| Escrito por Adelaide Oliveira,
em 22-04-2009 14:40
|
Não há uma grande tradição de investigação em Medicina Geral e
Familiar. Por isso, ela não tem sido valorizada. Existem mesmo alguns
detractores que afirmam que os estudos, em MGF, apenas focam banalidades e só
chegam a resultados óbvios. "Cabe-nos, a nós, provar que não é assim!",
defendeu Catarina Resende de Oliveira no III Encontro Nacional de MGF das
Faculdades de Medicina.
Reunidos em Coimbra, docentes de MGF das Faculdades
de Medicina discutiram em profundidade as questões ligadas à investigação e ao
ensino. A reunião contou com a presença de Castro e Sousa, presidente do
conselho directivo da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC),
que expressou claramente o apoio da faculdade a todas as iniciativas que visem
a procura de melhores condições e qualidade do ensino médico. "O Sistema
Nacional de Saúde, agora com 30 anos, não funciona sem uma base de qualidade,
empenhada, motivada e realizada na sua profissão, como têm que ser os médicos
de família em Portugal". Hoje, há um interesse renovado pela Medicina Familiar,
acrescentou o catedrático, que observa com interesse a reforma em curso nos
cuidados de saúde primários. "Enquanto for presidente do conselho directivo da
FMUC tudo farei para apoiar e acarinhar a Medicina Familiar", afirmou. "Considero
que é uma área fundamental do Serviço Nacional de Saúde e, nessa medida,
procuramos que os alunos tenham contacto, do primeiro ao último ano, com os
cuidados de saúde primários".
Investigação deve fazer parte da cultura dos médicos de família
O desenvolvimento da investigação na área da
Medicina Familiar foi um dos temas fulcrais do debate entre os docentes, com o
particular envolvimento de professores da Faculdade de Medicina de Coimbra,
onde a MGF tem um papel activo na formação pré-graduada desde há quase 20 anos.
"Não há uma grande tradição de investigação em Medicina Geral e Familiar.
Por isso, essa investigação não tem sido valorizada". No entanto, "deve fazer
parte da actividade dos médicos de família", defende Catarina Resende de
Oliveira, presidente do conselho científico da FMUC. "Existem alguns
detractores da investigação em
MGF. Dizem que apenas foca banalidades e só chega a
resultados óbvios. Cabe-nos, a nós, provar que não é assim!". A MGF poderá
trazer um contributo muito importante em áreas como a epidemiologia, patologias
crónicas, estudo do envelhecimento e das doenças degenerativas: "o médico de
família está numa posição privilegiada para fazer uma investigação que não é
possível em meio hospitalar e que abrange uma área muito própria e bem definida".
A apoiar este argumento, Catarina Resende
apresentou os resultados de uma sondagem realizada pelo British Medical Journal, segundo a qual aproximadamente 90% dos
clínicos considera que a investigação em MGF é "importante" e 68% afirma que
tem influência na prática médica.
Para um desenvolvimento sustentado da investigação,
a docente defende a colaboração estreita entre os médicos de família,
enfermeiros, estudantes e centros universitários. "É, necessariamente, uma
investigação multidisciplinar em que necessitaremos da bioestatística e da
bioinformática para a construção de bases de dados. Daqui sairá um novo
conhecimento e melhores cuidados aos doentes, com menos custos", diz a
investigadora. Uma posição que merece o apoio de Castro e Sousa, que afirma que
uma faculdade de Medicina não tem como função exclusiva formar médicos
competentes que sejam capazes, com humanidade, de tratar o seu semelhante. Tem,
também, afirma, de "dar à sociedade, e ter nos seus quadros, profissionais que
garantam o progresso na área assistencial" através de uma investigação fecunda
nas ciências básicas e clínicas. "Ainda não produzimos tantos doutores nesta
área como gostaríamos. É uma carência que todos reconhecemos, mas que esperamos
venha a ser ultrapassada em pouco tempo".
Investigação sobre envelhecimento: com a colaboração de 26 CS
Um estudo iniciado há dois anos pela Faculdade de
Medicina da Universidade de Coimbra e pela Faculdade de Ciências Médicas da
Universidade Nova de Lisboa, constitui um bom exemplo da colaboração necessária
em investigação. Incide
sobre o perfil de envelhecimento da população portuguesa e conta com o
envolvimento de 26 centros de saúde nacionais.
Durante o Encontro foi igualmente divulgado que no
ano lectivo de 2007/2008 foram realizados seis trabalhos de investigação na
área científica da CG/MGF, com vista à atribuição do grau de mestre, no âmbito
do ciclo de estudos do Mestrado Integrado em Medicina da FMUC.
No Encontro de Coimbra foram apresentados dois
desses trabalhos - Redução do risco
cardiovascular global através da continuidade de cuidados assistenciais
prestados a uma população hipertensa pelo médico de família e A adesão à terapêutica anti-hipertensiva e a
sua preponderância no controlo da doençaexcelente após
a dissertação de mestrado. - da autoria das mestres Mónica
Marlene Lopes e Sofia Matos Oliveira, respectivamente. Ambos os trabalhos
obtiveram a classificação de
Este ano lectivo, foram apresentados dez projectos
de investigação e solicitada a orientação de três dos assistentes da disciplina
de MGF da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
Alunos reconhecem a importância social da MF
João Pedro Francisco, que participou neste terceiro
encontro em representação do Núcleo de Estudantes de Medicina da Associação
Académica de Coimbra, afirma que "não há sistema de saúde que se possa dar ao
luxo de prescindir dos cuidados de saúde primários".
Salientando a "subvalorização do médico de família
pelo próprio" e os comentários pouco tolerantes dos colegas de outras
especialidades, o jovem estudante considera que os futuros médicos,
independentemente da sua especialidade, "devem reconhecer a importância social
da Medicina Geral e Familiar, diagnosticando e combatendo, na sua prática
diária, as causa de descrédito da classe".
Inês Laíns, presidente da Associação Nacional de
Estudantes de Medicina afirma, por seu turno, que uma parte muito significativa
dos estudantes de Medicina vai ser médico de família, em função dos actuais
mapas de vagas. "No último concurso, 25% do total de vagas foram ocupadas pela
MGF". Isso significa que muitos alunos irão escolher a Medicina Familiar, "por
opção ou por imposição".
Numa formação de qualidade, a MGF deve representar
uma forte componente da formação pré-graduada, sustenta a presidente da ANEM.
"Mesmo como especialistas de outras áreas, os médicos precisarão sempre dos
conhecimentos da área da Medicina Geral e Familiar".
|
|
|