| Escrito por Tiago Reis,
em 20-05-2008 13:09
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Na análise sobre o contexto geopolítico em que se realizou a III Cúpula Ibero-Americana de Medicina Familiar, que este ano teve lugar em Fortaleza, Luís Pisco salienta os diferentes graus de desenvolvimento dos CSP nos países que integram a Confederação Ibero-Americana de Medicina Familiar (CIMF), apontando o Brasil como um caso de sucesso. Já para Rui Nogueira, vice-presidente do Comité Executivo da CIMF, responsável pela coordenação para a Região Ibérica, uma das conclusões mais relevantes saídas do encontro, é a de que a aplicação de recursos na formação de especialistas, poderá ser a receita de sucesso para a generalidade dos países que integram a organização. Portugal não é excepção, já que é preciso também em território nacional “acelerar a formação médica em MGF”, aponta o também dirigente da APMCG Para o presidente da APMCG, na III Cúpula Ibero-Americana de Medicina Familiar ficou patente a enorme diferença de realidades que matiza a América Latina no que toca ao desenvolvimento dos cuidados de saúde primários. “Neste espaço há países muito pobres, que contrastam com outros onde a Medicina Familiar está bem organizada, mas também politizada. Há ainda outros onde a maior parte da população não tem acesso a cuidados de saúde elementares”, reconhece Luís Pisco. Para o também coordenador da Missão para os CSP, resulta evidente que na esfera latino-americana o Brasil assume a liderança, muito graças ao seu Programa Saúde da Família (PSF): “é um modelo único de saúde, que aposta fortemente na saúde da família como uma política de Estado e com a ambição de abranger toda a população brasileira. Não posso deixar de me impressionar pelo que está em andamento no Brasil, com orientações consistentes e pouco habituais em todo o mundo”, confessou Luís Pisco ao nosso jornal. No pólo contrário, surgem realidades como a paraguaia, que segundo o presidente da APMCG ainda deixa aproximadamente 80% dos cidadãos sem acesso a cuidados básicos de saúde: “isto só demonstra que existe uma brutal disparidade na América Latina e que há muito por fazer, para encontrar um equilíbrio entre contextos quase antagónicos”. O maior sistema público de saúde, em terras de Vera Cruz Na perspectiva de Rui Nogueira, uma das conclusões mais relevantes saídas do encontro ibero-americano, é a de que a aplicação de recursos na formação de especialistas, poderá ser a receita de sucesso para a generalidade dos países que integram a CIMF. Portugal não é excepção, já que é preciso, também em território nacional, “acelerar a formação médica em MGF”. O actual coordenador do Internato de Medicina Geral e Familiar da Zona Centro acabou também por ver reforçada – através de tudo o que viu e ouviu em Fortaleza – a sua opinião acerca dos últimos desenvolvimentos no maior país da América do Sul: “julgo que não haverá, no mundo inteiro, outro país com a abrangência populacional do Brasil (acima dos 180 milhões de pessoas) que projecte um sistema público de saúde universal e gratuito. É claro que o país está anda a construí-lo, mas segue no bom caminho”. Actualmente, o orçamento público federal brasileiro reserva fundos significativos para a formação de novas equipas de saúde, no âmbito do PSF, com o intuito de aumentar, até 2011, o número de equipas das actuais 27 mil para 40 mil. Estas equipas integram médicos, enfermeiros, auxiliares e agentes comunitários. O problema parece não estar tanto no financiamento, mas no planeamento da empreitada, já que a formação de um número tão alargado de profissionais qualificados para os CSP, num período de tempo reduzido, se antevê complexa. O Brasil pretende passar dos actuais 2936 especialistas em Medicina de Família e Comunidade (MFC) para 14.863, em 2013, com recurso a um programa de treino em larga escala, a cargo da União Nacional dos Auditores do Sistema Único de Saúde. Também deseja passar dos actuais 1160 médicos com formação específica a actuar nos CSP (mas sem título de especialista em MFC), para 26.549 em iguais condições de competência, em 2013. Estas fasquias foram divulgadas durante o encontro de Fortaleza por Francisco Eduardo de Campos, secretário federal da Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde.“Atrair todos estes profissionais e de seguida formá-los, para disseminar o modelo no terreno, não poderá ser um processo simples. Aliás, muitos dos nossos colegas brasileiros reconhecem, que apesar do dinheiro disponível, as metas serão extremamente difíceis de cumprir. De qualquer modo, avança-se na direcção certa”, destaca Rui Nogueira. Resumindo, o Brasil sonha com coragem. E é dever de Portugal ajudar, dentro do que está ao seu alcance. Na óptica de Rui Nogueira, “com alguma imaginação, é possível descobrir caminhos para oferecer o nosso apoio”.Ministério aponta para 350 mil utentes sem MF No decurso da III Cúpula Ibero-Americana de Medicina Familiar, Ana Jorge avançou à Agência Lusa a informação de que o Ministério que lidera está a tentar, por via informática, contornar o velho problema de saber quantos portugueses não têm ainda médico de família (MF) atribuído… De acordo com a ministra, a contas finais deverão apontar para cerca de 350 mil pessoas sem MF (metade das 700 mil que têm sido ventiladas por diversas fontes). Para esta cifra concorrem, apenas e só, os doentes sem MF que efectivamente gostariam de o ter, sendo portanto excluídos os cidadãos que optam por prescindir desse direito.Na mesma ocasião, Ana Jorge referenciou algumas das limitações com que a reforma dos CSP se confronta, em particular o elevado número de aposentações de MF que se esperam para os próximos anos. Ainda assim, a actual inquilina da João Crisóstomo mostrou-se esperançada que muitas das medidas que têm vindo a ser orientadas pela Missão para os Cuidados de Saúde Primários (nomeadamente a criação do novo modelo organizativo em unidade de saúde familiar e a reestruturação dos centros de saúde), poderão ajudar a contornar a escassez de meios humanos. Dengue é melhor combatida com CSP de qualidade Confrontados com o avolumar de mortes trazido pela Dengue, vários países sul-americanos começam a perceber o que podem ganhar graças à existência de cuidados primários acima de suspeita. Assim se passa no Brasil, onde o impacto da infecção é menor nas regiões em que o Programa Saúde da Família (PSF) está mais desenvolvido. O PSF, iniciado em 1994, foi eleito pelo governo brasileiro como prioritário no reequilíbrio do sistema de saúde, definindo estratégias que apontam para a implantação de equipas multiprofissionais em unidades básicas de saúde (com listas de famílias atribuídas por área geográfica). O objectivo é o de aproximar a máquina da saúde da população, intervindo, não só ao nível dos cuidados curativos, mas também no que respeita à promoção e educação para a saúde, prevenção, ou reabilitação.Os primeiros frutos são colhidos numa época de aflição, na medida em que muitos dos brasileiros que são acompanhados por estas equipas de saúde sabem como limitar o risco de contágio, ou reconhecer os primeiros sinais de infecção pela Dengue, solicitando ajuda médica mais cedo.O secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde Brasileiro, José Carvalho de Noronha, declarou à margem da III Cúpula Ibero-Americana de Medicina Familiar que as experiências de epidemia em Campo Grande (Mato Grosso do Sul), no ano passado, e este ano nas cidades do Rio de Janeiro e Niterói, demonstram que “índices baixos de mortalidade entre os doentes infectados podem ser alcançados quando existe uma boa cobertura do PSF”. Ao contrário do Rio de Janeiro, Niterói (que dista menos de 10 km, por via marítima, da cidade maravilhosa) beneficiou do PSF desde o seu momento inaugural. Esta terá sido uma razão decisiva para que as suas taxas de mortalidade por Dengue fossem bem menos dramáticas do que as que se verificaram do outro lado da Baía de Guanabara.
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