| Escrito por Rui Cernadas,
em 07-05-2012 17:33
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Em tempos de necessidade, as
necessidades avolumam-se e questionam-se as oportunidades...Em matéria de saúde, porém, para
além da garantia de qualidade dos cuidados dispensados, pese embora a
enormidade e ferocidade de factores exógenos, incluindo os de natureza
estrutural e financeira, há que perceber em que medida as instituições vão
aguentar e adaptar-se.
Nestes termos, a governação clínica
é valorizada justamente como metodologia para a salvaguarda dos padrões de
qualidade e de exercício da actividade clínica.
Exactamente por isso, assume-se como
um modelo organizativo de governação e direcção integrado!
Integrado no sentido em que inclui
os aspectos económicos e financeiros, o desempenho clínico, a sua avaliação, o
estímulo à prossecução da qualidade no sentido mais elevado do seu
entendimento.
Mas a governação clínica exige - não
dispensa minimamente - uma forte liderança, uma coerente capacidade de
influência e o envolvimento global dos diversos grupos profissionais dos
serviços e instituições.
Só deste modo se compreenderá o uso
eficiente de todos os recursos, enquanto imperativo ético de todos nós...
Neste contexto, um dos pilares
fundamentais da governação clínica é o da melhoria permanente da qualidade dos
processos.
É aqui que se situa a discussão da
elaboração ou adaptação das guias de prática clínica ou "guidelines" e sua posterior
implementação.
De facto, trata-se de documentos
essenciais na gestão do risco clínico global e na segurança dos doentes, para
além de constituírem instrumentos úteis na actividade médica e objectos de
indispensável actualização regular.
O problema - se assim lhe poderei
chamar - radica no facto de em torno da sua divulgação se ter feito muito ruído!
E parte desse ruído, provavelmente,
deriva do outro facto - não sei se contraproducente - de sermos um país de
extremos e do tudo ou nada: de algumas Normas da Direcção Geral de Saúde que,
poucos liam ou conheciam, passámos para uma produção desenfreada e
exibicionista que, na verdade, quase nem deixa os seus destinatários
valorizá-las, assimilá-las e integrá-las na sua prática.
Por outro lado, sejamos francos,
poderão ser pedagógicas na perspectiva de quem leva a sério a Medicina Geral e
Familiar, uma especialidade que tudo tem que fazer, tudo tem de saber tratar e
tudo tem que poder prevenir, gerir ou referenciar...
É por isso que, para mim, é
inquestionável que as Normas devem ser entendidas como mecanismos facilitadores
e não como uma ferramenta da ditadura ou da repressão.
Na realidade, no dia-a-dia, face às
quase cem "guidelines" anunciadas, será impossível que alguém as possa
incorporar e cumprir à risca.
Ou que algum colega venha a ser
preso ou detido para interrogatório se o não fizer!
Mas com efeito, tornam-se e
tornar-se-ão mecanismos acessíveis, fáceis e práticos de aceder a revisões e
orientações clínicas de qualidade!
Não as devemos entender como meios
de imposição orçamental ou de custos, mas antes como um passo decisivo e
correcto no sentido de proporcionar melhor tratamento aos nossos pacientes, de
modo mais racional, correcto e adequado, sempre na única perspectiva técnica e
eticamente aceitável: a da individualização do tratamento.
Falar da parametrização dos
indicadores, o passo fundamental e em falta, vai ser crucial para se avaliar das
vantagens da introdução e desenvolvimento das Normas.
Não será aceitável que alguns
colegas as entendam, sempre e a todos os títulos, como não aplicáveis. Mas já poderá
acontecer que, a muitas, o tempo e a investigação médica as corrijam ou
inflictam, obrigando à respectiva revisão e actualização.
O que não será admissível é que
algumas atitudes impensadas e não consolidadas face ao conhecimento científico,
se possam manter ou perpetuar em nome duma qualquer liberdade técnica ou
autonomia profissional, incompatíveis com a modernidade e o presente da
Especialidade e com a dignidade devida aos nossos doentes!
Por outro lado, alguns desses
médicos poderão sempre estudar e aprofundar o seu conhecimento, permitindo ou
viabilizando uma revisão antecipada ou uma discussão inter-pares mais alargada
e aprofundada.
Também aqui, o papel dos auditores
vai ser determinante, abrindo portas a uma recertificação que o próprio
Presidente do Colégio de Especialidade da MGF, o nosso colega José Silva
Henriques, tem defendido em vários fóruns e palcos.
A liberdade de prescrição não é o
direito, ou um direito a qualquer prática individual não alicerçada, nem
sedimentada em sabedoria e em função dos interesses e especificidades de cada
doente.
Mesmo sabendo e estranhando que este
passo, o da implementação das Normas, resulte da decisão ou da imposição do
Memorando de Acordo Financeiro negociado pelo governo português com a "Troika",
é caso para dizer que mais vale ser alguém a dar-nos as regras e as indicações
para o caminho, do que nos mantermos outra vez "orgulhosamente sós"...
Esperemos que todo este esforço nos
traga os resultados que a produção de saúde justifica e impõe.
Aguardemos que os médicos e os seus
doentes se sintam orgulhosos e satisfeitos por um novo tipo de relacionamento
agora aberto por esta via.
E que o Governo se sinta também
recompensado pelo seu SNS!
Os portugueses, todos os portugueses,
quer os doentes, quer os profissionais de saúde, quer os contribuintes, ficarão
gratos!
Rui
Cernadas
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