| Escrito por Adelaide Oliveira,
em 08-05-2009 12:42
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Ana Jorge garantiu aos cerca de 900 participantes
no Fórum Nacional da MCSP sobre a implementação dos ACES, que a reforma dos CSP
é a mais importante intervenção do Governo na área da Saúde. Uma certeza
reafirmada no encerramento do evento pelos seus dois secretários de estado: "a
agenda" é só uma: a implementação dos ACES e não a multiplicação de
unidades locais de saúde (ULS), garantiu Manuel Pizarro. Em cima da mesa, o
governante deixou ainda uma mão cheia de novidades: programas de reformulação e
modernização dos edifícios das unidades de saúde nas áreas metropolitanas onde,
regra geral, se encontram os edifícios mais degradados; colocação de fibra
óptica em todos os centros de saúde e extensões com mais de cinco mil utentes;
contratação de um novo data center para o SNS; concurso público para a
actualização tecnológica e funcional do SAM/SAPE e, por último, em prol da
simplificação administrativa, a possibilidade de os médicos de família enviarem
sugestões através do site da MCSP para aliviar a carga burocrática nos CSP
A implementação dos Agrupamentos de Centros de
Saúde (ACES) esteve em debate em
Santa Maria da Feira num encontro de profissionais do sector,
que contou com a presença da ministra Ana Jorge e dos seus dois secretários de
estado.
Organizado pela Missão para os Cuidados de Saúde
Primários (MCSP), a iniciativa teve como destinatários, todos os profissionais
que exercem actividade neste sector e também aqueles que, no âmbito da sua
actividade profissional, interagem mais directamente com os cuidados de saúde
primários (CSP). No total, o encontro reuniu mais de 900 pessoas.
A reforma dos CSP é, do ponto de vista do governo,
a mais importante intervenção na área da Saúde, afirmou a ministra Ana Jorge na
abertura do Fórum Nacional sobre a implementação dos ACES. Esta mensagem seria
reforçada ao final da tarde pelos seus dois secretários de estado.
Questionado pelo nosso jornal sobre o aparente
anacronismo entre o avanço dos ACES, por um lado, e a suposta intenção de
Francisco Ramos no sentido de aumentar o número de unidades locais de saúde
(ULS) no país, Manuel Pizarro esclareceu: "não é verdade que existam duas
agendas na Saúde. O facto de nos encontrarmos juntos neste fórum é a prova
disso", desmentiu o secretário de Estado da Saúde, apontando o seu colega
Francisco Ramos. Do ponto de vista "estritamente racional", Manuel
Pizarro considera mesmo que "não há nenhuma razão para supor que a criação
de quatro ou cinco ULS, que abrangem, no seu conjunto, seis ou sete por cento
da população portuguesa, significa uma menor prioridade à reforma dos CSP por
via da criação dos ACES". As ULS constituem "uma tentativa de
melhorar a articulação entre os CSP e os cuidados secundários". Podem ser
"um instrumento" para essa melhoria mas nunca "o
instrumento", garantiu.
Reforçando essa ideia, o governante apontou que,
nos últimos quatro anos, os CSP foram "não apenas a prioridade anunciada
na política de saúde" mas "uma prioridade patente no discurso dos
dirigentes políticos, da Administração Pública e no debate dos cidadãos".
Reforma é impossível de subverter
Nesta fase, Manuel Pizarro considera que "há
vários sinais que mostram que a reforma é impossível de subverter". O
primeiro deles tem a ver com o desenvolvimento das unidades de saúde familiar.
"Não é indiferente aos portugueses e ao Serviço Nacional de Saúde a existência
de 165 USF" que implicaram "a realização de um vastíssimo conjunto de
obras de melhoramento das infra-estruturas dos cuidados de saúde primários e a
instalação de equipamentos e sistemas de informação". Tudo isto constitui
"um enorme avanço em relação ao panorama que existia anteriormente".
Aliás, "os profissionais e utentes dessas unidades sabem bem a diferença que
existe entre o que têm hoje e o que havia anteriormente", sublinhou o
secretário de Estado, apontando que "todos os inquéritos de satisfação
produzidos localmente mostram essa percepção".
Mas as características inovadoras do modelo das USF
"não se reduzem ao aumento da satisfação dos profissionais e dos
utentes". Há muitos outros aspectos de grande relevância. Entre eles, o
governante destaca a mudança de paradigma que pressupõe passar de uma estrutura
hierárquica para uma realidade de autonomia e de contratualização. Dirigindo-se
aos cerca de 900 profissionais presentes no Fórum, Manuel Pizarro recordou que
"a maior parte de nós somos funcionários públicos. Fomos habituados às regras inerentes
a uma hierarquia em que a actividade quotidiana é estruturada em função de
decisões verticais. A modificação deste sistema hierárquico de comando e
controlo para um paradigma de autonomia e de contratualização é enorme".
Em resposta às críticas sobre as insuficiências do
modelo, o secretário de Estado reconhece que este precisa de ser aperfeiçoado
mas argumenta que, "se esperássemos para ter tudo resolvido, podia não
haver reforma nenhuma...".
Também quanto ao Modelo B, a sua convicção é a de que
"já não há hipótese de recuar". Pelo contrário, " a lógica será
desenvolver e aperfeiçoar os modelos de remuneração associada ao desempenho,
alargando-os a todo o universo dos cuidados de saúde primários e,
posteriormente, ao conjunto dos sistemas da Administração Pública".
A contratualização está para a Saúde como a
democracia para a sociedade
Hoje, o maior objectivo da tutela diz respeito
à" instalação efectiva dos agrupamentos de centros de saúde". A ideia
que preside a este processo de elevada complexidade passa pela
"organização de pequenas unidades funcionais que prestem cuidados de saúde
de proximidade, operacionalizadas um pouco à medida do que temos feito com as
unidades de saúde familiar". Também com o objectivo de ganhar economias de
escala para as decisões que têm a ver com a gestão dos recursos, explica Manuel
Pizarro. O desafio centra-se, não apenas nos aspectos funcionais, mas também
nos organizativos e institucionais, com a contratualização a ganhar cada vez
mais expressão. Externamente, ou seja, entre as ARS e os ACES, e internamente,
entre os agrupamentos e as diferentes unidades funcionais.
Todavia, o processo de desenvolvimento de um modelo
contratual em detrimento do modelo hierárquico e burocrático não está isento de
riscos. "Num vazio produzido pela ausência de mecanismos de
contratualização claros, identificados e utilizados por todos, o velho modelo
ganhará força. Ou somos activos no desenvolvimento do modelo contratual ou o
anterior voltará a ocupar o seu lugar". Manuel Pizarro avisa ainda que,
apesar dos enormes avanços registados neste domínio, "a vitória da reforma
dos cuidados de saúde primários não é um dado adquirido. Exige muito
esforço". Nessa perspectiva, "o desenvolvimento de novas unidades de
saúde familiar constitui um contributo essencial para os ACES", na medida
em que as USF - "a parte mais viva desta reforma" - ajudam a
aproximar mais o modelo de contratualização do conjunto do sistema. É que
"a contratualização funciona para os centros de saúde como a democracia
para as sociedades", diz o secretário de Estado, recordando a célebre
frase de Winston Churchil: "a democracia é o pior sistema, à excepção de
todos os outros".
Ao nível da liderança dos agrupamentos, o
governante refere o surgimento das direcções clínicas como "uma das
grandes marcas dos ACES e uma oportunidade para desenvolver um trabalho de
qualidade nas unidades de saúde". Do mesmo modo, salienta que "o modelo
de liderança nos CSP está a ser acompanhado por um processo de formação e de
acompanhamento do seu exercício, o que é absolutamente inovador", podendo
mesmo tornar-se, no futuro, um modelo para toda a Administração Pública.
Aumento da largura de banda ainda este ano
Neste grande movimento mobilizador que a
reforma implica, o secretário de Estado da Saúde anunciou programas de
reformulação e modernização das infra-estruturas dos cuidados de saúde
primários, sobretudo "em concelhos das áreas metropolitanas onde as necessidades
são manifestamente maiores, em geral, do que no mundo rural".
Já no que diz respeito aos sistemas de informação, em
2009 vamos assistir a uma "verdadeira revolução". Nomeadamente,
através da colocação de fibra óptica em todos os centros de saúde e extensões
com mais de cinco mil utentes. Por esta via "atinge-se uma largura de
banda incomparavelmente superior à actual". Esta medida será acompanhada
da contratação de um novo data center para o Serviço Nacional de Saúde
"de modo a que se possa usufruir de todas as vantagens de uma rede mais
capaz, sem factores limitativos".
Outra das novidades diz respeito às aplicações
informáticas: "Vamos encorajar a existência de mecanismos de mercado no
seu desenvolvimento. Já assinei um despacho para que a ACSS ponha em concurso,
no mercado, a actualização tecnológica e funcional e a fusão do SAM/SAPE".
A simplificação administrativa é outra das
vertentes da reforma. De acordo com Manuel Pizarro, "a tutela tem vindo a
identificar um vasto conjunto de papéis que se tornaram obsoletos". É o
caso dos atestados de robustez física exigidos para ingressar na Administração
Pública que, garante o governante, serão anulados dentro em breve através de
decreto-lei. E porque por cada papel que se anula, "há sempre o perigo de
surgirem dois ou três", o secretário de Estado anunciou outra novidade
neste domínio: através da página da Missão para os Cuidados de Saúde Primários
(www.mcsp.min-saude.pt), os profissionais de saúde vão ter a possibilidade de
dar sugestões tendentes a "aliviar a carga burocrática" nos CSP.
Agrupamentos são "trave-mestra" da
reforma do sistema de saúde
Em linha com Manuel Pizarro, o secretário de Estado
Adjunto da Saúde, Francisco Ramos, afirma que a reforma dos cuidados de saúde
primários é "a trave mestra para que continuemos a desenvolver o nosso
sistema de saúde".
Num testemunho pessoal de agradecimento e
reconhecimento pelo trabalho realizado, o secretário de Estado Adjunto da Saúde
sublinhou o "imenso caminho" percorrido nos últimos quatro anos e os
avanços registados. Isso deve-se ao facto de a reforma "ter sido definida
como uma prioridade política" e, fundamentalmente, "possuir uma
liderança técnica clara que soube colocar a reforma no terreno, com os
profissionais". Nesse âmbito, Francisco Ramos dirigiu palavras de apreço
aos profissionais de saúde e, principalmente, a Luís Pisco que, como
coordenador da Missão para os Cuidados de Saúde Primários, "foi uma peça
fundamental para o avanço da reforma".
"Agrupar para trabalhar melhor" dá voz
aos profissionais das URAP
Com o sinal inequívoco dos responsáveis do
Ministério da Saúde de que a reforma dos cuidados de saúde é "a
prioridade" do Governo na área da Saúde, os trabalhos do Fórum Nacional
sobre a Implementação dos ACES prosseguiram, com a atenção dos profissionais
centrada, agora, em aspectos práticos, funcionais e organizativos. Na sessão
plenária da manhã falou-se, essencialmente das pessoas. Vítor Ramos, médico de
família da USF Marginal e membro da Missão para os Cuidados de Saúde Primários,
salientou que a palavra de ordem é "agrupar para trabalhar melhor". O
facto de nos agrupamentos de centros de saúde a tónica gestionária incidir na
"produção de resultados em saúde" e não "na produção de actos
médicos", leva à valorização de um conjunto de disciplinas até agora relegadas
para segundo plano. Nomeadamente, a Psicologia, Nutrição, Fisioterapia, Higiene
Oral e Serviço Social. A Missão deu voz aos representantes destas profissões
para que, em conjunto com todos os outros profissionais dos ACES - médicos,
enfermeiros e administrativos - falassem das mais-valias que a sua presença
representa num agrupamento de centros de saúde. "A implementação dos ACES
não significa apenas uma reorganização, mas toda uma mudança de cultura", diz
Vítor Ramos.
Neste novo contexto, "é importante valorizar
todas as competências que concorrem para o processo de produção da saúde. Num
ambiente salutogénico, a consulta
médica deve ficar na retaguarda, ou seja, só quando os aspectos de educação,
promoção da saúde e adopção de estilos de vida saudáveis não são suficientes é
que deve avançar a medicalização e não ao contrário".
Na sessão, discutiu-se sobretudo a necessidade de
dar maior visibilidade aos profissionais das unidades de recursos assistenciais
partilhados (URAP) e a mecânica do trabalho em equipa. O problema é que
a distribuição destas competências profissionais nos agrupamentos é bastante
assimétrica. Luís Marquês, director executivo do ACES de Palmela, confessa que
pessoalmente não tem razões de queixas, mas que na maioria dos casos não é isso
o que acontece. A questão é, pois, de natureza estratégia, com alguns
dirigentes a avançarem a possibilidade de recorrerem a uma política de outsourcing.
A hipótese não foi, contudo, bem recebida. A grande maioria dos directores
executivos dos ACES partilha da opinião de Rui Medón, director executivo do
ACES Porto Ocidental: todas aquelas profissões que, antigamente, eram
apelidadas de "os outros" devem fazer parte do core business da
prestação de cuidados nos ACES: "É preciso que façam parte da equipa dos
agrupamentos, na medida em que a prestação de cuidados de saúde tem que ser
feita em rede, através da colaboração de todos os profissionais e em função de
um estudo aprofundado das necessidades da população".
Ministério vai criar Portal de Boas Práticas
Da parte da tarde, o Fórum dividiu-se em quatro
sessões paralelas sobre autonomia de gestão, interface com a
comunidade, interface com os hospitais e governação clínica.
Extremamente concorridas, ao ponto de muitas pessoas terem de assistir de pé,
as sessões prolongaram-se até às cinco da tarde dada a quantidade de
intervenções dos participantes. Foi o que aconteceu no debate em torno da
governação clínica, introduzida pelo médico de família Francisco Gouveia, com a
moderação de Moura Relvas, coordenador da USF Nova Via.
Introduzido no Reino Unido há cerca de uma década,
esta nova "ferramenta" visa motivar as organizações para melhorarem
continuamente a qualidade dos seus serviços. O desafio passa por implementar
uma nova cultura nos ACES, que permita caminhar para um novo sistema de
colaboração entre os profissionais das várias áreas, numa lógica de partilha de
saberes e competências.
Ultrapassar as barreiras até agora existentes entre
as diversas classes profissionais, a partilha das boas decisões e descobertas,
a investigação, a gestão do risco, a adopção de Normas de Orientação Clínica, a
promoção da efectividade e eficiência dos cuidados prestados, aplicando os
recursos onde são mais necessários e tendo particularmente atenção aos grupos
com necessidades especiais, são algumas das linhas de força subjacentes a este
conceito, já aplicado nas unidades de saúde familiar. O desafio consiste agora
em transportá-lo e aplicá-lo nos agrupamentos de centros de saúde.
Prevê-se que a formação dirigida aos membros dos
conselhos clínicos dos ACES tenha início no próximo dia 12 de Maio. Nessa
altura, está igualmente prevista a construção, pelo Ministério da Saúde, de um
Portal de Boas Práticas. O objectivo, de acordo com Francisco Gouveia, é o de "partilhar
tudo aquilo que de bom acontece nos ACES".
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