| Escrito por Susana Medeiros,
em 19-07-2010 12:42
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Era uma vez, numa
galáxia muito distante, um grupo de seres que viviam o seu dia-a-dia a
trabalhar, a cumprir devotadamente as suas obrigações em prol dos outros, a
investir no desenvolvimento das suas capacidades, sempre preocupados com a
actualização e aumento do saber e executando de forma cada vez mais perfeita e consentânea
com os valores deontológicos as suas cada vez mais vastas e complexas funções.
Aos tais seres
tinha-se confiado uma nobre missão: cuidar das pessoas do reino de forma
integrada e holística. A tarefa que tinham em mãos não era fácil por razões
múltiplas, mas sobretudo porque quer a economia, quer a organização do reino,
não permitiam apostas consensuais, o que implicava a coexistência de grandes
injustiças e diversidades ao nível dos mesmos grupos. Para os seres de que
falamos, as dificuldades eram, por vezes, enormes, as solicitações muitas, as
abordagens complexas e os recursos ficavam, em muitos casos, aquém das
necessidades e expectativas.
Na maioria dos casos,
os tais seres tinham tido percursos muito exigentes que lhes moldaram o
carácter e lhes transmitiram determinação e por isso eram destemidos e não se
rendiam às dificuldades. Superavam-nas como podiam, muitas vezes com grande
engenho e muita imaginação.
O seu trabalho
absorvia-os quase na totalidade. Muitos deixavam as suas vidas pessoais, para
segundo e terceiro planos. O tempo dedicado ao seu trabalho exigia muita
dedicação, não só em horas, mas também em termos de formação, actualização,
gestão emocional, entrega e mesmo sofrimento.
Até que um dia...
estes seres começaram a sentir-se inquietos.
- Isto não pode ser
assim!...
- Temos de olhar para o que sucede ao nosso lado!...
- Temos que encontrar outras soluções!
Algo tinha mudado.
Mesmo ao seu lado, até nos mesmos locais de trabalho onde se encontravam,
repararam que outros seres do mesmo grupo, alguns até com menos formação (ou
com outro tipo de formação), executando as mesmas funções, eram remunerados de
forma superior. Começaram a ver que uns tinham mais ou menos privilégios após
terminarem a formação, dependendo isso, exclusivamente, dos locais onde a
faziam e não do tipo de formação que tinham. Perceberam que se quisessem mudar
da região onde trabalhavam para outra, onde faziam tanta ou mais falta, tal não
lhes era permitido. Perceberam que os seus contratos de trabalho lhes davam
cada vez menos garantias e menor estabilidade profissional (isto quando os
tinham a tempo e horas).
Estes e outros
problemas foram-se sedimentando. Os mais novos iam sofrendo cada vez mais as consequências
de toda uma desorientação do sistema e dos seus responsáveis. O desânimo ia-se impondo.
Uns desistiam antes de terminar a especialidade. Outros, por sua vez,
terminavam-na mas acabavam por se dedicar a outras áreas - fugiam. Outros
mantinham-se nos mesmos locais, geralmente a trabalhar de forma precária, mas
acomodados. Alguns, poucos, mantinham a força e o ânimo para lutar pelo seu
futuro, acreditando que a sua função e a do seu grupo poderia ser melhor.
Por cada dia que
passava, a desgovernação deste grupo de seres ia-se sentindo mais e mais. Uns
esperavam que outros se empenhassem na sua luta.
Os que queriam lutar
não formavam exército suficiente que promovesse a vitória na batalha.
Apesar das
dificuldades, os mais afoitos reuniram-se. Certo dia, em refúgio secreto, um
grupo destemido e guerreiro reflectiu sobre o problema. Pensou em conjunto.
Uniu esforços e ideias.
Após consenso,
decidiram divulgar o seu manifesto pelas vias mais sofisticadas de comunicação
que conheciam, de forma a assumirem a voz de todos, com o conhecimento geral,
das suas valiosas ideias. Fizeram-se ouvir em lugares quase inimagináveis.
No entanto, apesar de
tantos esforços, as respostas tardavam. O poder máximo da galáxia parecia
querer ignorar a sua existência e importância. A revolta impunha-se
vigorosamente face à aparente indiferença dos mais poderosos chefes. As
pressões foram sendo exercidas em diferentes direcções.
Já quase em fase de
descrença, o chefe máximo recomendou aos seus súbitos que tivessem em
consideração os apelos que os destemidos seres tinham feito chegar.
Um brilho de esperança
voltou a iluminar este grupo. Os acomodados desacomodaram-se. Os fugitivos
voltaram. Todos se juntaram e formaram uma equipa coesa para que a conquista
dos seus direitos fosse uma realidade.
Resolveram reunir toda
a galáxia e debaterem em conjunto o formato de aplicação das recomendações
divulgadas. Nesse debate, conseguiu-se uniformizar critérios de actuação,
concretizar a sua aplicabilidade e estabeleceram-se prazos para o seu
cumprimento.
Todos estavam felizes.
E mais felizes ficaram ainda quando tudo foi posto em prática. O ânimo deste
grupo de seres voltou e reflectiu-se por toda a galáxia.
O reino será melhor
por ter profissionais mais realizados, mais dedicados e mais felizes.
Susana Medeiros
Nota : dizer que este reino é Portugal e que este grupo de
seres são os Médicos de Família não é pura coincidência.
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