Uma combinação perfeita entre poder técnico e poder político acolheu os novos internos de Medicina Geral e Familiar em Vilamoura. O presidente da WONCA, Richard Roberts, instigou os formandos a desenvolverem uma relação interpessoal sólida com os seus doentes. Já o secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro, salientou o papel importante que os futuros médicos de família têm na actual refundação do Serviço Nacional de Saúde
Convidado a estar presente no 25º Encontro Nacional – e uma vez que pôde escolher o momento da sua comparência em Vilamoura – o secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro, fez questão de marcar presença na cerimónia de recepção aos internos que ingressaram, este ano, na especialidade de Medicina Geral e Familiar (MGF).
Recordando o seu próprio Internato em Medicina Interna – também esta uma especialidade generalista –, o responsável dirigiu algumas palavras de incentivo aos formandos de MGF, numa altura em que iniciam uma fase que é simultaneamente "árdua e gratificante".
E lembrou: "Estamos a fazer, em Portugal, uma verdadeira refundação do Serviço Nacional de Saúde (SNS). E essa refundação é feita convosco, com a MGF, com a colocação efectiva dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) no centro do SNS".
Para além disso, sublinhou, "vocês chegam à especialidade num momento particularmente entusiasmante e excitante", num contexto de mudança. "Nós contamos convosco e vocês podem contar com a administração", frisou o governante, instigando os internos a manter – pessoal e profissionalmente – um nível elevado de exigência, à semelhança daquilo que a Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral (APMCG) tem conseguido fazer ao longo dos últimos anos.
"A reforma actualmente em curso nos CSP só está a ser possível, graças ao elevadíssimo nível de intervenção na vida pública e de exigência que a APMCG tem sabido manter ao longo do tempo", notou o secretário de Estado.
Manuel Pizarro também alertou os internos para os desafios técnicos inerentes à sua formação: doentes cada vez mais (des)informados, num contexto de abandono do paradigma paternalista da relação entre médico e paciente.
"Insisto sempre que a tradução da expressão anglo-saxónica to care for the patient não é simplesmente tratar o doente – porque senão seria to treat the patient –, mas vai muito para além disso…", concluiu o responsável, sustentando que "um médico que não for capaz de uma relação humanizada, não é tecnicamente um bom médico".
Como representante do poder técnico, o presidente eleito da WONCA, Richard Roberts, também colocou a tónica na relação interpessoal sólida que o médico de família deve ser capaz de construir com o seu doente. "Abram-se à relação interpessoal com os vossos doentes. Muitas vezes construímos muros entre nós e os pacientes para nos protegermos, mas isso não resulta. Se tomarem conta dos vossos doentes, eles também vão tomar conta de vocês!", sustentou o responsável da organização mundial de médicos de família, convidando, ainda, os futuros especialistas a envolverem-se nas actividades associativas, e a um nível internacional, na WONCA.
"Ensinem-nos a fazer melhor", solicitou, com humildade, o norte-americano.