| Escrito por José Agostinho dos Santos,
em 01-08-2012 13:09
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A crónica desta edição germina
diante de mim e num campo onde existiu já a paixão e a intensidade de um
entusiasmo desmedido. Belas são estas alturas em que nos apaixonamos com toda a
essência, tanto à primeira vista como depois de meses de conhecimento, mas
certamente sempre após se dar...o clique!
O clique constitui, portanto,
aquele naquele ponto-auge de todo um percurso que é, geralmente, relativamente longo, em que tudo parece fazer
sentido daquela maneira e naquele momento. Depois de semanas (ou mesmo meses)
trilhando um caminho de busca entre a neblina do nosso quotidiano, de pesquisa em
ambiente banho-maria e de interacção entre os ruídos de fundo...eis que o céu
fica limpo, desvendando um sol que nos acalenta em todas as esperanças de um
passo em frente seguro e plenamente recompensador.
Eu não sei, ao certo, o que os caros
leitores estarão a pensar sobre o que escrevo até este terceiro parágrafo...Mas,
garanto-vos desde já, que não estou a escrever sobre amor. Porém, escrevo sobre
algo parecido. Há quem diga mesmo que é um "segundo amor"! Escrevo sobre a
clínica: a nossa clínica enquanto actividade que nos preenche e nos faz mover,
diversas vezes, mundos e fundos.
Quantos de nós não terão seguido
exactamente este caminho algures entre os diversos anos de actividade
assistencial? Refiro-me a este caminho de conhecimento da pessoa (enquanto
paciente), percorrendo um trajecto de pesquisa de sintomas e sinais que se
apresentam, tantas vezes, de forma inicialmente amorfa. Vai-se desenvolvendo,
consulta após consulta, um quadro... Quase como de um puzzle se tratasse.
Encaixa-se uma peça aqui e outra peça ali... Sempre entre uma nuvem de
incerteza, sem conseguir vislumbrar um esquema coerente que relembre qualquer
imagem ou que nos induza a ver um futuro a dois (entenda-se, médico + caso
clínico), mas quase sempre sem perder o encanto e a dedicação por algo que se
constrói de forma lenta e consistente.
Os tempos vão passando e o caso vai
estando ali ao nosso lado, aguardando que o olhemos de um prisma diferente (quiçá
um dia?) e esperando que o encaremos de uma forma que vá para além de uma amena
relação de "estamo-nos a conhecer melhor"... Haverão, pois claro, as fases
piores, em que estaremos tão assoberbados de outros trabalhos que nem
repararemos nas pequenas particularidades do caso que nos dão a entender algo
mais...Deixaremos escapar alguns detalhes provindo dele e expressos naquela
pessoa que senta no nosso gabinete, e que só a posteriori daremos valor...
Até que um dia, "aquele dia" chega!
Num momento menos esperado, num contacto afável e imprevisto, o caso
fornece-nos uma peça central no puzzle... E sem percebermos bem porquê,
sentimos algo diferente, uma sensação estranha de que algo faz sentido e de que
se está prestes a chegar a um sítio certo. Vamos para casa refletindo na
maneira como as coisas aconteceram com este caso e no trilho percorrido até ao
momento. Deitamo-nos a pensar no caso e, não-raramente, até sonhamos com ele. Na
manhã seguinte, existe aquela intensa vontade de o rever. Até entramos mais
cedo, se preciso, só para dar uma nova olhada. E quando menos contamos...dá-se
o clique! Entenda-se, o diagnóstico!
Tudo faz sentido a partir de então!
Chega, entretanto, a excitação, a volúpia, a necessidade de contar ao mundo!...
Falamos com os colegas sobre ele, questionamos sobre os seus próprios casos e
refletimos sobre os nossos próprios cliques e casos passados... Planeamos como
proceder a partir de então, propomos hipóteses de tratamento, projectamos
estratégias de seguimento, fazemos planos de futuro!... E nos momentos mais
íntimos e solitários, olhamos para trás e inquirimo-nos, com perplexidade,
"como é que eu não reparei nisto mais cedo?..."
Esta é uma visão alternativa de uma
pequena fracção da nossa actividade enquanto clínicos, particularmente médicos
de família. O médico e o caso clínico... Ou o caso clínico e médico... Darão
sempre muito que falar e dissertar. Talvez esta seja uma visão um tanto
ortodoxa... Mas creio que não cria dúvidas que é uma visão "mais apaixonante"
da nossa clínica.
Assim, é a vida! Bom trabalho!
José Agostinho Santos
USF Lagoa, Centro de Saúde Senhora
da Hora
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