| Escrito por Tiago Reis,
em 19-06-2008 21:59
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Apesar das boas intenções que o
marcaram, o projecto da Administração Regional de Saúde do Alentejo que visava
a melhoria das acessibilidades físicas nos centros de saúde não resolveu, ao
que parece, todos os problemas identificados. Em Borba e Arraiolos, por
exemplo, persistem ainda falhas que limitam a circulação dos doentes com fraca mobilidade.
Falhas essas que tenderão a manter-se, até que estes centros de saúde se
instalem em casas desenhadas a pensar nas suas necessidades específicas. E é aqui
que entramos em campo de paradoxos: em Borba, por exemplo, a administração da
saúde e a autarquia promoveram intervenções para corrigir erros grosseiros e
alcançar o mal menor no velho centro de saúde, quando a cerca de um quilómetro
um novo edifício está em fase final de construção
O
Médico de Família foi tentar perceber
o que mudou no Alentejo, após a conclusão do projecto de “Melhoria das
Acessibilidades Interiores dos Centros de Saúde no âmbito das Amenidades”. Um programa
de investimento que envolveu 16 centros de saúde (CS) espalhados pelos três
distritos alentejanos, e que teve como objectivo, eliminar obstáculos que
pudessem impedir, ou condicionar, o acesso e a movimentação dos utentes com
capacidades físicas ou cognitivas reduzidas. Assim, a Administração Regional de
Saúde (ARS) do Alentejo promoveu, até ao final do mês de Março deste ano,
intervenções com vista a instalar rampas, plataformas elevatórias, cadeiras de
elevação, bem como alterar o sentido de abertura de portas, colocar sinalética
exterior para identificar o local das instalações ou modificar as instalações
sanitárias (com colocação de lavatórios munidos de sistema de elevação,
adaptáveis à altura do utilizador, apoios e sistemas de alarme).
Na
visita que realizámos ao CS de Borba (ainda instalado num edifício pertença da
Misericórdia) no início do mês de Junho, detectámos, contudo, óbvias
dificuldades de acesso para cidadãos com mobilidade limitada. Antes de mais, os
funcionários da autarquia concluíam a elevação do piso, na rua que conduz ao
CS, assim como a colocação de rampas no pavimento, que passam a substituir
rampas provisórias, de metal. Tal significa que o portão de entrada habitual,
bastante largo, foi trocado durante algum tempo por uma porta acanhada… A única
forma de entrar no CS. E esta não foi a única dificuldade que descobrimos,
enquanto espreitávamos o novo ambiente.
Para
melhor entendermos as mais valias das instalações, convidámos, para nos
acompanhar na digressão, Joaquim Cardoso presidente da delegação de Évora da
Associação Portuguesa de Deficientes (APD) e da CerciEstremoz. Um dirigente com
uma vasta experiência no que respeita à garantia de igualdade de oportunidades
para cidadãos com deficiência, inclusive no plano europeu (colabora activamente
com o Fórum Europeu das Pessoas com Deficiência).
Residente
em Borba, a algumas centenas de metros do CS, este invisual aceitou fazer uma
visita à unidade onde é utente, à qual não recorria desde o arranque das obras.
O balanço deixou muito a desejar.
Acessível? Assim, assim…
Logo
na abordagem à minúscula porta de entrada provisória, Joaquim Cardoso alertou:
“aqui poderá passar uma cadeira de rodas das tradicionais, mas uma eléctrica…
dificilmente”. Depois, para aceder aos serviços administrativos, é necessário
ultrapassar um pequeno degrau e uma segunda porta dupla (cuja metade esquerda
se encontrava trancada). “Não é preocupante, este degrau, mas podia não estar
cá, porque não faz falta nenhuma”, apontou o responsável da APD, para quem as
limitações impostas pelo balcão e pelo vidro que o encima não representam o
pior.
De
acordo com Joaquim Cardoso, o mais grave é a inexistência de informação que
possa ser apreendida pelos cidadãos que não conseguem ler um edital, um aviso,
uma circular ou um cartaz de prevenção: “a incapacidade de aceder a informação
sobre os serviços também entra no conceito de acessibilidade. Deve haver por
aqui informação escrita, mas para mim é indiferente que assim seja, porque não
a posso processar. De facto, quando se fala de acessibilidade, não nos pudemos
remeter apenas aos aspectos físicos. Determinadas pessoas requerem, por
exemplo, uma relação de maior confidencialidade, com os serviços e com os
profissionais. Quando elas abordam um centro de saúde, como este, e não há um
espaço reservado para conversar, estamos perante um problema de acessibilidade
e de humanização na saúde”.
Segundo
Joaquim Cardoso, a dificuldade de alguns profissionais em lidarem com pessoas
portadoras de deficiência também não facilita as coisas: “é um dilema quando
chega uma jovem deficiente, para ser aconselhada ao nível do planeamento
familiar”.
Enquanto
solicitava uma receita ao balcão administrativo – “tenho os triglicéridos um
bocadinho altos, por causa das cervejinhas e do bom vinho da região” – Joaquim
Cardoso teve de participar, involuntariamente, numa espécie de gritaria,
destinada a ultrapassar a barreira criada pelo vidro que o separava dos
funcionários. O coro foi ainda reforçado pelas conversas laterais iniciadas por
mais dois utentes, num vociferar que se foi tornando ensurdecedor.
Borba: os constrangimentos de um espaço
adaptado
Na
óptica de Joaquim Cardoso cada cidadão deficiente, ou com dificuldades de
mobilidade, reage de forma diferente, perante um edifício que lhe suscita
desafios, como sucede no CS de Borba. Mas há sempre aqueles para quem é mais
complicado superar os obstáculos: “os cegos congénitos, como eu, aprendem a
desenvolver estratégias de recurso para se movimentarem e interagirem. Já para
um cego recente, um serviço como este seria, em princípio, mais hostil.
Obviamente que tudo isto não se pode desligar da maneira como a pessoa encara a
sua limitação, ou do meio em que se movimenta. Num grande hospital – em Lisboa
por exemplo – com certeza que a situação seria bem mais avassaladora”.
Ainda
assim, Joaquim Cardoso agradeceria a existência de sinalética em Braille. Diga-se,
de passagem, que a sinalética dita normal
também não abunda no CS de Borba. Para quem chega pela primeira vez à unidade não
resta outra opção, com vista a encontrar gabinetes e salas de tratamento, que
não seja perguntar a quem espera.
A
configuração dos serviços, em redor de um pátio descoberto, com corredores e
salas em distribuição desalinhada, também não ajuda. “Deparamo-nos aqui, ao fim
e ao cabo, com a acessibilidade natural de um edifício de cariz religioso, que
não foi feito especificamente para acolher estas pessoas e os actos clínicos
que aqui se praticam. Quem anda nestas andanças sabe que a única coisa que se
realiza neste tipo de imóveis são remendos”, avança o presidente da CerciEstremoz.
Felizmente, o piso superior do edifício (apenas acessível por escadas) foi
desactivado há alguns anos atrás. Antigamente, estava destinado à área de
internamento do CS. “Recordo-me de um amigo de velha data, amputado e obeso,
que ali passou muitos anos, sem possibilidade de lá sair, já que tinha de ser
carregado às costas. Era, como costumamos dizer nestas lides, um prisioneiro
sem grades!”, afiança Joaquim Cardoso.
A
propósito das leis que obrigam os edifícios que albergam serviços públicos a
garantir condições de acessibilidade, o dirigente da APD considera que Portugal
está bem servido na letra, mas mal na deliberação: “temos de deixar de fazer
leis que não cumprimos. Detemos uma das legislações mais completas da Europa
mas, em simultâneo, também um dos poderes mais dementes. Não há um único
governo que tenha sido sancionado, ao longo das últimas décadas, por não ter
cumprido a lei. Tenho afirmado isto desde há anos, no Conselho Nacional para a
Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência, ou em audições na Assembleia
da República, por exemplo”.
Estigmas limitam queixas dos utentes
Acessibilidade
representa, antes de mais, equivalência perante o contexto. Ou seja, na
utilização de um serviço público de saúde, todos os cidadãos, sem excepção e independentemente
das suas características individuais, devem estar em condições similares para
exercer os seus direitos. “O mais importante é que os espaços edificados sejam
acessíveis a todos; que esse acesso seja um dado universal à partida. Do mesmo
modo, é essencial não esquecer que a nossa população está a envelhecer, a pouco
e pouco, algo que irá aumentar os requisitos impostos aos serviços. Quando as
pessoas são jovens pouco se apoquentam com estas questões, não querem saber se
o lance de escadas é difícil de subir, ou se o elevador é demasiado estreito
para uma cadeira de rodas. Porém, estes problemas vêm-nos bater à porta, mais
cedo ou mais tarde!”, assegura Joaquim Cardoso.
Na
perspectiva deste invisual, as queixas sobre os obstáculos colocados pelos
serviços de saúde não são mais vocalizadas porque muitos cidadãos preferem o
silêncio à marginalização. Isto é, optam por tolerar o estorvo em vez de
consentirem a diferença. “As pessoas escolhem viver com as dificuldades e, de
certo modo, geri-las no dia-a-dia. Por isso não se queixam como deviam.
Consideram, portanto, que reivindicar seria aceitar um conjunto de estigmas, do
qual pretendem, precisamente, escapar”, sublinha o responsável da APD.
Arraiolos: barreiras impossíveis de
esconder
À
passagem por Arraiolos, a nossa reportagem fez uma segunda tentativa para
verificar as melhorias introduzidas na região alentejana, na área das acessibilidades.
Mais uma vez, encontrámos um CS situado num edifício antigo, de dois andares,
localizado numa zona alta da povoação, totalmente desconforme com as necessidades
de um serviço que aposta na proximidade e nas relações de confiança. Facto
impressionante: a forma como o ingresso no CS está, do ponto de vista do
utente, bastante condicionado. Só para se aproximarem da porta de entrada, os
utentes necessitam de subir uma escadaria de pedra ou, então, uma das rampas
laterais, pavimentadas com calçada. A única porta que serve o público – as
restantes estão reservadas aos funcionários – concede a quem a deseja transpor
menos de um metro de largura (um dos segmentos da porta estava aferrolhado, sem
justificação evidente). A antecedê-la, uma rampa amovível.
Já
do lado de dentro, o visitante depara-se com uma pequena sala (uma espécie de
antecâmara de espera), com duas portas laterais fechadas e um minúsculo guichet
em frente. Tal
foi a nossa dificuldade em dialogar com a funcionária administrativa, através
do referido guichet envidraçado, que se tornou necessário recorrer a medidas
alternativas, no caso uma breve incursão através da porta que ladeia o
atendimento. Sobretudo, ficámos a saber que poucas foram as intervenções levadas
a cabo no CS de Arraiolos, exceptuando os acertos nas instalações sanitárias
destinadas aos utentes. Estas foram beneficiadas com equipamentos que facilitam
o recurso das mesmas por parte de cidadãos com dificuldades motoras.
Apesar
das nossas insistentes tentativas para saber, junto da ARS do Alentejo, dados
importantes sobre este dossier (qual o montante global investido na melhoria
das acessibilidades nos 16 centros de saúde seleccionados, exactamente que
intervenções foram realizadas em Borba e Arraiolos, ou por que razão foram
efectuadas alterações em Borba, quando um novo CS está prestes a abrir portas)
não nos foi dada qualquer resposta, até ao fecho desta edição.
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