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Desculpem, mas eu li!
“Mudam os tempos, como as vontades...” PDF

Escrito por Tiago Reis, em 04-04-2008 16:44


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Devo começar por confessar não ser católico, no sentido mais amplo da afirmação. Ou seja, nem detenho a qualidade de o ser, nem sigo a religião da qual o Papa é, de algum modo, o chefe.

O que não invalida ou me impede de, como turista ou curioso, por todo o lado, escolher as igrejas e outros testemunhos físicos do catolicismo, como primeiros pontos de visita e de comum admiração.

Espanto-me e comovo-me com muitos dos exemplares de arte sacra que abundam por este país, como me silencio e suspendo a respiração com muita da música que nos mergulha noutros pensamentos.

Da mesma forma que me não limitam as leituras teológicas de muitos nomes e autores, como é o caso de Richard Hooker, um teólogo inglês da segunda metade do século XVI.

A sua evocação vem a propósito do título desta crónica, "mudam os tempos, como as vontades..."

Com efeito, Hooker escreveu sobre as mudanças que "nunca ocorrem sem inconvenientes, até mesmo do pior para o melhor"!

Como estou de acordo...

Um colega escreveu-me chamando-me a atenção para o facto de já termos licenciados pelas novas Faculdades de Medicina, da Universidade do Minho e da Beira Interior.

Foi isso que me recordou como os tempos mudam e as vontades também.

Quando acabámos o curso, na Faculdade de Medicina do Porto, o número de escolas médicas no país era bem menor do que na actualidade e o número de licenciados em cada ano, bem maior do que o actual!

Um Estado cheio de males e de pecados promovia a formação numerosa de médicos, dando a ideia de que, afinal, havia alguma visão estratégica e a prazo, tendo em conta um conjunto de necessidades identificadas: o envelhecimento populacional, a guerra colonial então em curso, a indispensabilidade de melhorar a rede de cuidados de saúde (na altura designada de Serviços Médico-Sociais...), a razoabilidade de melhorar os diversos índices de avaliação da saúde...

Os cursos médicos admitidos nos anos anteriores à Revolução de Abril chegavam aos 600, 700 ou 800 alunos por Faculdade – Porto, Coimbra e Lisboa!

Mas veio o 25 de Abril e mudaram-se as vontades.

Logo no ano seguinte, 1975, as Faculdades não abriram vagas, ou seja, entraram zero alunos!

E a partir daí, conhece-se o panorama, com a instituição do numerus clausus e a sua perpetuação tão anormal, quanto inexplicável e inexplicada ao país e aos portugueses!

Poderíamos continuar a discutir o passado, mas pensei em John Kennedy que, igualmente sobre as mudanças, afirmava que "aquelas que apenas olham para o passado ou para o presente irão, com certeza, perder o futuro"!

Voltando aos novos colegas, provenientes das mais recentes faculdades, há que os receber, felicitar e integrar, sem que lhes escondamos dois factos fundamentais para quem inicia – mais que uma carreira, que já não há – um percurso profissional tão nobre e marcante:

- o primeiro, de que se tornaram Médicos;

- o segundo, de que passaram a ser também guardiães da prática clínica e da confiança médico/doente!

Ora, vale isto por dizer que, os novos colegas se lançam numa actividade de elevada exposição, à qual muitas vezes, mais do que algum tipo de sofrimento físico, se lhes pede que tratem ou giram os sofrimentos da vida: desemprego, divóricos, toxicodependências, privações de liberdade, violências conjugais, profissionais ou sexuais...

Vale isto ainda por dizer, que chegam à profissão num tempo difícil e complicado, no qual os constrangimentos podem aparecer encapotados ou não, sob capas diversificadas que, em momento algum poderão colocar em risco a qualidade da prática médica!

Mudam os tempos, como as vontades...

Acredito que a formação de que foram objecto, visando uma integração progressiva e gradual na área da Saúde, e uma aproximação às formas de Medicina Familiar, Hospitalar e da Saúde Pública, possa resultar num processo global de aprendizagem mais lógico e abrangente.

Provavelmente, muitos dos jovens colegas foram alunos, estudantes de excepção, num mundo académico exigente e competitivo, mas onde cada qual se punha à prova de modo autónomo, pessoal e individual.

O exercício da Medicina, ao invés, faz-se no contacto com os doentes e as pessoas, sendo de recordar os princípios do juramento hipocrático.

Mas duvido que a vocação para as actividades assistenciais mais essenciais ao país esteja a ser estimulada, face à atracção que a investigação e a pesquisa produz nestes jovens...

Convém, ainda assim, pois, sublinhar a necessidade de cada médico não transigir com os deveres éticos, deontológicos e humanos que, como cidadãos e homens, antes de médicos, lhes são esperados!

A ideia de um de nós ser escolhido por alguém que, doente e carecido de ajuda técnica e científica, nos procura e se coloca nas nossas mãos, tem tanto de belo, como de dramático.

Por isso, somos os Deuses e os Demónios da Medicina, como escrevia Fernando Namora, outro médico.

Por isso, mudam os tempos, mas não mudam as vontades, ainda que, como parece ser o caso, os tempos mudem rapidamente sob a sanha avassaladora de um Estado que tudo quer controlar e regular, asfixiando e complicando...

Por isso, enfim, não deixamos de sendo Médicos, sermos Homens.

Rui Cernadas
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