É a nova unidade de
saúde familiar do agrupamento de centros de saúde do Arco Ribeirinho. A
Ribeirinha localiza-se no Barreiro - juntinho ao Tejo - e traz médico de família
a 7.096 utentes que anteriormente se encontravam a descoberto. De acordo com as
autoridades de saúde locais, graças à abertura deste serviço, a totalidade da
população da freguesia da Verderena fica com apoio directo de um especialista
de Medicina Geral e Familiar, sendo ainda possível contemplar quase 5 mil
habitantes da freguesia vizinha do Alto Seixalinho. Contudo, a característica
mais distintiva da unidade não é a abrangência cuidados que presta, mas o facto
de ocupar instalações cedidas por uma conhecida cadeia nacional de
supermercados, numa parceria inédita. Paulo Macedo foi conhecer o projecto de
perto, no dia da inauguração. O governante confia que a cooperação entre
Ministério da Saúde e organizações da sociedade civil, como aquela que libertou
espaço para a Ribeirinha, beneficia o Serviço Nacional de Saúde e a sua oferta
Com
o encerrar do mês de Fevereiro, o agrupamento de centros de saúde (ACES) do
Arco Ribeirinho passou a integrar a sua sexta unidade de saúde familiar (USF),
a Ribeirinha. Inaugurada pelo ministro Paulo Macedo, esta unidade deverá abarcar
12 mil e quinhentos utentes, até ao final do ano.
No
imediato, a abertura da USF Ribeirinha resulta na cobertura de cerca de sete
mil utentes que se encontravam anteriormente sem médico de família (MF)
atribuído, com claras perspectivas de melhoria de serviço para os residentes da
freguesia da Verderena e um nítido desanuviamento da antiga Extensão do Centro
de Saúde do Barreiro que funciona ainda na Avenida do Bocage, localizada no
interior da freguesia do Alto do Seixalinho.
Importante
referir que a Ribeirinha está localizada numa antiga galeria comercial, pertencente
ao Grupo Jerónimo Martins e adstrita a um supermercado detido por aquela
organização.
O
arranque da USF apenas foi possível porque o Grupo Jerónimo Martins cedeu gratuitamente à Administração
Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) o espaço da antiga galeria
comercial (num total de 900m2) e investiu perto de 300 mil euros, na
remodelação e adaptação da área. Por seu lado, a ARSLVT gastou mais 258 mil
euros, destinados ao apetrechamento técnico e climatização das instalações.
Só
com esta junção de esforços foi possível criar as condições para que um grupo
de sete médicos, sete enfermeiros e cinco administrativos (coordenado pelo
médico Ferreira Santos) pudessem iniciar funções.
Pode
parecer estranho para alguns, mas a verdade é que nos próximos meses muitos
utentes do Barreiro entram numa nova rotina: de uma só penada, queixam-se de
incómodas dores lombares, trocam de penso e aproveitam para trazer pão fresco e
verduras do dia.
Barreiro ainda tem
perto de 15 mil cidadãos sem MF
Segundo
a directora executiva do ACES do Arco Ribeirinho, Maria Manuela Marques, a
inauguração da Ribeirinha foi um dia de festa: "os profissionais sonharam com
este projecto e ao longo destes meses foram-no construindo, sob a égide do Dr.
Ferreira Santos. Contarão com o nosso apoio total, mas também com a nossa
exigência nos resultados e metas a atingir, necessários em termos de ganhos de
saúde e enquanto contributo para a sustentabilidade do SNS".
Carlos
Humberto de Carvalho, presidente da autarquia local, relembrou que o "Barreiro
sempre foi uma terra de trabalho, tecnologias e desenvolvimento,
características que devem ser mantidas para o futuro" e nas quais se encaixa o
cunho inovador da USF Ribeirinha. O edil recordou que depois de contactado pelo
Grupo Jerónimo Martins, o executivo camarário não hesitou relativamente ao fim
que poderia ser dado a um espaço tão nobre, espraiado junto à linha fluvial:
"concluímos - e bem - que o que mais falta fazia à freguesia era um equipamento
de saúde".
O
autarca desejou, ainda, boa sorte ao ministro da Saúde, na tarefa de conseguir
que os 15 mil utentes ainda sem MF do concelho de Barreiro sejam incorporados
em listas.
"Espero
também que o Centro Hospitalar do Barreiro/Montijo não continue a perder
valências e a encerrar serviços, como está a acontecer com a piscina, que tanta
importância terapêutica tem para os seus utentes", avisou Carlos Humberto de
Carvalho. Por fim, o autarca pediu a Paulo Macedo que o ajude a "a ultrapassar
as carências do Centro de Saúde de Santo António, tantas vezes prometido e
inscrito em PIDDAC - mas sucessivamente adiado -, assim como a resolver a
transferência da Extensão da Avenida do Bocage para um novo local".
Ministro defende reforma
dos CSP e dinamização de novas USF
Paulo
Macedo mostrou, durante a sua passagem pela margem sul do Tejo, estar atento a
um dos principais problemas que afecta o SNS, mas ao mesmo tempo confiante de
que estão a ser dados os passos certos: "é conhecida a carência de MF e de
outros profissionais de saúde nesta região. Com a entrada em funcionamento da USF
Ribeirinha, 83% dos mais de 92 mil utentes inscritos no concelho do Barreiro
ficam cobertos por MF. Não ficando inteiramente resolvido o problema, a criação
desta USF contribui, decisivamente, para o atacar e aponta o caminho que iremos
prosseguir".
O responsável da João Crisóstomo explicou que será reforçada a
aposta no lançamento de USF, serviços de proximidade formados sempre em
harmonia com as carências das comunidades e com a colaboração do poder
autárquico. Todavia, afirmou o governante, projectos como a Ribeirinha não
dependem só da vontade do Ministério: "as USF não se fazem por regulamento! É
preciso que sejam os profissionais de saúde a considerarem que têm condições
para exercer melhor a sua actividade e para prestarem melhores cuidados". Para
o ministro, o potencial de transformação e inovação dos serviços de saúde em
Portugal é ainda muito grande, apontando o exemplo da reforma dos CSP: "as USF
têm por responsabilidade manter e melhorar o estado de saúde das pessoas por
elas abrangidas, através da prestação de cuidados de saúde gerais, de forma
personalizada, com boa acessibilidade e continuidade. São serviços de contacto
fácil e afável, na relação que estabelecem com os utilizadores. Contudo, é
sempre possível melhorar. Por isso, a reforma está a ser aperfeiçoada, tendo
sempre em mente uma ética de serviço público que promova a eficiência, a
participação dos cidadãos e o envolvimento dos profissionais". O ministro
frisou ainda o papel fundamental do Grupo Jerónimo Martins para a implantação
da USF Ribeirinha. Só mediante o auxílio do grupo de distribuição alimentar foi
possível à ARSLVT encontrar um espaço moderno e bem equipado, sem encargos
adicionais durante um período de cinco anos.
Equipa jovem não
receia coexistência íntima com
supermercado
Em
declarações ao Médico de Família, o
coordenador da USF Ribeirinha garantiu que a juventude da equipa médica é um
dos seus maiores trunfos: "sou o único sénior.
Aliás, à excepção de outro colega, todos os restantes membros médicos
terminaram a especialidade há menos de um ano".
Ferreira
Santos sublinha, também, que as instalações onde foi colocada esta unidade são
de boa qualidade e estão apetrechadas com os meios imprescindíveis ao
cumprimento da missão fundamental da USF.
O
facto das mesmas serem contíguas a um supermercado é algo que não apoquenta o
responsável: "até agora, não se registaram quaisquer problemas. O Grupo
Jerónimo Martins fez tudo o que pedimos, levando a cabo todas as alterações essenciais
que surgiram ao longo do processo. De facto, não conheço nenhuma USF nestes
moldes, situada junto a uma área comercial, mas julgo que não haverá qualquer
problema de promiscuidade. As pessoas vêm ao médico e só vão ao supermercado se
acharem que devem ir!".
De
acordo com Ferreira Santos, a convivência entre USF e Grupo Jerónimo Martins no
mesmo edifício será, com toda a certeza, salutar. Na sua opinião, a partilha do
imóvel é um preço irrisório a pagar por um ganho bem maior: "caso não
aceitássemos esta divisão, simplesmente não teríamos um espaço como este. No
presente, seria muito complicado encontrar no Barreiro uma área adequada e
disponível para desenvolver o trabalho da USF, com boas acessibilidades e
transportes".
Vaias ameaçaram
estragar a festa
À
espera de Paulo Macedo, Leal da Costa, dirigentes máximos da ARSLVT e do
Ministério da Saúde, do poder autárquico e demais convidados para a cerimónia inaugural
da USF Ribeirinha, estavam algumas dezenas de manifestantes. À sua volta era evidente,
também, um musculado aparato de segurança, com dezenas de agentes e diversas
viaturas da polícia.
Mas
os contestatários não esmoreceram. Envergando bandeiras, faixas e megafones, os
elementos das comissões de utentes do concelho do Barreiro (CUCB) lançaram slogans de protesto contra as políticas
de saúde adoptadas pelo governo de Passos Coelho e entregaram, em mão, ao
ministro da Saúde, um conjunto de manifestos onde explicavam as suas posições.
Queixas
relacionadas, por exemplo, com a falta de pessoal nos centros de saúde, de
condições de trabalho para os enfermeiros do Centro Hospitalar do
Barreiro/Montijo ou com o encerramento de vários serviços naquela estrutura
hospitalar, entre os quais, a piscina fisioterapêutica. Estas comissões alertam,
também, para a falta de especialistas (obstetras, pediatras, ginecologistas
psiquiatras, etc.) no Hospital do Barreiro, além de equipamentos e materiais
básicos, como sejam roupa de cama ou penicilina.
O
porta-voz das CUCB, António Palma Pacheco, declarou ao nosso jornal que a
intenção dos manifestantes era a de denunciar o actual cenário de prestação de
cuidados naquele concelho e não o de enjeitar a nova USF: "nada temos contra a
USF agora criada e o nosso propósito não passava por questioná-la. Esta USF
pode até trazer benefícios, algo que só poderemos verificar com o seu regular
funcionamento. Porém, nós temos outros problemas muito sérios no concelho do
Barreiro e desejámos, através de uma troca de impressões e da entrega de alguns
documentos, chamar a atenção do Sr. Ministro da Saúde".
Palma
Pacheco reforça que cerca de 32% dos cidadãos do concelho não têm ainda MF e
que as instalações da extensão de saúde situada na Avenida do Bocage não estão
à altura das necessidades: "estamos a falar de uma unidade de saúde num quinto
andar, com escadas estreitas e íngremes. Foram feitos alguns investimentos
recentemente, mas que não resolveram as questões de fundo. Não nos podemos
esquecer que este serviço de saúde é frequentado por pessoas muito idosas,
grávidas e crianças, não existindo saídas de emergência. Obviamente, alertámos
para o perigo que constitui tal situação".
O
porta-voz das CUCB esclarece, ainda, que estes movimentos se manterão
vigilantes, de maneira a perceber se a criação da USF Ribeirinha terá um
impacto tão positivo como parecem indiciar as informações oficiais: "vamo-nos
debruçar sobre estas transferências de médicos, de ficheiros, de serviços de
enfermagem, para depois tirar conclusões. Isto porque os números apresentados
pela directora executiva do ACES, relativamente aos ganhos de acessibilidade,
parecem-nos um pouco precipitados e matemáticos.
O nosso receio é que sejam transferidos profissionais da Extensão da Avenida do
Bocage, o que resultaria numa espécie de efeito
de cobertor".
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