| Escrito por Tiago Reis,
em 05-06-2008 17:32
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O governo aposta num programa de choque
para fazer desaparecer as listas de espera nas consultas e cirurgias de
Oftalmologia, com especial destaque para a redução da demora que afecta os
doentes com cataratas. Tentará fazê-lo através de metas adicionais de produção
nos serviços de Oftalmologia, que podem ir até um acréscimo de 30%. Para que o
programa vingue, será todavia necessário desembolsar 28 milhões de euros até
meados de 2009 e contar com a boa vontade dos oftalmologistas, que até agora têm
feito mais parte do problema do que da solução. Acima de tudo, Ana Jorge
garante que as deficiências manifestadas pelo Serviço Nacional de Saúde – que
ganharam foros de escândalo no último ano – têm de ser ultrapassadas na esfera
pública, onde nasceram
O
Ministério da Saúde (MS) lançou um programa de intervenção em Oftalmologia, cuja
principal meta é a de eliminar as listas de espera para consulta e cirurgia
associadas a catarata. Listas, que integram 110 mil utentes que aguardam por
uma primeira consulta de Oftalmologia e 30 mil doentes que em Dezembro de 2007 esperavam
vez para serem chamados para cirurgia.
O
plano do governo envolve duas etapas: um programa de choque, visando colocar a
zero as listas de espera para consulta e cirurgia, até ao início de 2009, e uma
intervenção estrutural, a médio prazo.
No
intuito de implementar a primeira fase, foram gerados Centros de Elevado
Desempenho (CED) para a cirurgia da catarata, em hospitais públicos,
seleccionados pelas suas boas condições de resposta, ao nível de meios técnicos
e humanos. Estes CED estarão preparados para receber o utente, caso o hospital
de referência não tenha a capacidade para resolver o problema com a suficiente
rapidez e eficiência. De facto, os CED (e os restantes hospitais de menor
dimensão que também estabeleceram protocolos para cirurgias adicionais)
passarão a ter metas de trabalho suplementar, definidas de acordo com a sua posição
face à média nacional de cirurgias. Quem cumprir a média nacional de cirurgias a
catarata, deverá assumir um acréscimo de 20%. Já quem estiver acima da média,
terá de se responsabilizar por um aumento de 10%, enquanto as unidades que não
cumprem a média comprometem-se com um aumento de 30%. Nos CED espera-se, para
já, a realização de pelo menos 17 mil e duzentas cirurgias a catarata, até
Julho de 2009. A
estas juntam-se as dos hospitais de menor dimensão, num total de 30 mil
cirurgias.
Do
ponto de vista financeiro, o MS irá investir, num período de um ano (de Julho
de 2008 a
Julho de 2009), aproximadamente 28 milhões de euros, disponibilizados aos
hospitais que executem as cirurgias adicionais.
Quatro hospitais assumem fatia de leão
Os
CED serão quatro, a vigorar no Centro Hospitalar Lisboa Norte, Centro
Hospitalar de Lisboa Central, Hospitais Universitários de Coimbra (HUC) e
Hospital de São João, no Porto. Na Invicta realizar-se-ão seis mil cirurgias,
nos HUC cinco mil, no Centro Hospitalar Lisboa Norte perto de 4 mil e 1900 no Centro
Hospitalar de Lisboa Central. No Hospital Distrital de Faro, serão efectuadas
outras duas mil cirurgias, por contratação directa com o Hospital de Santa
Maria.
Os
CED foram escolhidos pela sua maior concentração de recursos, enquanto os
restantes hospitais com cirurgias adicionais acordadas (em regiões como o
Alentejo) foram seleccionados, num processo interno, dentro de cada ARS e
mediante a disponibilidade manifestada pelos diversos Serviços de Oftalmologia.
Assim,
o programa de choque vai permitir contratualizar
30 mil cirurgias adicionais entre 1 de Julho de 2008 e 1 de Julho de 2009, bem
como 75 mil primeiras consultas em produção adicional. No novo esquema, após o
utente ser referenciado pelo médico de família e identificada a necessidade de
cirurgia à catarata, o hospital para onde é feita a primeira referenciação tem três meses para operar
o doente. Caso tal não se verifique, o processo do doente é transferido para um
CED ou, na ausência desta possibilidade, para um hospital convencionado,
através de um vale cirurgia (esgotadas as hipóteses na oferta pública). O
hospital da referenciação secundária
terá então dois meses para tratar o doente. Depois de resolvido o problema dos
doentes que esperavam há demasiado tempo, em inícios de 2009 arrancará a
segunda parte do programa do MS. Nesta fase, procurar-se-á implementar medidas
estruturais, assim como um sistema de monitorização contínuo e a avaliação das
entidades participantes.
Após
a apresentação do programa, responsáveis de unidades hospitalares e das
respectivas Administrações Regionais de Saúde (ARS) assinaram os protocolos que
permitiram fazer avançar as medidas preconizadas. Claramente satisfeitos estavam
os dirigentes de algumas instituições do Serviço Nacional de Saúde (SNS),
situadas na região sul do país, onde as dificuldades sentidas na prestação de
cuidados oftalmológicos se têm feito sentir, de modo mais notório, nos últimos
meses.
2009: metas para consultas e cirurgias
De
acordo com Pedro Gomes, coordenador do SIGIC, o programa do MS permitirá que, até
ao final deste ano, o tempo máximo de espera para consulta oftalmológica seja
reduzido para nove meses (em 85% dos casos) e o tempo máximo de espera para
cirurgia se restrinja aos seis meses (em 85% dos utentes não prioritários).
Estas cifras deverão baixar, em Julho de 2009, para seis meses e cinco meses,
respectivamente para consultas e cirurgias. Até Março de 2009, serão publicados
os dados referentes ao desenrolar do programa em 2008, com nova publicitação de
dados provenientes do sistema de informação, em Agosto de 2009. Para Julho de
2009, o programa ambiciona um incremento de produção base, em consultas e
cirurgias, de 20%.
O
programa de choque será, segundo Pedro Gomes, complementado por “um conjunto de
mudanças mais estruturantes, que terão impacto a longo prazo. Alterações
organizacionais na promoção da qualidade e eficácia, com o incentivo a uma
cultura de negociação e contratualização”.
O mesmo responsável adiantou que se procura obter transparência nos processos e
resultados, pelo que será feita uma avaliação dos resultados obtidos, “quer
pelos gestores, quer pelos directores de serviço e médicos envolvidos”.
Ana Jorge exige resposta dentro do
serviço público
A
ministra da Saúde reconhece que este é um programa ambicioso e que ficou
surpresa quando, ao assumir a pasta, lhe foi transmitido que 118 mil pessoas esperavam
por uma consulta de Oftalmologia. Ana Jorge sublinha que o reforço adicional de
30 mil cirurgias “pressupõe um aumento evidente da produtividade normal dos
serviços de Oftalmologia envolvidos”, o que significa que nenhum dos serviços
poderá beneficiar das verbas a distribuir pelo MS, sem que cumpra primeiro a
média nacional de cirurgias previamente identificada. Do mesmo modo, a ministra
assegura que este programa será tudo menos um maná para os privados, ao afirmar
que não é aceitável que “havendo capacidade no SNS, a produção adicional seja,
prioritariamente, contratada fora do sector público da saúde”: Ana Jorge
declarou, inclusive, que tudo será feito para que “as nossas instituições e os
nossos profissionais possam, de modo tecnicamente capaz e humanizado, dar
resposta a este problema”.
A
titular da pasta da saúde estranha que muitas das vozes que agora afirmam ser
mais eficaz e prudente confiar nos privados, para resolver o problema das
listas de espera em Oftalmologia (através de convenções), tenham recuado nas
suas posições nas últimas semanas, deixando de privilegiar o SNS: “sempre
colocámos como primeira opção o serviço público, na resolução deste problema.
Por que razão algumas pessoas decidiram alterar o rumo das suas palavras, já
não sei. O mais importante é rentabilizar o serviço público e pôr os médicos a
trabalhar dentro do sistema”.
Fazendo
uma avaliação mais abrangente dos acontecimentos que conduziram ao actual
panorama de resposta limitada, ao nível dos cuidados em Oftalmologia, a actual
inquilina da João Crisóstomo recusa-se a depositar as culpas na equipa do seu
antecessor: ”as dificuldades em Oftalmologia não têm dois ou três anos. Ao
longo do tempo em que o problema se agravou, muitos governos entraram e saíram,
assistindo-se de forma mais ou menos tranquila a todo este processo de
aglomeração”.
De
qualquer modo, para a ministra da Saúde, o programa que agora é lançado será a
oportunidade de ouro para inverter a situação delicada a que se chegou.
Contudo,
apenas terá sucesso na medida em que se
conseguir “organizar o trabalho de forma diferente, com as equipas de
profissionais a laborarem mais horas, para além do seu horário normal. Por
outro lado, as administrações hospitalares têm a obrigação de disponibilizar as
instalações para que as cirurgias adicionais sejam executadas”.
A
ministra da Saúde considera também fundamental que os doentes fiquem informados
sobre este programa e que, através do seu médico de família, averigúem se o seu
caso pode ser objecto de um atendimento mais célere.
OM defende papel dos privados na
redução de listas
Em
resposta ao anúncio deste programa especial, a Ordem dos Médicos (OM)
classificou como louvável “o esforço que o Governo fez no sentido de encontrar
uma solução para o problema das listas de espera de cirurgia de cataratas”.
Em
comunicado assinado pelo presidente do Conselho Nacional Executivo (CNE), Pedro
Nunes, a OM assegura que esta medida adoptada por Ana Jorge, apenas vem
confirmar que Portugal tem a “capacidade instalada para resolver o problema,
sem necessidade de recurso a países terceiros, desde que os serviços
portugueses sejam devidamente financiados e organizados”.
A
posição do CNE vai mais longe, ao garantir que é possível encontrar “soluções
complementares que incluam a participação do sector privado da Medicina, com
uma metodologia a estabelecer de forma transparente, à semelhança de sistemas
de reconhecida eficiência noutros países da Europa. Com esse tipo de solução,
teríamos certamente o problema permanentemente resolvido”.
Mais
do que tudo o resto, para Pedro Nunes e para o CNE, o que mais interessa, agora,
é garantir que o plano funciona na prática, “com o empenho de todos, que a sua
avaliação seja feita com eficácia e que haja a capacidade crítica necessária
para introduzir mudanças, se elas se justificarem”.
Santarém não recua no acordo cubano
Apesar
do programa de choque apresentado pela ministra da Saúde – que tem como objectivo
último eliminar a lista de espera para cirurgia a catarata no país – o presidente
da Câmara Municipal de Santarém, Francisco Moita Flores, já afirmou
publicamente que a autarquia escalabitana não abdicará do protocolo que
estabeleceu com o sistema de saúde cubano, no sentido de dar resposta aos
idosos carenciados do concelho, com doença oftalmológica.
Segundo
revelou o autarca à Agência Lusa, a desistência não faria sentido, uma vez que
o acordo é de um teor específico, envolvendo uma classe sociodemográfica
desfavorecida: “trata-se de um protocolo que nada tem a ver com as políticas de
saúde do governo, mas sim com problemas sociais que atingem estes idosos.
Enquanto não estiverem resolvidos, continuaremos a ser nós a contorná-los”.
De recordar que a autarquia de Santarém assinou um
protocolo com os serviços médicos cubanos, no dia 21 de Abril deste ano, que
abre as portas à deslocação de doentes com problemas oftalmológicos àquele país
do Golfo do México, para avaliação, diagnóstico e possível tratamento. O acordo
abarca apenas idosos desprotegidos, económica e socialmente.
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