| Escrito por Tiago Reis,
em 02-05-2008 10:59
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Na Figueira da Foz foi assinado um acordo de cooperação que cria a primeira rede digital de saúde de âmbito regional. O novo serviço ligará o Hospital Distrital da Figueira, as diversas unidades do Centro de Saúde da Figueira da Foz e, num futuro próximo, os centros de diagnóstico, serviços ao domicílio, laboratórios e farmácias daquela zona geográfica. Objectivo: desmaterializar os processos, acabando com as pilhas de papel que se acumulam nos arquivos, agilizar a comunicação entre prestadores e utente, melhorar a eficácia dos resultados e reduzir dispêndios e erros clínicos. Na Unidade de Saúde Familiar São Julião da Figueira é já possível perceber o espírito dos novos tempos. Os utentes podem interagir com a sua equipa de saúde sem saírem de casa, através de um portal que lhes permite fazer quase tudo. Os profissionais parecem rendidos aos novos métodos e convencidos de que a moda vai pegar rapidamente, sem criar info-excluídos
A Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro, o Hospital Distrital da Figueira da Foz (HDFF) e a Portugal Telecom (PT) assinaram um protocolo que dá luz verde para o arranque da Região de Saúde Digital. Trata-se de um projecto que assenta numa plataforma electrónica e num conjunto de soluções informáticas que, depois de implementadas num âmbito territorial limitado (a cidade da Figueira da Foz e área geográfica envolvente), possibilita uma integração total dos processos e procedimentos clínicos dos cuidados de saúde primários, secundários e diferenciados. É o primeiro caso, em Portugal, de uma rede de informação partilhada que envolve todos os parceiros regionais que intervêm na prestação de cuidados de saúde, do hospital ao centro de saúde (incluindo todas extensões e unidades de saúde familiar - USF), passando pelos laboratórios, farmácias, serviços de diagnóstico, entre outros.
Numa primeira linha, esta região digital pretende melhorar os resultados em saúde através do recurso a ferramentas electrónicas, contribuir para o desenvolvimento profissional contínuo, para a criação de uma solução integrada que centralize a informação clínica do paciente e garantir bons padrões de referenciação. Em acréscimo, a rede tenderá a minimizar erros surgidos da fraca articulação ou da inexistência de automatismos, diminuir os tempos de espera para atendimento e oferecer serviços não presenciais, que poupem ao utente deslocações supérfluas às unidades de saúde.
A Região Digital será implementada faseadamente. Nas primeiras etapas de Implementação será introduzido o processo clínico global no Hospital e algumas funcionalidades ao nível do internamento e bloco operatório em especialidades piloto. No Hospital serão também lançados, de forma gradual, um quiosque e um portal do utente (semelhantes aos que já existem na USF São Julião). Com o decorrer do tempo as partes comprometem-se, também, a generalizar a todas as unidades do Centro de Saúde (CS) da Figueira da Foz as ferramentas electrónicas que já estão disponíveis na USF São Julião da Figueira.
Governo valoriza sentimento de segurança
Para o Secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro, "este é um projecto que segue na direcção certa, que é a da qualificação do SNS", essencial porque os "cidadãos estão cada vez mais exigentes". O governante tem grandes expectativas sobre o desenrolar desta rede, tendo-se mostrado muito agradado com os primeiros sinais que viu, ao vivo, na USF São Julião da Figueira. Por isso, Manuel Pizarro crê que a Figueira da Foz se pode tornar "uma região piloto, do ponto de vista da relação electrónica entre hospitais, centros de saúde e cidadãos. As vantagens são múltiplas para a população: desde logo a vantagem da simplificação no contacto, mas também o benefício para o seu sentimento de segurança". Sobre os custos do projecto, o secretário de Estado garante que não chegam a equiparar-se à comodidade e segurança oferecida aos utentes, ou à satisfação dos profissionais do SNS.
A propósito da modernização tecnológica e da simplificação de processos já iniciadas na USF São Julião, a primeira unidade da rede a ver os frutos deste investimento, Manuel Pizarro salienta que não pode faltar o apoio a meio caminho. Por isso, o governo deixa claro que sempre que existirem méritos para reconhecer, estes não passarão em branco: "estamos a criar um Selo Simplex que visa credenciar as USF, quando atingirem um determinado patamar de simplificação e de facilitação do quotidiano dos utentes". Este selo deverá tornar-se uma realidade, a nível experimental, ainda em 2008. Sobre a articulação entre centros de saúde e hospitais, efectivada através de redes de informação comuns, o governante declara que o projecto da Figueira terá de ser avaliado para futura replicação, mas que apresenta vantagens que são evidentes, à partida: "esta coisa de se fazerem análises no centro de saúde, que depois são repetidas no hospital para o mesmo efeito e com vista ao mesmo diagnóstico, tem de se tornar um facto do passado. Para ultrapassar este problema é apenas necessário garantir que a informação está sempre disponível e que acompanha o doente".
Já Vítor Leonardo, presidente do Conselho de Administração do HDFF, não hesita em declarar que a nova rede pode ser um exemplo a seguir em outros locais: "deposito muitas esperanças nos propósitos desta Região de Saúde Digital e faço votos para que venha a ser uma referência, na forma de organização da informação nos cuidados de saúde". Dirigindo-se ao secretário de Estado Manuel Pizarro, Vítor Leonardo expressou, também, a vontade de que este projecto esteja na origem de "uma maior interligação do HDFF com os centros de saúde da região".
Espreitar o futuro
A PT elegeu a USF São Julião da Figueira e o CS da Figueira da Foz como unidades privilegiadas para experimentar novas soluções tecnológicas. Cunhou inclusive a expressão Centro de Saúde do Futuro, para abarcar este campo de inovação tecnológica. Depois da informatização total do CS e da instalação do quiosque electrónico na USF São Julião, que permitiu agilizar o atendimento dos utentes (o tempo de espera no circuito administrativo, antes do início da consulta, passou de 12 para 6 minutos), a USF e a PT conseguiram fechar o ciclo digital, por assim dizer, com o lançamento de um portal do utente. Neste espaço cibernético, os utentes da USF podem marcar consultas on-line (depois de visualizarem o agendamento disponível), solicitar receituário crónico, atestados e declarações, consultar notícias sobre patologias, prevenção em saúde, rastreios e eventos, ou simplesmente contactar com o seu médico e enfermeiro de família. Após a marcação da consulta, o utente pode, se assim o entender, receber a confirmação do agendamento através de uma mensagem enviada pelos serviços para o seu telefone particular. Quando chega à USF, basta assinalar a sua presença no quiosque electrónico – recorrendo ao cartão do utente – e esperar para ser chamado, através do sistema multimédia interno. Também lhe será permitido consultar no portal o processo clínico (as observações pessoais dos médicos não estão incluídas, como é óbvio, mas estão presentes os diagnósticos, problemas de saúde sinalizados, intervenções cirúrgicas que fez, hábitos reportados), ou consultar recomendações e alertas inseridos pela equipa de saúde, sempre que se aproximar uma data crucial (para realização de auto-cuidados, vacinação, exames, etc.).
Uma vez que um plano de cuidados personalizado do utente está disponível on-line, este pode também inserir medições fundamentais para a gestão do seu caso, como por exemplo registos da TA.
Tecnologia não assusta
Nas semanas que se seguem à abertura do portal, a equipa da USF acredita que muitos dos utentes já começarão a solicitar a palavras passe para acederem a este poderoso meio de comunicação, pelo que o uso regular do mesmo não deverá tardar. Segundo o coordenador da USF São Julião da Figueira, José Luís Biscaia, "com o portal activo, o cidadão passou a ser o depositário do seu processo clínico, o que é uma mais valia espantosa".
Sobre as hipotéticas dificuldades que parte da população poderá sentir, para fazer uso das novas tecnologias, o responsável da USF prefere adoptar uma postura optimista: "Portugal é apontado, em muitas áreas, como um país que adere à inovação. Veja-se o número de telemóveis existentes, o número de cartões bancários ou os dispositivos de comunicação que exportamos cada vez mais para o estrangeiro. O portal vem tocar numa área a que os portugueses são muito sensíveis; a facilitação do dia-a-dia. Se as pessoas vão à papelaria e pagam os seus jornais com um cartão electrónico, ou encomendam bens a partir da Internet, não me parece que terão dificuldades com o que agora lhes é proposto".
Tecido empresarial quer apostar na Saúde
Carlos Duarte, presidente da comissão executiva da PT Corporate, relembra que a Região de Saúde Digital da Figueira e o projecto do Centro de Saúde do Futuro não são as primeiras incursões do grupo PT em instituições que prestam relevantes serviços sociais. Disso são exemplo a Esquadra do Futuro (Esquadra da PSP do Estoril) ou as Escolas do Futuro (o Colégio Conciliar de Maria Imaculada, em Leiria, foi o primeiro estabelecimento de ensino a beneficiar deste conceito).
"Acreditamos que este é o caminho do futuro, não só para as unidades de saúde familiar, mas também no campo mais vasto das redes digitais de saúde", avança o presidente da PT Corporate.
Segundo Carlos Duarte, enquanto maior empresa nacional no ramo tecnológico, a PT não pode ser apenas um prestador de serviços, pelo que tenciona estar cada vez mais presente em áreas onde o seu contributo para a transformação social é bem recebido: "temos de ajudar a alterar os hábitos da sociedade; de fazer parte dessa dinâmica. Este tipo de intervenção, em USF e em redes de saúde digitais integradas, contribui para a simplificação e modernização que se pretende para o país, como um todo".
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