Depois de um interregno de vários anos, o CS da Parede voltou a organizar as suas jornadas. Desta vez, com o objectivo de lançar novos olhares sobre as doenças crónicas. A iniciativa partiu dos internos do centro de saúde mas a participação estendeu-se a todos os sectores que integram a equipa da unidade. Vítor Ramos, médico de família da USF Marginal e professor da Escola Nacional de Saúde Pública, deu início às Jornadas com uma conferência sobre a gestão da doença crónica num contexto de reforma dos serviços de saúde. A capacitação dos cidadãos e a organização dos serviços em torno da pessoa e não da doença foi o tema central da sua intervenção
As doenças crónicas, de início impreciso e evolução prolongada, exigem a continuidade de cuidados e abordagens integradoras, centrados na pessoa, por oposição às abordagens redutoras, que focam apenas a doença, ou mesmo as abordagens sistémicas, que incidem sobre um cluster de problemas de saúde. Neste âmbito, Vítor Ramos defende que o esforço dos profissionais deverá ser dirigido à promoção da saúde, do bem-estar e da qualidade da vida humana. Ou seja, trata-se de "gerir as oportunidades", nomeadamente no que se refere a uma maior capacitação do doente e ao desenvolvimento de novos paradigmas nos cuidados de saúde, em vez de multiplicar serviços, tecnologias e consumos.
A complexa realidade da doença crónica "exige outros olhares ou modos de ver, sentir, agir e pensar", diz o médico. O paradigma patogénico é substituído por aquilo que denomina de paradigma salutogénico, ou seja, de explicação das causas da saúde e daquilo que nos mantém saudáveis, apesar de todos os riscos e ameaças.
Maior capacitação dos cidadãos domina paradigma salutogénico
Neste novo paradigma salutogénico, a promoção da saúde e a prevenção da doença compreende quatro níveis: literacia, capacitação e autonomia da pessoa/doente, integração de cuidados centrados na pessoa, regulação sistémica e dispositivos e competências de gestão da saúde populacional.
Muitos parâmetros da doença crónica "não dependem dos serviços, dos profissionais ou dos medicamentos mas, fundamentalmente, das pessoas", diz o médico, recordando o conhecido lema de Charles Mayo, fundador da Clínica Mayo, nos Estados Unidos: "o ideal é que as pessoas precisem cada vez menos de nós". E isso implica dotá-las de maior capacidade de gestão da sua saúde. Tal objectivo é difícil de alcançar com serviços baseados em organizações de grande dimensão ou excessivamente burocratizadas. Por isso, Vítor Ramos aposta no desenvolvimento de equipas multidisciplinares, flexíveis e ágeis, com capacidade para entrosar e responder, de forma efectiva, aos problemas dos cidadãos.
Transformações requerem ciência, estudo e experimentação
O processo de reforma que hoje decorre em Portugal é consentâneo com o que sucede em muitos outros países do mundo. A maioria dos sistemas de saúde, mesmo aqueles considerados bons, tentam introduzir, de forma constante, mecanismos de regulação, complexos e subtis.
Vítor Ramos apresenta o caso da Holanda como um exemplo. Nos anos 80, surgia o Plano Decker, de carácter sistémico e empresarial, da mão de um antigo responsável da Philips. Mas o mercado da saúde, extremamente imperfeito e complexo, ultrapassa o mundo empresarial. Daí que o modelo holandês tenha continuado a transformar-se, de forma constante, nos últimos 20 anos. Contém, hoje, algumas ideias de gestão de Decker, mas já não o plano inicial: "as transformações podem ser mais rápidas ou mais lentas mas nunca estão acabadas, devido à sofisticação dos mecanismos de regulação", explica o médico.
Por vezes, pode parecer que nunca acontece nada ou que está tudo na mesma, "mas temos que ser realistas: os sistemas de saúde são complexos, difíceis de mudar" e essas mudanças não resultam de uma qualquer ideia luminosa mas de um trabalho complicado que requer "ciência, estudo, experimentação" e que implica "erros, tentativas e correcções".
As grandes questões da reforma
Nesta transformação do sistema de saúde, o médico aponta oito pontos essenciais, para os quais é preciso encontrar respostas ajustadas e reguladas. A primeira questão diz respeito ao financiamento e contratualização das unidades de saúde que "tem que estar associado às pessoas e aos seus problemas e não às instituições e aos profissionais".
Este aspecto relaciona-se, por sua vez, com outra grande questão: "os benefícios e a gestão de cuidados devem estar centrados na pessoa e não na doença em si".
O terceiro ponto diz respeito à necessidade de aumentar a literacia em saúde e a capacitação do doente e da sua família na gestão da doença crónica. Não se trata de desresponsabilizar mas de o médico passar a ser visto como "um consultor, um recurso de apoio, um responsável cujo objectivo é promover a sua qualidade de vida".
Para isso, o médico defende cuidados de proximidade através do desenvolvimento de pequenas equipas multidisciplinares. "O desafio pode chamar-se unidades de saúde familiar ou o que quiserem". Desde que sigam a via de "maior proximidade e entrosamento, menos hierarquia burocrática e maior responsabilização".
O acesso e o papel dos cuidados secundários e terciários, a continuidade de cuidados e os cuidados continuados, integram igualmente o complexo puzzle da saúde. Tal como os sistemas informáticos, "centrados na pessoa" ou a gestão integrada de base populacional, através de processos de monitorização e avaliação que implicam a existência de indicadores, objectivos e resultados, nomeadamente ao nível da qualidade de vida dos cidadãos. Um ponto que constituirá, provavelmente, um dos principais desafios das futuras unidades de saúde pública dos agrupamentos de centros de saúde.