| Escrito por José Agostinho Santos,
em 19-04-2012 18:37
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Por
vezes, dou por mim a pensar no quão figura
pública um clínico poderá tornar-se, particularmente um médico de família
exercendo num meio rural. No meu campo particular, mesmo trabalhando numa
região urbana e ainda sob o relativo anonimato do internato médico, já vou
vivenciando as particularidades de um ambiente que é estranho para a maioria de
nós...mas que é, paradoxalmente, familiar para todos que nos observam.
Naturalmente,
o reconhecimento dos nossos rostos fora do ambiente de consulta poderá ter um
lado suave e doce. Poder-se-á encontrar um sorriso caloroso numa rua mais
inóspita, um gesto de delicadeza no trânsito e um jovial "bom dia!" que nos
acalenta numa incursão pelo meio local. Estas atitudes revestem-se de uma
peculiar ternura (sim ternura, atrevo-me a conferir algum afecto nesta atitude),
o que revela que o apreço dos pacientes pelo nosso trabalho clínico vai para
além da parcial formalidade do ambiente de unidade de saúde.
Porém,
haverá, certamente, contextos em que este reencontro com o paciente é, no
mínimo, desconfortável. Isto porque um médico é também paciente de outro médico
e tal como qualquer outro paciente prevarica
em determinadas situações! A diferença assenta em que o paciente não-médico
deseja fortemente que o seu médico não o encontre a prevaricar (algo difícil de
acontecer... qual a probabilidade? 1 em 1 milhão de pessoas?) enquantoque o
paciente-médico deseja intensamente que o seu médico e os seus pacientes não o
encontrem a liderar uma não-conformidade...
algo bem mais possível: probabilidade de 1700+1 em 1 milhão de pessoas!
Caros
colegas, estamos bem tramados!
Não
que eu acredite em bruxas...mas que as há, há! Só assim se justifica que, por
diversas vezes, nos surja um paciente precisamente naquela exacta situação em
que não nos convinha mesmo nada encontrar um avaliador externo! Um exemplo
vulgar, um caso comum, um erro frequente: fazer compras no supermercado a 1 km
da unidade de saúde! Por muito que saibamos que estamos a enfiarmo-nos na boca do lobo, a tentação é demasiado
grande quando se conjugam circunstâncias especiais como: sair tarde e a más
horas da unidade, ter um grupo de amigos a jantar lá em casa, despensa de casa
vazia. Conjuga-se a falta de tempo e disponibilidade para procurar outro
mercado e a conveniência da proximidade. E até vacilamos por momentos, mas
depois deixamo-nos conduzir pelo pensamento "pode ser que não encontre
ninguém!". Lá nos dirigimos apressados até às prateleiras do supermercado e, em
pés de lã, enchemos o carrinho das compras com apetitosas massas italianas, uma
embalagem de molho bechamel, dois doces para a sobremesa, o vinho especialmente
bom para um jantar de amigos (e especialmente elevado em taxa de álcool), as
tostas...e as entradas! Ah, as entradas... os presuntos, os fumados! Tudo fica
encavalitado naquele carrinho de mão, como se se tratasse de uma torre de
legos. Porém, ao contrário de uma criança orgulhosa da sua obra em legos,
nenhum de nós deseja pavonear-se com tal peça
de arte! Em vez disso, seguimos acelerados, com a sensação de missão
cumprida, até à caixa pertencente ao rosto que nos parece o menos familiar
possível! E precisamente no momento em que entramos no entroncamento de um dos
corredores com a larga marginal das
caixas, eis que encontramos a Dª Laurinda e Sr José, o casal de diabéticos com
o pior controlo glicémico da nossa lista!...
Os
seus olhares atingem-nos como se tratassem de flashes provindos das câmaras de dois paparazzi que nos aguardassem. Impossibilitados de escapar e muito
menos de esconder as nossas compras com alto teor calórico e com o maior índice
glicémico possível, tentamos recepcionar de forma natural os dois sorrisos
honestos do casal, a quem por acaso até aconselhámos uma alimentação bem mais
saudável na consulta da semana passada...
Bem,
tentando manter uma atitude descontraída e sem mostrar qualquer parte fraca, a
nossa última esperança flui na estabilidade da comunicação olhos nos olhos que
se mantém durante vários segundos. Se nós conseguíssemos que nenhum deles
tivesse um desvio do olhar para o nosso carrinho de compras, não estaria tudo
perdido!... Mas, não... O Sr. José faz qualquer pergunta particular que nos
obriga a direccionar um pouco mais o nosso olhar para si mesmo, ...escapando-nos
a Dª Laurinda que, em dois segundos, coloca os olhos naquela nossa torre de
legos!...Ok, fomos apanhados!... E partir daí é o momento auge deste nosso
percurso: tentamos mostrar que não estamos minimamente perturbados com as possíveis
avaliações daquele júri; o júri tenta disfarçar que não está a ser júri; existe
uma tentativa de manter uma resposta com coerência ao Sr. José e, entretanto...
uma tentativa de desvinculação daquele ambiente. Inicia-se uma busca de
palavras para a cerimónia de encerramento... uma despedida afável, porém
desconfortável... e resta-nos apenas seguir o nosso rumo, cabisbaixos e já sem
pressas: perdidos por 100, perdidos por 1000!
Estes
momentos em que as nossas vidas privadas se cruzam com as nossas vidas clínicas
sempre nos afectaram das mais diversas maneiras, que vão de um extremo muito
positivo até a um extremo desconfortável q.b.. Questiono-me se tais momentos têm
algum impacto, a posteriori, no
sucesso terapêutico, na abordagem do doente ou na relação médico-doente.
A
verdade é que são inevitáveis... logo, mereciam ser objectos de investigação...
É
apenas uma ideia! Por enquanto, deixo esta reflexão breve... Assim é a vida!
José
Agostinho Santos
USF
Lagoa, Centro de Saúde Senhora da Hora
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