Crescer numa terra vulcânica, semeada de terramotos e tempestades tropicais, ensina-nos a andar sempre com os pés bem assentes no chão. Ensina-nos a pensar no momento e a não temer o dia de amanhã.
Desde tenra idade, habituei-me a viver épocas de tempestade. E foram muitas as vezes em que, moço imberbe, permaneci impávido e sereno ante a rebeldia do solo que pisava. Uma rebeldia que ocasionalmente teimava em tremer e em agitar as fundações daquilo que considerava inabalável. Aprendi que as verdades e as vontades mudam com os tempos, se a natureza das coisas assim o determinar.
O momento que atravessamos é de intempérie.
Os apagões, que têm surgido com alguma frequência, tremem alguns baluartes da nossa familiar democracia. Os dilúvios são incontornáveis: arrastam médicos para a aposentação, que alguns até qualificam como forçada, e sente-se a lenta exsanguinação de jovens médicos para o "lado negro da Força", como se batas brancas só pudessem ser ostentadas no serviço público.
Até a mais recente notícia de um naufrágio, aludido em tempos primaveris, agitou violentamente as águas, tão serenas que mais pareciam definitivamente reformadas.
O verniz de alguns gabinetes começou a estalar, as brechas surgem nas paredes, e já se começam a abespinhar novos figurinos.
Mas mesmo em tempo nebuloso, é necessário manter alguma clarividência e responsabilidade. O horizonte tem que ser apenas um: o da bonança. E essa bonança não está assim tão longe, sejamos honestos. O caminho já está percorrido a metade. Bastam mais algumas léguas para que o futuro dos cuidados de saúde primários passe a ser o solo firme que pisamos.
Esse futuro iniciou-se há quatro anos, iniciou-se na mudança, iniciou-se na reforma. Todos sabemos para onde navegamos e como se caracteriza esse futuro, em tempos tão azul quanto o céu celeste.
O futuro dos cuidados de saúde primários está na existência de equipas multidisciplinares, que integram médicos de família, enfermeiros de família e secretários clínicos.
O futuro dos cuidados de saúde primários está nos cuidados centrados na pessoa, na prescrição racional, na medicina baseada na evidência ajustada a cada doente.
O futuro dos cuidados de saúde primários está na prestação de contas, na contratualização responsável, ajustada às capacidades de cada equipa, orientada para verdadeiros ganhos em saúde, monitorizada e auditada eficazmente.
O futuro dos cuidados de saúde primários passa pela formação e retenção adequada dos médicos de família, com remunerações justas, adaptadas às responsabilidades assumidas e ao desempenho prestado.
O futuro dos cuidados de saúde primários passa pela educação médica contínua implementada de forma sistemática, pela actualização e certificação de conhecimentos, pela investigação em cuidados de saúde primários enquanto motor desse desenvolvimento.
Esse futuro não nos escapará das mãos, mesmo perante intempéries que teimosamente continuam a fustigar as nossas convicções.
Apesar do casco velho e ferido, acredito que serão realizados investimentos fundamentais à criação, requalificação e manutenção de todas as infra-estruturas do Serviço Nacional de Saúde existentes ao nível dos cuidados de saúde primários, dotando-as da acessibilidade, conforto e qualidade imprescindíveis.
Apesar de rumarmos sem planisfério, acredito que a legislação das unidades de cuidados de saúde personalizados surgirá, eliminando um vazio inacreditável e um desconforto insustentável entre os profissionais de saúde da larga maioria das unidades funcionais de cuidados de saúde primários do país.
Apesar dos fortes ventos e marés, acredito que os jovens médicos de família não perderão o rumo e serão devidamente colocados nos locais correctos, ao invés de se encontrarem naufragados em parte incerta.
Apesar da desmotivação da tripulação, acredito que cada um de nós contribuirá para o futuro dos cuidados de saúde primários.
Faça-se hoje o que o futuro nos exige. A responsabilidade é nossa. De todos.
Alexandre Gouveia
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