| Escrito por Cláudia Brito Marques,
em 17-10-2008 17:01
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Há muito que se vem reflectindo sobre a
importância do afecto e da empatia naquela que é, por excelência, a relação em
Medicina: a relação entre médico e utente. Pouco se tem explorado, por outro
lado, o elo entre dois outros actores importantes nesta área: o interno e o seu
orientador de formação. Com o objectivo de integrar a lacuna, a comissão
organizadora do 7º Encontro Nacional de Internos de MGF/1º Encontro
Luso-Brasileiro de Jovens MF organizou um debate sobre o tema, onde temáticas
como os grupos Balint, as emoções e o poder da comunicação emergiram
naturalmente na discussão
Na
primeira sessão do segundo dia de trabalhos, dedicada à importância dos afectos, Célia Gonçalves, interna do 2º ano de
Medicina Geral e Familiar (MGF) na Unidade de Saúde Familiar (USF) Mactamã,
debruçou-se sobre este tema na perspectiva da relação entre o interno e o seu
orientador de formação.
Uma
abordagem que se poderia classificar como original, na medida em que esta é uma
área exaustivamente explorada – mas jamais esgotada! – ao nível da relação médico/doente.
Neste
sentido, a formanda salientou o papel decisivo que a relação interno/orientador
desempenha no processo formativo, lembrando que esta exige um trabalho rigoroso
e cuidadoso de ambos e notando que, para além da vertente interpessoal/comunicacional,
esta relação é pautada pela faceta legal/normativa.
Como
competências do interno – “que não são mais do que as expectativas do
orientador face ao formando” –, Célia Gonçalves destacou a capacidade de
comunicação, o bom senso, a gestão adequada de recursos, conhecimentos de
bioética e de investigação e valores como a verdade, o respeito, a
responsabilidade e o diálogo.
Neste
contexto, importa também conhecer as expectativas do interno face ao seu
formador, de forma a entendermos os factores em jogo nesta relação. Entre
outras, a confiança no orientador, possibilidade de discussão e tomada de
decisões conjunta, treino de procedimentos, crescimento e desenvolvimento
pessoal, entre outras.
Durante
o Internato, há ainda um conjunto de atitudes que cabe ao formando desenvolver,
recordou a jovem médica, tais como reconhecer e assumir o seu papel, confiar no
orientador, desenvolver capacidade de (auto)-crítica, saber (conhecimento
técnico-científico), querer (atitude positiva face à formação e à MGF) e poder
(reconhecer as oportunidades de formação e aprendizagem).
Porque cada interno é um “mundo novo”…
De
acordo com Célia Gonçalves, são muitos os factores que podem condicionar
(positiva ou negativamente) a relação entre o interno e o seu orientador de formação.
É
preciso não esquecer que cada formando é “um mundo novo” e que o tutor precisa
de desenvolver, constantemente, uma docência personalizada. A motivação é outro
dos factores em jogo nesta relação, com impacto, quer na formação do jovem
médico, quer na actividade do orientador, bem como na vida pessoal de ambos e
na sua relação com os utentes.
Estes
últimos desempenham um papel-chave na construção do elo interno/orientador,
numa dinâmica de triangulação, em que os efeitos podem ser devastadores, advertiu
a formanda da USF Mactamã. É um terceiro elemento, adiantou, que pode perverter
e desequilibrar a relação.
Com
base na sua própria experiência de internato, Célia Gonçalves propôs que a
relação formando/orientador assente no modelo bidireccional, por oposição a um
modelo mais formal e antiquado, em que o tutor é o “mestre” e o aluno o
“subordinado”. No modelo bidireccional, mais à semelhança daquele que o seu
orientador pratica, a aprendizagem é activa, baseia-se na competência e o foco
está no interno.
Da
sua experiência de dois anos como interna de MGF, Célia Gonçalves destaca, como
factores muito positivos, “a liberdade para crescer, a possibilidade de transgredir, o aprender ensinando (porque na unidade existem também alunos de
Medicina a realizarem estágios), a possibilidade de participar activamente na
discussão de casos, a responsabilização e a capacidade constante que o seu
orientador tem de motivá-la”.
Relativamente
ao afecto, que garante existir na relação com o seu orientador, a formanda considera-o
como “elemento central para a consolidação da adaptação, do sentimento de
pertença, da motivação, da auto-confiança e da autonomia”.
Empatia é uma ferramenta ao alcance do
MF
Na
relação médico/doente, o afecto reveste-se de um peso ainda mais significativo,
com a comunicação, as emoções e a empatia a surgirem como palavras mágicas
neste contexto.
Nos
últimos meses, o médico de família (MF) e presidente da Associação Portuguesa
de Grupos Balint (APGB), Jorge Brandão, esteve envolvido na árdua tarefa de
organizar um dossier sobre o tema da relação médico/doente – ou médico/pessoa,
como prefere abordar a questão – para a Revista Portuguesa de Clínica Geral
(RPCG). Foi um pouco desse trabalho (e do conjunto de contributos que reuniu)
que o MF levou ao Encontro de Internos. “Um dossier em aberto…”, notou, uma vez
que “esta temática é muito vasta”.
Assim,
na sua apresentação, Jorge Brandão cingiu-se aos modos de lidar com sentimentos
na vida profissional, ao papel da comunicação na prática médica como componente
terapêutica, aos Grupos Balint (GB) e sua importância para o MF.
Com
base em evidência científica, o clínico sustentou que “doentes satisfeitos
melhoram mais depressa” e que tal se deve a “sentirem que o médico está a lidar
com as suas preocupações, sentirem-se escutados e compreendidos, terem
confiança no médico, perceberem sentimentos calorosos e positivos de simpatia e
cortesia”. É na capacidade de compreender e sentir a experiência do doente que
reside a empatia, um instrumento fundamental ao alcance do MF, que pode e deve
ser treinado e aperfeiçoado, frisou o responsável da APGB.
A consulta como encontro de
expectativas
A
resposta a esta questão veio do Brasil e chegou, pela voz do médico de família
e comunidade (MFC) do Serviço de Saúde Comunitária de Porto Alegre, José Mauro
Lopes.
Apesar
de todo o progresso e desenvolvimento científico, o evento central da vida
profissional do MF continua a ser a consulta – seja ela no ambulatório ou no
domicílio – que se constitui como parte fundamental do relacionamento entre
médico e pessoa.
Mauro
Lopes lembrou, a este propósito, que “um alto grau de competência
técnico-científica, na ausência de afecto, resulta em desempenho clínico
insuficiente”, tal como “o afecto, na ausência de habilidades seguras, decisões
correctas e conhecimento, não tem valor e é falso”.
De
acordo com o MFC do Rio Grande do Sul, há três momentos na intervenção que
podem ser trabalhados de forma a potenciar uma parceria efectiva entre o
clínico e a pessoa/família: construção do
rapport, organização da entrevista e conversão da resistência em
colaboração.
Sendo
a consulta um encontro entre pessoas com expectativas, objectivos e tarefas
previamente definidas de parte a parte, a preparação para este encontro começa
muito antes da entrada do doente no consultório, salientou José Mauro Lopes.
Para o médico, começa na escolha profissional da Medicina, na escolha da
especialidade, na decisão de consultar… Para o doente, começa muitas vezes com
uma sensação de mal estar que o leva a procurar o médico, ou na sala de espera
do centro de saúde…
Potenciar a relação terapêutica através
do afecto
No
momento do encontro, cada um – médico e doente – tem a sua agenda bem definida
e a lista de agentes condicionantes da relação e da consulta não termina aqui:
há as consultorias, o trabalho em equipa, os procedimentos burocráticos, a
gestão, o sistema organizativo, as políticas de saúde… Enfim… um sem número de
factores que fazem do afecto/empatia a pedra de toque no relacionamento entre
médico e paciente, algo que pode fazer a diferença numa relação que se pretende
terapêutica e um instrumento ao alcance do MF, concluiu o clínico brasileiro.
Na
construção de uma relação empática e afectuosa com a pessoa que tem à sua
frente, o médico tem que ser capaz de perceber as emoções, através da linguagem
não verbal do doente.
Usar
o poder adequadamente, desenvolver a escuta activa, co-responsabilizar e
estabelecer parcerias, funcionam também como meios para chegar a um
relacionamento terapêutico eficaz com o paciente.
Para
além disso, o clínico deve mostrar segurança e confiança, ter uma aparência
pessoal e postura adequada, adaptar-se à pessoa e actuar conforme a situação e
manter contacto visual.
E
na tentativa de converter a resistência em colaboração, rematou José Mauro
Lopes, o MF não deve esquecer que “o objectivo da primeira consulta pode ser apenas o de conseguir a segunda”.
Balint: para além do paradigma positivista da
ciência médica
Os
Grupos Balint (GB) não poderiam ficar de fora num debate dedicado à importância
dos afectos na prática médica.
Está
provado que os MF que neles participam são mais tolerantes à frustração e também
mais confiantes, porque se sentem mais acompanhados, na sua prática clínica.
Vantagens que o presidente da Associação Portuguesa de Grupos Balint, Jorge
Brandão, fez questão de sublinhar, citando uma frase de Michael Balint, a
propósito da grande diversidade no modo de actuação dos MF: “pelo menos
ensinei-os a ouvir”.
O
processo relacional e a ideia de cuidar são duas das principais características
dos GB, na medida em que permitem transcender o paradigma positivista da
ciência médica.
Em
Portugal, nos últimos cinco anos, tem havido uma intensificação na procura dos
GB, em especial por parte de internos de MGF, adiantou o MF. Da parceria entre
a APGB e a Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral (APMCG) nasceu
inicialmente um grupo, que se reunia mensalmente na sede da APMCG, em Lisboa. Neste
momento são já três os GB a funcionar, fruto desta colaboração estreita entre
as associações.
José
Mauro Lopes lamentou que, no Brasil, após alguns anos de actividade de GB
inseridos no programa de Internato, esta seja uma prática cada vez menos
disseminada.
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