| Escrito por Rui Cernadas,
em 19-04-2012 18:48
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Escrevia um outro transmontano: "É
escusado. Ou se lavram estes montes a instrução e a higiene, ou então não vale
a pena um médico perder a vida aqui." Esse homem, Adolfo Correia da Rocha,
nascido em 1907, era Miguel Torga. Evoco-o porque o Professor Daniel
Serrão, nascido em 1 de Março de 1928, em Vila Real, pareceu escutar tal
conselho...Como o tempo o provou, é demasiado
grande para a sua terra.
Completou o liceu, o então designado
Curso Geral dos Liceus, em Aveiro. Depois de ter frequentado os liceus em Viana
do Castelo e em Coimbra... Em 1951, licenciou-se em Medicina, tendo-se doutorado
em 1959. De 1967 a
1969, está em Luanda, no Hospital Militar, como médico anatomo-patologista. De
regresso ao Porto, em 1971, torna-se Professor Catedrático de Anatomia
Patológica. É aí que o vou conhecer e passar a admirar, em condições que se
revelaram mais tarde difíceis e dolorosas, com o seu saneamento em 1975 e que
durou um ano, antes dessa estúpida decisão ser anulada pelo Conselho da
Revolução.
Fazia parte, enquanto membro
discente do Conselho Directivo da Faculdade de Medicina do Porto, da equipa que
o viu regressar à Faculdade a que deu outra dimensão e grandeza!
Fiz parte do grupo alargado que se
bateu pela justiça do seu retorno! Por isso, compreender-se-à a enorme honra e
o grande prazer que senti ao participar na Homenagem Nacional que, as Jornadas
Nacionais do Patient Care, lhe dedicaram e promoveram.
Jubilado em 1998, o Professor Serrão
fará para sempre parte da memória de quem teve a felicidade de o ouvir
dissertar, reflectir ou ensinar o que nos abriu novos horizontes ou fronteiras,
transportando-nos a cada dia para um amanhã ainda entreaberto... Diz-se "um
optimista incurável", o que explica a vivacidade com que nos põe encantados a
ouvi-lo...
"O que o homem deixa quando morre...
tudo exprime uma realidade que está para além do corpo físico, de um certo
corpo físico que esse homem usou para viver o seu limitado tempo pessoal de ser
homem", escreveu em "Viver, Envelhecer e morrer com dignidade"!
O seu vastíssimo conhecimento é
objecto de reconhecimento e admiração generalizados.
Desempenhou, entre muitos outros
cargos, membro do Comité Internacional de Bioética da UNESCO, membro do Comité
Director de Bioética do Conselho da Europa, da Academia Pontifícia Para a Vida,
por convite do Papa João Paulo II, Coordenador do Livro Branco sobre o uso de
embriões humanos e Coordenador do Conselho de reflexão Sobre a Saúde!
Nunca descurou o contacto com a
realidade mais comezinha. Citando-vos novamente o Professor Serrão: "É dever
ético do médico, tanto no sector público como no sector privado, tudo fazer
para reduzir os custos sem reduzir a qualidade. O custo de cada acto médico
deve ser ponderado com a eficácia." E como já tive ensejo de referir, sempre
aberto ao dia de amanhã.
Escutei-o inúmeras vezes em
múltiplas oportunidades e situações, deliciado entre todos os que o
escutávamos, fascinados pelo seu pensamento e velocidade de discurso.
Sobre o cancro e as patologias mais
díspares, ou a respeito do financiamento e investigação nas ciências da saúde, ou
a propósito do doente terminal e dos cuidados paliativos, ou mesmo sobre temas
e problemas da saúde pública, ou como sempre sobre questões da ética e da vida,
ou sobre o testamento vital, sobre nós, a Medicina Geral e Familiar e as USF...
Recomendou, repetida e
entusiasticamente, aos jovens médicos "uma enorme dose de utopia para acreditar
na refundação do Serviço Nacional de Saúde". Sei como gosta de cumprir horários
e usar o tempo. Sobretudo como não gosta de o desperdiçar
"O tempo rende muito quando é bem
aproveitado", dizia Johann Goethe. Estou certo de que o Professor Serrão
pensará o mesmo.
Rui
Cernadas
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