| Escrito por Rui Cernadas,
em 19-07-2010 12:00
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Bem sei que a gente, a gente que lê,
pelo menos, corre sérios riscos de enlouquecer, uma vez que, com crescente
frequência, o que se lê nos pode provocar doenças diversas, confusão mental,
labilidade emocional, gaguez, perturbações do sono e sei lá mais o quê!
Naturalmente a literatura clássica,
os bons autores, terão o condão de, em princípio e por definição, nos deixarem
ao abrigo daqueles riscos, mas as leituras mais ligeiras - como sejam algumas
revistas e jornais - deveriam trazer bem à vista advertência do tipo "maço de tabaco":
- "Atenção! A leitura desta peça
pode causar doenças graves" ou até "A leitura dos conteúdos apresentados pode
originar impotência ou demência"!
Claro que os tempos de crise que
vivemos, não prometem melhores augúrios e provavelmente, a tendência será até
de agravamento, mas alguns sinais, por serem verdadeiramente novos, dão
esperança aos "portugas"...
Por exemplo, o Papa veio a Portugal!
Outro exemplo: já temos pelo menos
dois candidatos assumidos à presidência da república, um deles médico (Fernando
Nobre) e outro poeta e escritor (Manuel Alegre).
E até o F.C. Porto já não é mais o
campeão nacional de futebol!
"Os
EUA estão doentes"
Um texto escrito por Boaventura de
Sousa Santos, excelente por sinal, publicado na revista "Visão" (11/03/2010),
intitulava-se "Os EUA estão doentes".
E a primeira frase que, com a devida
vénia transcrevo, referia:
"Em sentido metafórico, a sociedade
norte-americana está doente por muitas razões."
Vale a pena esclarecer que o tema da
reflexão anda à volta da reforma da Saúde, promovida pelo presidente Obama e
que não poderei estar mais de acordo com o autor quando diz que os Estados
Unidos são "o único país do mundo desenvolvido onde a Saúde foi transformada em
mercadoria e o seu provimento entregue ao mercado privado das seguradoras."
Em Portugal, felizmente, não é
assim!
Isto é, registam-se enormes esforços
para que siga o mesmo rumo; tentativas de mercantilizar a saúde, fazendo dela
um bem de consumo ou uma mercadoria, o que explica a voracidade e a panóplia de
"grupos investidores em saúde"...
Mas Portugal (que em muitos
indicadores básicos bate os Estados Unidos aos pontos) não é um país
desenvolvido e essa é uma grande diferença...
Em simultâneo e ao invés, entre nós,
não são só as seguradoras a querer comer uma boa fatia do negócio.
"Estudo
Epidemiológico Nacional de Saúde Mental"
Mas o que mais me perturbou foram as
conclusões apresentadas no fim de Março, em Lisboa (onde tudo acontece, até o
que não devia acontecer!), a propósito da divulgação do "Estudo Epidemiológico
Nacional de Saúde Mental"!
Um em cada cinco portugueses sofre
de perturbações psiquiátricas, com uma prevalência de 22,9%!
O que nos posiciona, honrosamente,
perto dos tais norte-americanos (26,3%) e muito acima da França (18,4), da Bélgica
(12), da Espanha (9,2) e da Itália (8,2).
Ao ponto do responsável pela apresentação
do Estudo, o Dr. Caldas de Almeida, Coordenador Nacional para a Saúde Mental,
sublinhar que, "Portugal tem um padrão atípico em termos europeus"...
Na verdade isto deve dar-nos o que
pensar.
Sobretudo quando se analisam mais
dados deste Estudo, como sejam o da referência a 42,7% da nossa população
sofrer, ao longo da sua vida, de pelo menos um episódio de doença mental!
Com franqueza e pela minha parte, já
terei contribuído para esta casuística.
Outros problemas ajudam a
compreender o drama:
- As percentagens de doentes não
tratados são tremendas!
- Mesmo entre doentes com formas
mais graves, cerca de um terço, não beneficiou de qualquer forma de
terapêutica;
- 10% dos portugueses já tiveram
perturbações ligadas ao consumo abusivo de álcool e não consta que seja por
razões ligadas à desinfecção;
- Os Cuidados Primários atendem
cerca de metade dos casos mais graves!
Bem vistas as coisas, por outro
lado, podemos ficar mais tranquilos.
Nem valerá a pena perder tempo,
porque o tempo, para os loucos, pouco significa e representa...
Afinal, há sempre uma razão para o
que nos acontece, ainda que essa razão nos seja confiada ou encomendada por
alguém, probabilisticamente falando, tão louca quanto eu! Mas isto deve ter muito
a ver com a nossa História e as recombinações genéticas que os antepassados,
viris e ousados, promoveram e procriaram.
Hoje, se fosse hoje, decerto face à
menor virilidade aparente e propalada, esse risco seria, porventura, menor...
Rui
Cernadas
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