| Escrito por Cláudia Brito Marques,
em 19-06-2008 22:16
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Recente, mas fulgurante… Assim se pode
descrever a história da Medicina Geral e Familiar polaca. Até há bem pouco
tempo, o país apresentava um sistema de saúde em tudo semelhante ao dos outros
ex-Estados comunistas da Europa de Leste, desconhecendo o conceito de médico de
família preconizado a Ocidente. Caído o Muro de Berlim, a Polónia foi
reorganizando, passo a passo, os seus cuidados de saúde primários e definindo a
figura do prestador a esse nível. Para isso contribuíram a criação, em 1992,
do colégio da especialidade, bem como o desenvolvimento de um plano estratégico
que permitiu criar, em todas as faculdades de Medicina do país, um departamento
de Medicina Familiar. Em 1995, entrava em funcionamento um novo modelo de
cuidados de saúde primários, com centros de saúde modernos que demonstraram, de
imediato, ganhos de custo/efectividade inequívocos. Em 1996, a Medicina Geral e
Familiar era reconhecida pelo Governo como especialidade médica. De passagem
por Lisboa, o presidente do Colégio Polaco de Médicos de Família, Adam Windak,
conversou com o nosso jornal e explicou que, actualmente, mais de 4.500 médicos
polacos têm um diploma em
Medicina Familiar. “Entretanto, já foi estabelecido um plano
de formação para os próximos 10 anos, em que pretendemos formar mais 20 mil
médicos de família”, adiantou
Jornal
Médico de Família – O percurso da
Medicina Geral e Familiar (MGF) na Polónia não pode dissociar-se da história do
país, enquanto ex-Estado comunista da Europa de Leste. Como decorria, nesse
período, a prestação de cuidados de saúde primários (CSP) à população?
Adam Windak – De facto, é imperativo analisar os diferentes
contextos históricos e sociais, de forma a compreender a actual situação da MGF
polaca. Até aos anos 90, os CSP polacos baseavam-se numa rede de serviços
financiados e geridos pelo Estado e não existia o conceito de médico de família
(MF) ou clínico geral (CG). Os cuidados eram prestados em policlínicas, por
especialistas em
Medicina Interna, pediatras, dentistas, ginecologistas e
obstetras, parteiras e pessoal de enfermagem. Nas vilas mais pequenas, os CSP
consistiam, na maioria das vezes, na presença de um médico e de uma enfermeira.
Nas grandes áreas urbanas, as policlínicas apresentavam dimensões
desmesuradamente grandes, e abarcavam algumas especialidades médicas e
facilidades diagnósticas.
E tudo começa a mudar quando…
…
Quando no início da década de 90 houve um consenso generalizado de que era
urgente avançar com reformas estruturais no sistema de saúde do país,
nomeadamente ao nível dos CSP. O desenvolvimento da MGF como especialidade
médica autónoma revelava-se indispensável para a melhoria da qualidade e
eficiência dos cuidados prestados à população.
Assim,
em 1991, estabeleceu-se a Family Doctor
Task Force, uma estrutura de missão, no âmbito do Ministério da Saúde, que
tinha por objectivo definir a figura do MF e as suas competências. Para isso, o
grupo avaliou o perfil que este profissional tinha em outros países europeus e
preparou um documento, posteriormente aprovado pela tutela. Neste, apresentavam
as funções do MF a nível de prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação. Pela
primeira vez, eram claramente separadas as responsabilidades do médico de
família das de outros especialistas. E era apresentado e discutido um novo
modelo de organização dos CSP.
É mais ou menos por esta altura que é
criado a estrutura a que hoje preside?
Sim.
Em 1992, em jeito de impulso deste novo modelo para os CSP, é criado o Colégio
Polaco de Médicos de Família, com sede em Varsóvia. Foram 34
os seus fundadores, entre médicos, líderes comunitários, deputados, gestores da
área da Saúde e professores de Medicina.
De
acordo com os seus estatutos, o Colégio só podia aceitar, como novos membros,
médicos com diploma em
Medicina Familiar. Para isso, foi preciso
desenvolver a formação específica, através de um plano estratégico que permitiu
criar, em todas as faculdades de Medicina do país, um departamento de MGF, bem
como programas de Internato da especialidade.
O
financiamento deste plano foi suportado, em grande parte, por fundos da União
Europeia, que permitiram a constituição de nove centros de formação regionais,
isto é, departamentos universitários. Os restantes foram financiados pelo Banco
Mundial.
Mas a MGF
só haveria de ser reconhecida como especialidade médica já na segunda metade da
década de 90…
Em
1995, entravam em funcionamento os centros de saúde modernos, com médicos de
família já com formação específica. Mas, de facto, só em 1996 é que a MGF foi
reconhecida, pelo Governo, como especialidade médica e passou a fazer parte da
educação médica pré-graduada.
O
novo modelo de organização dos CSP demonstrou, desde logo, ganhos de
custo-efectividade inequívocos, a par de uma satisfação crescente por parte dos
utentes, revelada por uma série de inquéritos realizados na altura.
E o conceito “pegou”?
E
de que maneira! O sucesso alcançado com a reforma, logo nos primeiros anos de
implementação, permitiu uma consolidação da figura do médico de família, no
âmbito de um sistema de CSP renovado e da recém-criada especialidade de MGF.
Na Polónia, qual o percurso que um
jovem estudante de Medicina tem que fazer para se tornar especialista em MGF?
Após
seis anos de educação médica pré-graduada, o recém-licenciado tem que passar
por um ano obrigatório de Internato comum. Só depois ingressa no Internato de
MGF, cuja duração é de quatro anos. Um terço deste tempo de formação é passado
no centro de saúde.
Para
obterem o diploma em MGF, os jovens médicos têm que passar o exame da
especialidade, que se divide em quatro partes: um teste escrito com perguntas
de escolha múltipla, teste de desempenho no exame clínico objectivo, teste às
competências comunicacionais e, ainda, uma prova oral.
Apesar do desenvolvimento robusto da
especialidade, a cobertura da população polaca pelos CSP ainda é incipiente?
Actualmente,
existem 4.500 médicos com diploma em Medicina Familiar.
Estima-se que mais de 20% dos polacos acedam a cuidados
prestados por estes profissionais.
Entretanto,
foi já estabelecido um plano de formação para os próximos 10 anos, através do
qual se pretende formar mais 20 mil médicos de família.
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