| Escrito por Cláudia Brito Marques,
em 19-07-2010 11:00
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O Núcleo de Comportamentos Aditivos é o mais recente
grupo de trabalho da Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral.
Aprovado na última reunião da direcção nacional, este núcleo - coordenado por
Cristina Ribeiro e Inês Maio - visa "melhorar
os conhecimentos, procedimentos e atitudes dos médicos de família face às
dependências, contribuindo para a elaboração dos documentos técnico-científicos
adequados e baseados em evidência". Numa primeira fase, a abordagem será mais
centrada nos problemas ligados ao álcool. Posteriormente, o novo grupo
concentrará o seu trabalho nos problemas ligados ao consumo de outras
substâncias (lícitas ou ilícitas), abordando ainda as novas dependências: jogo,
Internet, telemóvel, compras compulsivas, entre outras
A Associação
Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral (APMCG) tem um novo grupo de
interesse/trabalho. Trata-se do Núcleo de Comportamentos Aditivos (NCA) e
pretende dotar os médicos de família (MF) de melhores conhecimentos,
procedimentos e atitudes face a uma problemática bastante actual: as
dependências.
Conforme explicou ao
nosso jornal Cristina Ribeiro, uma das coordenadoras do NCA, "este núcleo
compreenderá, numa primeira fase, uma abordagem mais centrada nos problemas
ligados ao álcool (PLA)". Posteriormente, "vamos focar-nos nas dependências de
outras substâncias - lícitas e ilícitas -, sem esquecer os mais recentes
comportamentos aditivos, como os vícios do jogo, Internet, videojogos,
telemóvel e shopping compulsivo",
adiantou a médica, assessora para os Assuntos do Álcool do Instituto da Droga e
da Toxicodependência (IDT).
O
foco nos PLA justifica-se pelo facto de estes assumirem "uma gravidade
crescente, comprovada por estudos recentes, que evidenciam um preocupante consumo a nível mundial".
De acordo com Cristina Ribeiro, "numerosos estudos demonstram que existe uma
relação dose/resposta entre o consumo de álcool e a frequência e gravidade de
várias doenças. Deste modo, a maiores níveis de consumo correspondem taxas de
mortalidade e morbilidade mais elevadas por cirrose hepática, neoplasias,
acidentes nos locais de trabalho e sinistralidade rodoviária. Influenciam ainda
outras situações, como o absentismo laboral, comportamentos sexuais de risco,
gravidez na adolescência, agressividade e violência".
Segundo a docente da Faculdade de
Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), "a identificação do consumidor de risco e nocivo em etapas
precoces diminui o risco de complicações ligadas à saúde, possibilitando que as
alterações comportamentais necessárias na abordagem e no tratamento sejam mais
facilmente alcançadas e/ou mantidas". Neste sentido, os cuidados de saúde primários
(CSP) assumem uma posição privilegiada em termos da intervenção no âmbito do
consumo de bebidas alcoólicas, no que respeita à detecção e à primeira linha de
intervenção.
Estratégias
de contenção dos PLA
"Actualmente, existem a nível mundial
e europeu estratégias abrangentes, transversais, para abordar a problemática do
consumo nocivo de bebidas alcoólicas nomeadamente junto de grupos populacionais
mais vulneráveis como sejam os jovens, as grávidas e os idosos", refere a
especialista.
Foi recentemente publicado o
Decreto-Lei (DL) nº 40/2010, de 28 de Abril, que reorganiza as estruturas de
coordenação do combate à droga e às toxicodependências, alargando as
respectivas competências à definição e à execução das políticas relacionadas
com o uso nocivo do álcool.
"Para além da designação do Ministro
da Saúde (MS) como o membro do Governo responsável pelas políticas relacionados
com o álcool e a do presidente do conselho directivo do IDT como Coordenador
Nacional, este DL determina o alargamento da composição do Conselho
Interministerial e do Conselho Nacional de acordo com as novas competências.
Assim, o Conselho Interministerial para os Problemas da Droga, das
Toxicodependências e do Uso Nocivo do Álcool aprovou, no dia 26 de Maio, o
Plano Nacional para a Redução dos Problemas Ligados ao Álcool (PNRPLA) 2010
-2012", explica Cristina Ribeiro.
O PNRPLA assenta em quatro pilares: a
existência de estruturas de coordenação claramente mandatadas para a sua
elaboração e execução; a fixação de metas claras (inversão da tendência para o
aumento da experimentação precoce e da ocorrência de embriaguez, sobretudo
entre os jovens); a criação de uma rede de referenciação para tratamento de
pessoas com PLA, envolvendo os CSP, toda a rede do IDT e os cuidados
hospitalares (Psiquiatria e outras especialidades, como Gastrenterologia/Hepatologia)
e; a criação de um Fórum Álcool e Saúde, onde seja possível o envolvimento e
compromisso dos vários parceiros no cumprimento do Plano.
No
entender da assessora do IDT, "a implementação de programas de detecção e
abordagem dos PLA a partir dos CSP é essencial como primeiro nível de
intervenção. A implementação destes programas na prática clínica deve
constituir um objectivo primordial e devem ser incentivados porque os
resultados sua aplicação, vão contribuir para a redução dos níveis de consumos
de álcool na população".
É
neste sentido que o recém-criado núcleo da APMCG pretende trabalhar, procurando
"melhorar os conhecimentos, procedimentos e atitudes dos MF face a estes
problemas e contribuindo para a elaboração dos documentos técnico-científicos
adequados e baseados em evidência", salienta a docente da FMUL.
MF na linha da frente
O
NCA contará com a dinamização de um grupo de MF com afinidade de interesses, empenhados
na criação de condições organizativas e de trabalho para o aprofundamento de
conhecimentos na área dos PLA e outras dependências.
"Pretende-se,
através de um plano de actividades baseado em projectos, desenvolver
actividades de promoção de uma cultura médica assente na pesquisa, discussão e
divulgação de conhecimentos actualizados na área dos PLA e outras dependências.
Os principais executores do programa serão os MF do núcleo", acrescenta
Cristina Ribeiro.
Para
além da assessora do IDT, o NCA será coordenado por Inês Maio, interna de
Medicina Geral e Familiar (MGF) e membro da direcção nacional da APMCG e
contará com a colaboração de vários MF a nível nacional, "com interesse por
estas temáticas e algumas competências no âmbito do trabalho assistencial ou de
investigação desenvolvidos nesta área.
"Estamos
actualmente a estabelecer contactos com estes colegas no sentido de confirmar
disponibilidades para um trabalho que se deseja participativo e dinâmico", explicou
Cristina Ribeiro ao Médico de Família.
O NCA contará, igualmente, com o apoio de
vários parceiros institucionais (governamentais e não governamentais), como o IDT,
sociedades científicas e associações, departamentos académicos, Direcção-Geral
de Saúde (DGS), Administrações Regionais de Saúde (ARS), organizações de
doentes e peritos nas áreas dos PLA e de outras dependências. "Contamos, ainda,
com o apoio da direcção da APMCG e com o envolvimento dos profissionais,
fundamentais para a concretização bem sucedida dos objectivos a que nos propomos",
frisou a especialista.
Esses objectivos - desenhados em forma de
programas - incluem um programa de desenvolvimento profissional (pesquisa e
actualização sistemática de temas na área do álcool e outras dependências; formação
dos profissionais de saúde; participação no Congresso e Encontro da APMCG com
temas relacionados); programa para elaboração do Manual sobre Orientação Clínica e aplicação
da Rede de Referenciação em colaboração com outros organismos e instituições; programa
na área de educação para a saúde dirigida aos utentes; programa de
intervenção no site da APMCG.
As restantes metas do NCA estão desenhadas sob
a forma de projectos específicos, como a pesquisa e actualização sistemática de temas da
área dos PLA; workshop sobre o PNRPLA e Rede de Referenciação; curso sobre detecção
dos PLA e intervenções breves; curso sobre entrevista motivacional no contexto
dos PLA; manual de formação de formadores em PL; criação de folhetos informativos
para os utentes; desenvolvimento de um espaço próprio no site da APMCG (www.apmcg.pt).
"Todos estes
conteúdos programáticos terão como finalidade contribuir para a revisão de
publicações do interesse para a MGF nestas matérias, manter contacto com o IDT
e estabelecer algumas parcerias e protocolos de interesse para a MGF", explicou
a coordenadora do Núcleo.
"De destacar, ainda, a componente
formativa do nosso trabalho, com cursos sobre intervenções breves e entrevista
motivacional, de forma a desenvolver nos MF competências para a abordagem
destes contextos, assim como a tradução e disseminação de um Manual de
Orientação Clínica, produzido no âmbito do projecto Europeu PHEPA (www.phepa.net)". "Os responsáveis pela coordenação do
NCA farão uma avaliação anual das actividades do Núcleo, tendo em conta o
cumprimento da execução dos projectos, e produzirão um relatório anual das
actividades", aponta Cristina Ribeiro.
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