| Escrito por Tiago Reis,
em 19-07-2010 12:20
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A Associação Portuguesa de
Médicos de Clínica Geral foi recebida pela Ministra da Saúde e pelo Secretário
de Estado Adjunto e da Saúde, no passado dia 12. No encontro, a direcção da
APMCG transmitiu à governante algumas das principais preocupações que afectam
os médicos de família portugueses. Em particular, os problemas que se registam no
processo de colocação definitiva de jovens especialistas que terminaram
concurso e o impasse que se vive, actualmente, no processo de reforma dos
cuidados de saúde primários. Houve ainda tempo para a delegação abordar vários
dos projectos que a APMCG está a desenvolver, ao nível da investigação e da auditoria
clínica, assim como para solicitar o patrocínio do Ministério para a
candidatura que apresentou à realização, em Lisboa, da conferência da WONCA
Europa, em 2014
Quatro elementos da direcção da Associação Portuguesa de Médicos de
Clínica Geral (APMCG) - o presidente João Sequeira Carlos, os vice-presidentes
Rui Nogueira e Clara Fonseca e a vogal Susana Medeiros - foram recebidos em
audiência, no passado dia 12 de Julho, pela ministra da Saúde e pelo secretário
de Estado Adjunto e da Saúde. A reunião com Ana Jorge e Manuel Pizarro ocorre
num momento decisivo para o futuro da Medicina Geral e Familiar Portuguesa
(MGF), marcado por uma forte contenção de gastos no SNN, por dúvidas e
perplexidades na gestão de recursos humanos e ainda por muitas incertezas no
que toca à condução da reforma dos cuidados de saúde primários (CSP).
Na agenda que levou para o encontro com Ana Jorge, a APMCG inscreveu
algumas das questões que mais têm marcado a actualidade, pela negativa, como o
aperfeiçoamento dos concursos de colocação de recém-especialistas, as
iniquidades sentidas por alguns jovens médicos de família que se vêem impedidos
de aceder a horários semanais superiores a 35 horas de trabalho (pelo menos até
ser regulamentado o decreto-lei da carreira especial médica), os soluços que
parecem afectar o processo de reforma dos CSP (com impacto no avanço da
reorganização de serviços), a ausência de regulamentação para as Unidades de
Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) ou o aumento de locais com idoneidade
formativa para receber internos de MGF.
Associação vigilante face à
evolução da reforma
Ao nosso jornal, João Sequeira Carlos garantiu que "o balanço final da
reunião foi muito positivo". Na vertente da reforma dos CSP, processo ao qual a
APMCG se mantém ligada de forma umbilical, "reiterámos o que já dissemos e
escrevemos no passado. Isto é, que a associação tem uma responsabilidade
acrescida no que concerne à reforma dos CSP, por ter sido ela a definir todas
as bases conceptuais da mudança. Inclusive, emprestámos os nossos quadros à
liderança da reforma! Temos, pois, a responsabilidade de continuar atentos a um
processo que consideramos imparável e irreversível".
Transmitimos à Senhora Ministra que "a reforma parece-nos estar em
banho-maria e a evolução da mesma ficará condicionada, se não criamos as
condições para que cada vez mais colegas se integrem no novo paradigma de
organização. Defendemos, portanto, a universalização dos novos conceitos",
acrescenta Rui Nogueira. O vice-presidente da associação garante, até, que no
decurso da reunião se insistiu na necessidade de inverter os números que
caracterizam o actual cenário: "hoje, 30% das unidades seguem em ritmo de
reforma e 70% reflectem apenas sobre ela. Temos de ser capazes de inverter este
cenário, no sentido de conseguir, desde já, 70% no comboio da reforma e os
remanescentes 30% a caminhar nesse sentido, a seu tempo".
UCSP necessitam de
alicerces para crescer
Ainda no âmbito da reestruturação dos serviços de saúde, a APMCG
manifestou na reunião com os responsáveis do Ministério a urgência de se
aprovar a regulamentação para as UCSP. "Procurámos conhecer os motivos para o
facto da regulamentação das UCSP ainda não ter avançado e relembrámos que esta
foi uma expectativa que ficou no ar, no encerramento do último Encontro
Nacional de Clínica Geral. Ali, a Senhora Ministra disse que poderia estar para
muito breve a adopção desta regulamentação, algo que ainda não aconteceu",
declarou João Sequeira Carlos ao nosso jornal. De acordo com o presidente da
APMCG, quer Ana Jorge, quer Manuel Pizarro, ter-se-ão mostrado sensíveis a esta
questão, justificando o atraso com a negociação de certos detalhes que
continuam por afinar com os sindicatos médicos.
A aprovação do regulamento das UCSP assume uma importância capital. Sem
ela, diz Rui Nogueira, "torna-se difícil evoluir na reforma. É importante
encontrar, rapidamente, mecanismos para implementar as UCSP e criar nelas
condições atractivas para os colegas que estão na carreira ou que nela vão
ingressar. Se não o fizermos, corremos o risco de tornar assimétrica a reforma,
para mais sabendo-se que antes existiam 18 SRS e que agora temos mais de 70
agrupamentos de centros de saúde no país".
Recém-especialistas trancados no horário de 35 horas
Outro dos problemas reportados pela direcção da APMCG a Ana Jorge, foi o
da iniquidade criada a partir do final de 2009, com a entrada em vigor do
diploma da carreira especial médica. Com a nova legislação, os
recém-especialistas que finalizaram o seu concurso de colocação após Novembro
do ano passado ficaram vinculados ao horário de 35 horas semanais. Já os
colegas que entraram nos serviços antes de Novembro puderam optar pelas 42
horas (com as evidentes mais-valias remuneratórias associadas). Esta é uma
situação que só poderá ser ultrapassada quando estiver encerrada a negociação
dos anexos das carreiras médicas, que continua a desenrolar-se entre Ministério
e sindicatos.
Recursos humanos estão na
primeira linha de prioridades
Outro dos pontos fortes da audiência entre APMCG e o Ministério da Saúde
envolveu a gestão de recursos humanos nos CSP, não só ao nível da colocação de
jovens especialistas, mas também da promoção de valores que conduzam a uma
maior atractividade da MGF desde o ensino pré-graduado. Na delegação da APMCG
marcou presença a vogal da direcção Susana Medeiros, que dirige o departamento
de jovens médicos e internos. À ministra, a jovem médica de família denunciou
as disparidades que se registam entre regiões de saúde (em Lisboa e Vale do
Tejo, por exemplo, registam-se atrasos significativos na colocação de jovens
médicos, enquanto que no Centro e no Norte os concursos fluem, tudo o indica, a
uma velocidade aceitável). Em resposta, Ana Jorge comprometeu-se a criar
mecanismos que permitam aplicar, com celeridade, os despachos renovados todos
os anos pelo ministério. "Pedimos, também, que haja uma monitorização efectiva
deste processo de colocação. O testemunho da Dr.ª Susana Medeiros - ela própria
uma recém-especialista com colocação por resolver - revelou-se muito
interessante. Muitas vezes, os responsáveis do Ministério podem pensar que tudo
decorre sem problemas, mas perante um caso real...", afirmou ao nosso jornal o
presidente da APMCG.
Ministra ignorava
obstáculos nas colocações
No rescaldo desta reunião, Rui Nogueira considera incríveis os
desfasamentos na colocação dos especialistas ao longo do país, verificado nos
últimos tempos. Sobretudo, quando todos os concursos regionais foram lançados
em simultâneo. Mais grave ainda, para o vice-presidente da APMCG, é o facto dos
jovens médicos "serem colocados provisoriamente após conclusão do Internato num
determinado local e, depois, se registarem dificuldades por parte das ARS em
transferi-los para as unidades onde efectivamente deveriam estar, em resultado
do concurso. Isto é ridículo e foi transmitido, de viva voz, à Senhora
Ministra, que ficou muito admirada por tal acontecer". Ficou, pois, o
compromisso da tutela de verificar junto das ARS o que corre menos bem, nestes
processos de colocação após término de concurso.
WONCA Europa 2014... em
Lisboa e com apoio governamental
Como é sabido, a APMCG apresentou uma candidatura
para a realização em Lisboa, em 2014, da reunião anual da WONCA Europa. No
encontro com a ministra da Saúde, os dirigentes da APMCG apresentaram as linhas
gerais do projecto e solicitaram o apoio institucional do Ministério da Saúde à
organização, como é tradicional nestes casos. A receptividade foi a melhor e a
associação espera, a curto prazo, uma missiva oficial de apoio que passará a
integrar o dossier de candidatura à WONCA 2014."Em princípio, será possível ter
a cooperação e a colaboração do Ministério da Saúde, neste grande evento", atesta
João Sequeira Carlos.
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