria expectável.
No que concerne às dificuldades
para comunicar com o Hospital da Guarda, bem como à tradicional falta de
informação de retorno aos médicos de família, Maria de Fátima Lima assegura que
tudo permanece mais ou menos na mesma: "nada de novo a sinalizar. Esperamos que,
com o desenvolvimento da Unidade Local de Saúde, as coisas melhorem".
Ajuda dos convencionados melhora resposta
Na Póvoa do Varzim, a IGAS
detectou em 2007 - entre outras limitações - a ausência de diapasão para uso
dos profissionais de saúde, bem como de uma consulta organizada do pé
diabético.
Miguel Fernandes, que assumiu a
direcção daquele CS em Outubro de 2007, realça as muitas diferenças que se
registam hoje em dia: "a consulta do pé diabético foi implementada ainda
durante o ano de 2007 e decorre todas as segundas-feiras. É conduzida pelo
responsável deste serviço, conjuntamente com colegas que realizam o Internato
de MGF. Encontramos, portanto, pelo menos três médicos em apoio constante a
esta consulta". Também o diapasão já se encontra nas instalações do CS da Póvoa
do Varzim. Sobre a referenciação para rastreio a retinopatia diabética e para
cirurgia às cataratas, Miguel Fernandes diz-nos que o contexto se tem
desagravado: "neste momento, existem convenções com entidades privadas, que dão
resposta à necessidade de cirurgia, sempre que os timings do Hospital Pedro Hispano não são os mais adequados. Assim,
os utentes têm sempre uma resposta relativamente rápida".
Entretanto, a intervenção ao nível
da cessação tabágica já tem uma estatística respeitável no CS da Póvoa do
Varzim. O número total de primeiras consultas, realizadas em 2008, foi de 48,
sendo o número de segundas consultas de 87.
Santarém: SAM faz toda a diferença... quando está operacional
O CS de Santarém foi um dos 21
serviços apreciados pela IGAS. O responsável médico por esta unidade, Joaquim Marques,
relembra o facto de o SAM abranger a vigilância dos doentes diabéticos e
hipertensos: "isto significa que cada MF está a concretizar a vigilância de
acordo com os indicadores contemplados nos programas do PNS e tendo em conta as
orientações técnicas da DGS. Em 2007, terá havido dificuldade em responder a
várias questões do questionário da IGAS, devido à ausência do SAM. Agora, toda
a gente está a trabalhar com o sistema, quando ele nos deixa e descontando as
avarias que vão surgindo!".
O acesso a consultas vitais para a
obtenção dos objectivos preconizados nos dois programas nacionais, como a do pé
diabético, ainda está limitado às duas unidades de saúde familiar (USF) criadas
no CS de Santarém. Fora delas, os processos estão mais atrasados. "Há consulta
de cessação tabágica para os utentes da USF São Domingos. Já para os restantes
utentes do CS, isso ainda não é possível. Em relação ao pé diabético, temos várias
enfermeiras com formação em Podologia, que fazem a vigilância dos diabéticos,
mas ainda não existe uma consulta organizada. É óbvio que a disponibilidade dos
dois tipos de consultas, para todos os utentes do CS, seria da máxima
importância", conclui Joaquim Marques.
Alguns hospitais só atrapalham...
O responsável do CS de Santarém relembra
que para cumprir o protocolo de vigilância dos diabéticos é vital aceder ao
rastreio da retinopatia, missão complicada em Santarém. Joaquim Marques
assegura, aliás, que a unidade hospitalar escalabitana "tem dificuldades em
responder atempadamente aos utentes". Hoje, o doente espera quase sempre mais de
meio ano pelo rastreio da retinopatia, "apesar da sensibilidade de alguns oftalmologistas,
relativamente aos casos dos diabéticos", esclarece o coordenador médico.
Em relação à cirurgia das
cataratas, os profissionais do CS de Santarém têm a nítida sensação de que o
Hospital Distrital está a aperfeiçoar os seus timings de reacção, embora o tempo de espera se prolongue por largos
meses. Ainda assim, muito melhor do que num passado recente: até aqui havia
quem aguardasse três ou quatro anos por uma operação à vista.
Segundo Joaquim Marques, é
evidente que a articulação com a Oftalmologia do Hospital de Santarém "não é
das melhores e não melhorou muito desde 2007". A informação de retorno para os clínicos
gerais é igualmente escassa. Felizmente, o Serviço de
Cardiologia funciona bem e não cria obstáculos de maior.
Margem sul do Tejo esteve refém dos sistemas de informação
Em 2007, a Inspecção-Geral das
Actividades em Saúde (IGAS) viu-se e desejou-se para perceber se no Centro de
Saúde (CS) da Moita o Plano Nacional da Diabetes e o Plano Nacional de
Prevenção e Controlo da Doenças Cardiovasculares estavam a ser colocados em
prática, com resultados favoráveis. De acordo com o relatório produzido pela
IGAS, o CS "não respondeu à maioria das questões colocadas no âmbito do
questionário de avaliação dos dois programas nacionais referenciados, revelando
na maioria dos casos a inexistência de registos centralizados".
O actual director clínico do
Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Arco Ribeirinho (CS de Alcochete,
Baixa da Banheira, Barreiro, Quinta da Lomba, Moita e Montijo), Francisco
Gouveia, era na época em que as acções inspectivas se concretizaram o director
do CS da Moita. Segundo este responsável, as circunstâncias não serão hoje
radicalmente diferentes, mas deverão melhorar, graças à utilização generalizada
do SAM. "Todos nós, que vivemos com intensidade a Medicina Geral e Familiar, reivindicamos,
desde há muito, instrumentos de monitorização. Ora, pedir este tipo de dados
num contexto de ausência de suportes informatizados é, para mim, inqualificável.
Não é racional exigir que os médicos respondam à sua população, a 30% de
utentes inscritos no CS sem MF e ainda se dediquem a criar registos manuais da
sua actividade", sublinha Francisco Gouveia.
Francisco Gouveia, director clínico do ACES do Arco Ribeirinho
Assim, não restam dúvidas para o
director clínico deste ACES que sem a informatização do acto médico, é quase
impossível prestar contas rigorosas sobre a implementação do PNS: "o que está a
mudar, neste momento, é o facto dos CS passarem a trabalhar integralmente com o
SAM. A partir de agora, está também disponível um módulo estatístico, que reúne
toda a informação de que o profissional necessita". O módulo estatístico do SAM
já está operacional no Barreiro, por exemplo. E em breve, deverá chegar também à
Moita.
Sobre o reparo feito pela IGAS, de
que não existiam à data da avaliação dados sobre as referenciações para
consultas da especialidade, a resposta de Francisco Gouveia sai pronta: "ou há
mecanismos informatizados e ligeiros, que cumpram a tarefa de reunir estes indicadores,
ou então nada feito. Se tínhamos cada vez menos administrativos no quadro, não era
possível colocar os que restavam a tomar nota, à mão, de quem ia para a
Cardiologia ou para a Endocrinologia". Hoje em dia, esses registos acabam por
surgir suportados no ALERT P1, ferramenta utilizada na Moita. Porém, apesar desta
informação puder ser lida por alguns responsáveis e instituições," ainda não
está acessível ao próprio CS, o que é um princípio errado", defende Francisco
Gouveia.
Já sobre as dificuldades de
articulação com o Hospital Nossa Senhora do Rosário (Barreiro), nomeadamente
nas áreas de Cardiologia e Oftalmologia, Francisco Gouveia atesta que tudo continua
na mesma, dois anos volvidos sobre a inspecção.
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