| Escrito por CBM,
em 18-06-2010 18:59
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Barbara
Starfield, médica e investigadora norte-americana com um vasto trabalho na área
dos CSP, encerrou, com chave de ouro, a 19ª Conferência Mundial da WONCA. Numa
conferência intitulada O Futuro da
Medicina Geral e Familiar, a professora de Gestão e Políticas de Saúde da
Johns Hopkins University apontou o peso dos cuidados primários e especializados,
na "era da multimorbilidade", concluindo que os sistemas de saúde orientados
para os CSP apresentam "uma maior equidade, melhores outcomes e um controlo mais eficaz da despesa", entre outras mais-valias.
Uma mensagem que não é de agora, mas que ganha um novo fôlego quando enquadrada
nos Objectivos para o Novo Milénio - mote da reunião magna dos médicos de
família de todo o mundo, em Cancun
"Ainda que a saúde seja indubitavelmente
influenciada por diversos factores sociodemográficos, a forte orientação de um
sistema de saúde para os cuidados de saúde primários (CSP) é uma estratégia
política de impacto relevante, na medida em que tem um efeito preciso e
relativamente rápido no que concerne à prevenção da progressão da doença e da
morbilidade, nomeadamente em idades jovens".
Esta foi a grande mensagem deixada por
Barbara Starfield, na conferência de encerramento da 19ª Conferência Mundial da
WONCA, em Cancun. Numa breve análise sobre o futuro da Medicina Geral e
Familiar (MGF), a professora da Johns Hopkins University - figura incontornável
em matéria de investigação em políticas de saúde, gestão e organização em CSP -
sublinhou que "no momento em que vivemos - a era da multimorbilidade - cuidados
de saúde primários e cuidados especializados têm um peso e uma importância
diferente", que devem ser tidos em conta pelos decisores políticos, na hora de
pensar os recursos humanos em saúde.
Vantagens
de uma orientação para os CSP
De acordo com a especialista norte-americana,
há evidência que demonstra que os sistemas de saúde orientados para os CSP
apresentam "uma maior equidade, melhores outcomes
e um controlo mais eficaz da despesa", entre outros benefícios. A ideia de que
os sistemas de saúde devem ter um focus
nos CSP não é nova - e já foi defendida, nomeadamente, pela OMS (ver tabela 1) -, mas ganha um novo
fôlego quando enquadrada nos Objectivos para o Novo Milénio, escolhidos como
tema central da conferência mundial da WONCA.
Um estudo norte-americano de 2009 (Phillips
et al., Health Aff) mostrou que "os
adultos e crianças com acesso a um médico de família (MF) - por oposição a um
internista, pediatra ou subespecialista - necessitaram de menos consultas,
apresentaram uma despesa anual em saúde menor, registaram menos 25% de consumo
de medicamentos prescritos e afirmaram ter uma melhor acessibilidade aos
cuidados".
Isto não quer dizer que os cuidados secundários/especializados
sejam menos importantes no sistema de saúde... "Importa, isso sim, perceber qual
o ratio ideal de médicos especialistas/não generalistas por população e
identificar o ponto em que o número destes profissionais se torna
disfuncional", explicou Starfield. Sabendo que "a referenciação inadequada para
cuidados especializados leva a um excesso de exames e consequente aumento de
resultados falsos positivos, bem como a piores outcomes em saúde, entende-se que conferir um maior destaque aos
CSP permite, simultaneamente, assegurar que os cuidados especializados são mais
apropriados, logo, mais eficazes", concluiu a conferencista.
Estratégias
para a mudança nos sistemas de saúde
Segundo Barbara Starfield, há um conjunto de
estratégias que permitem "focar" os sistemas de saúde nos cuidados de saúde
primários e implementar esta "mudança necessária".
Entre os aspectos a desenvolver, para
conquistar um maior enfoque nos CSP, a professora de Gestão e Políticas de
Saúde destacou, em Cancun, o
fortalecimento da relação entre a MGF e a Saúde Pública, com os CSP a
recuperarem a sua vertente de prevenção da doença e promoção da saúde.
A adopção de regimes remuneratórios adequados
e o desenvolvimento de sistemas de informação que sirvam os CSP, são outras das
estratégias incontornáveis nesta demanda.
Igualmente importante é o planeamento
adequado dos recursos humanos, evitando-se um excedente de médicos
especialistas; a prestação de cuidados centrados na pessoa e nas suas
necessidades e problemas específicos (utilização do ICPC); o trabalho em equipa
e a capacidade de responder à multimorbilidade.
Conclusões
"intrigam" editor do BMJ
Domhnall MacAuley, editor do British Medical
Journal (BMJ) para os CSP, marcou presença na WONCA 2010, em Cancun, relatando
diariamente os principais momentos da conferência no blogue do BMJ.
Sobre a conferência de Barbara Starfield, MacAuley
salienta que a especialista "pregou aos convertidos" e que seria muito mais
importante espalhar a sua mensagem fora do seio da comunidade de MF.
O editor do BMJ afirmou-se "intrigado" com
uma das conclusões apresentadas por Starfield. "Quanto mais formação os
generalistas/MF recebem em cuidados especializados, maior a probabilidade de
referenciação. Parece-me contraproducente sugerir que a formação pode ser
prejudicial...", notou. Porém, "Starfield redimiu-se, ao enfatizar a importância
de educar os MF na gestão da multimorbilidade", sublinhou MacAuley.
Aspectos
que distinguem a prestação de cuidados de saúde convencionais da prestação de
CSP centrados na pessoa
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Cuidados
convencionais em ambulatório
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Programas de
controlo de doenças
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CSP centrados na
pessoa
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Focus na doença e na cura
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Focus nas doenças prioritárias
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Focus nas necessidades em saúde
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Relação limitada ao
momento da consulta
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Relação limitada ao
tempo de implementação do programa
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Relação pessoal
duradoura/continuada no tempo
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Cuidados curativos
episódicos
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Intervenções no
controlo da doença definidas pelo programa
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Cuidados contínuos,
abrangentes e personalizados
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Responsabilidade
limitada aos conselhos de segurança e eficácia dados ao paciente no momento
da consulta
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Responsabilidade
por metas de controlo de doença entre a amostra populacional definida
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Responsabilidade
pela saúde de toda uma comunidade durante todo o seu ciclo de vida;
responsabilidade na prevenção e identificação de determinantes de
saúde/doença
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Os utentes são
consumidores dos cuidados que compram/pagam
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As amostras
populacionais definidas são alvo de intervenções de controlo de doença
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Os utentes são
co-responsáveis na gestão da sua doença/saúde, bem como da comunidade em que
se inserem
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Fonte: OMS - The World Health
Report 2008: Primary Health Care -
Now more then ever. Genebra,
Suíça, 2008.
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