| Escrito por Adelaide Oliveira,
em 08-05-2009 17:04
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Ao mesmo tempo que em Portugal, a reforma dos cuidados de saúde
primários dá os primeiros passos na governação clínica e gestão do
conhecimento, a Catalunha prepara-se para dar corpo ao Projecto Oxigénio, com o objectivo de reconfigurar todo o sistema
de saúde. De ambos os lados da fronteira, o objectivo é passar de um modelo burocrático,
centralista, para uma organização baseada num modelo próprio dos sistemas
adaptativos de alta complexidade, defenderam Luís Pisco e Martín-Zurro num
debate promovido pelo Real Instituto de Estudos Asturianos, em Oviedo
O processo de reforma dos cuidados de saúde
primários em Portugal está a ser observado com grande interesse pelos governos
regionais das comunidades autónomas espanholas. É o caso, por exemplo, de
Astúrias e da Catalunha, esta última também empenhada em desenvolver um
programa de mudança na Saúde, a que chamou de Projecto Oxigénio.
Numa mesa inserida no Foro de debate sobre a Saúde Pública Asturiana no século XXI,
promovida pelo Real Instituto de Estudos Asturianos, em Oviedo, Luís Pisco,
coordenador da Missão para os Cuidados de Saúde Primários (MCSP), apresentou
detalhadamente as várias fases da reforma empreendida no nosso país.
Neste processo de mudança, para além da
constituição das USF e dos ACES com um novo modelo de gestão, Luís Pisco
sublinhou a introdução da hierarquia técnica, que deverá ser instituída através
da formação do conselho clínico. Aliás, a governação clínica e a gestão do
conhecimento fazem parte do segundo eixo do plano estratégico da Missão, a que
acresce a qualificação dos profissionais, a inovação e a simplificação dos
cuidados.
De acordo com Luís Pisco, o êxito da reforma passa
por um "aumento da acessibilidade dos usuários aos serviços", "melhoria da
qualidade assistencial, prevenção e vigilância" e, num futuro próximo, pelo
"aumento do número de serviços que são prestados nos ACES".
Oxigénio para o sistema de saúde catalão
O sistema de saúde catalão está a precisar de "ar
fresco", defende Armando Martín-Zurro, responsável científico pela reforma dos
serviços de saúde na Catalunha. E é isso mesmo que o médico propõe no Projecto Oxigénio, cuja implementação no
terreno está prevista para Julho de 2009. De acordo com o médico, é necessário
reconfigurar o modelo de sistema de saúde catalão, desenhado há cerca de 25
anos. Mas partindo de um "processo de inovação" que contenha "mudanças
qualitativas e não apenas de orientação" e que permita "combinar acções
estratégicas de fundo, a médio e longo prazo, com outras que abordem os
problemas imediatos da assistência quotidiana".
O sistema de saúde da Catalunha precisa de "evoluir
da organização actual, baseada num modelo burocrático maquinal para outra
centrada num modelo biológico orgânico, próprio dos sistemas adaptativos vivos
de alta complexidade", defende o especialista.
Essencialmente, o novo modelo pretende integrar e
dar uma coerência global às melhores iniciativas que estão a emergir no
sistema. O objectivo, de acordo com Martín-Zurro é que os cuidados primários e
secundários funcionem "como partes de uma dupla molécula" e que todos os
agentes do sistema "tenham consciência de que fazem parte de uma comunidade
profissional ao serviço da comunidade".
O Projecto
Oxigénio, cuja estratégia começou a ser delineada no início de 2007, deverá
ser implementado no terreno dentro de dois meses.
Saúde Pública e CSP: falha o trabalho conjunto
O sistema de saúde, além de oferecer benefícios
tangíveis, como segurança, cura, melhoria e conforto, também pode apresentar
"efeitos adversos", como "dependência excessiva" ou a "medicalização da vida quotidiana",
avisou Andreu Segura, presidente da Sociedade Espanhola de Saúde Pública durante
o debate promovido pelo Real Instituto de Estudos Asturianos.
Na obra "Admirável Mundo Novo", Aldous Huxley
antecipa que "a investigação das doenças avançou tanto que é cada vez mais
difícil encontrar alguém que esteja completamente são". E de facto, "a obsessão
pela saúde perfeita nos países desenvolvidos tornou-se um factor patogénico
predominante", acrescenta Andreu Segura. "O sistema médico, num mundo
impregnado do ideal instrumental da ciência, cria sem cessar novas necessidades
de cuidados de saúde". Importa, portanto, reflectir sobre o perigo de "doenças
inventadas, exageradas ou fomentadas". E esse é um trabalho que deverá assentar
numa aliança estratégica entre a Saúde Pública e os cuidados de saúde
primários.
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