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11º Encontro de MGF do Alto Minho
Viana do Castelo mantém tradição PDF

Escrito por Tiago Reis, em 18-06-2010 17:08


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A cidade histórica de Viana do Castelo foi o palco escolhido este ano para a realização do 11º Encontro de Medicina Geral e Familiar do Alto Minho, evento no qual participaram mais de uma centena de profissionais de saúde. Para além das temáticas relacionadas com a actualização técnico-científica, a iniciativa ficou marcada pelos debates em torno do futuro da especialidade

 

A delegação distrital de Viana do Castelo da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral (APMCG) levou a cabo, entre os dias 27 e 29 de Maio, a 11ª edição do Encontro de Medicina Geral e Familiar (MGF) do Alto Minho. O local escolhido foi a capital do distrito, mais precisamente o Castelo de Santiago da Barra.

Participaram no evento 123 médicos de família, quase todos oriundos dos centros de saúde (CS) da região, numa demonstração clara do empenho dos profissionais na actualização científica e na troca de ideias sobre as mudanças que afectam, neste momento, a organização dos CSP.

A abertura e o encerramento do evento acabaram por (voluntaria ou involuntariamente) entrelaçar-se, já que em ambas as situações se falou sobre as perspectivas de futuro da MGF. No arranque, Vítor Ramos (MF na Unidade de Saúde Familiar - USF - Marginal, professor da Escola Nacional de Saúde Pública - ENSP - e coordenador já designado para a direcção estratégica da nova fase da reforma) lançou um olhar analítico sobre o enquadramento dos CSP no actual sistema de saúde português, sempre na defesa da MGF como um factor preponderante para o impulso do SNS. Uma comunicação fértil, que acabou por merecer continuidade no discurso de encerramento do 11º Encontro do Alto Minho, a cargo do presidente da APMCG.

João Sequeira Carlos deu a conhecer aos colegas minhotos os projectos ambiciosos que a associação deseja concretizar na próxima década, bem como os princípios que dirigem a reorganização interna de que tem sido alvo. Tudo no intuito de a deixar mais forte, nas vertentes socioprofissional e científica.  

 

Balanço muito positivo

 

José Lago da Costa, coordenador da USF Vale do Vez, foi um dos participantes que encontrámos nos intervalos das sessões do 11º Encontro de MGD do Alto Minho. Este médico de família tem procurado, ao longo dos anos, não faltar à reunião organizada pela delegação distrital de Viana do Castelo e dá nota positiva às sessões a que assistiu: "os temas foram muito interessantes e é muito importante ter na região um encontro onde seja possível fazer a divulgação da MGF. É, na minha perspectiva, um evento que merece continuidade".

Nélson Rodrigues, responsável da delegação distrital de Viana do Castelo da APMCG e membro da comissão organizadora deste encontro, considera que a iniciativa superou as expectativas: "recebemos muitos posters e comunicações orais, de boa qualidade, à semelhança do que tem acontecido em edições anteriores. De facto, desde que começámos a organizar este Encontro, temos sido surpreendidos, ano após ano, pelo elevado número de trabalhos recebidos. Nos concursos de fotografia e pintura - novidade este ano -, tudo correu igualmente de feição. E nem sequer estávamos à espera de receber tantas obras para expor!".

 

Portugal deve potenciar o que de melhor criou nos CSP

 

O MF Vítor Ramos foi um dos oradores convidados, marcando o arranque da iniciativa com uma conferência sobre a vitalidade e o cariz imprescindível dos CSP, no dealbar do século XXI.

Relembrou, antes de mais, que "Portugal não é estreante nestas lides dos CSP e que deve capitalizar a experiência acumulada. Em 2011, cumprem-se quase quarenta anos da criação de CS vocacionados para a saúde integral do indivíduo, devidamente inseridos na comunidade. Na Europa e no mesmo ano, o processo estava então em curso apenas na Finlândia. Ou seja, estamos, sem dúvida, perante um exemplo do pioneirismo português".

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João Sequeira Carlos advoga a criação de um novo documento estratégico para os CSP desenvolvido no seio da APMCG, num momento em que o livro azul está à beira de comemorar duas décadas de existência 

 

De facto, do ponto de vista histórico, o país pode orgulhar-se do que conseguiu alcançar entre 1971 e 1982, através da 1º geração de CS, do serviço médico à periferia e de um conjunto alargado de clínicos gerais formados nas faculdades de Medicina nacionais, que souberam alimentar actividades promotoras de Saúde. De lá para cá, há a registar muitos êxitos e percalços; hesitações e decisões corajosas. Seja como for, a Declaração de Alma-Ata e os seus princípios fundadores não ficaram perdidos na História, nem sequer se extinguiram no que foi consumado em Portugal durante as décadas de 70 e 80. Para Vítor Ramos, é da máxima importância perceber o carácter de contemporaneidade daquela declaração: "tudo o que lá está escrito é rigorosamente actual e não há nada como ir ver ao catecismo original, para perceber o que está em causa.

De tal forma a Declaração de Alma-Ata se mantém actualizada que a OMS, no relatório mundial que publicou há dois anos - intitulado Agora mais do que nunca -, veio afirmar que, face à complexidade e aos desafios do momento, se torna fundamental investir nos CSP". Mais ainda, recorda o coordenador da direcção estratégica da reforma, Portugal surge no referido relatório como um dos excelentes exemplos a seguir, a nível mundial, "algo que ainda é desconhecido de muitos e que resulta, provavelmente, dos quarenta anos de investimentos nos CSP, do nosso trabalho e das acções desenvolvidas pela geração que nos precedeu.

É significativo, pois, aponta Vítor Ramos, que a maior potência mundial, os EUA, esteja atrás de nós no que respeita a diversos indicadores de saúde".

 

Vale a pena seguir em frente, quando a direcção é clara  

 

Num momento em que se prepara para abraçar um grande desafio, a coordenação estratégica da segunda fase da reforma (tarefa que o deixa "tenso e algo apreensivo"), o professor da ENSP frisa um dos factores chave para o futuro da especialidade de MGF e dos CSP: a renovação geracional. "Na própria APMCG, verificamos que todos os elementos da nova direcção têm menos 25 anos dos que os membros da anterior direcção. Poucas organizações profissionais lograram este grau de mudança, sem crises e problemas de maior. É o render de gerações, feito de maneira exemplar e à imagem de uma organização madura".

Em comentário às alterações que decorrem nos locais de trabalho dos MF portugueses, Vítor Ramos considera que, no panorama actual, se pretende introduzir um pouco mais de riqueza e de sofisticação no sistema de saúde, aproveitando os contributos e a inteligência de todos os actores e não apenas de uma minoria de tradicionais iluminados: "uma rede de USF é uma pluriarquia, dotada de muita autonomia, mas também de deveres para interagir com os demais".

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Este ano foram entregues, em Viana do Castelo, dois primeiros prémios nas categorias científicas (um para o melhor poster, outro para a melhor comunicação oral) e cinco menções honrosas, para além de um galardão atribuído à melhor fotografia e um 1º prémio e uma menção honrosa na categoria de pintura  

 

O médico da USF Marginal está convicto de que toda a evolução futura dos CSP depende da forma como se conseguir implementar, a médio prazo, a governação clínica, bem como da capacidade das pessoas para colocar em prática o conceito de pilotagem. "Temos de adoptar a postura da pilotagem, que significa ter o sentido de onde se parte e para onde se vai. De outro modo, andaremos à deriva. Aliás, muitos dos médicos que se pretendem aposentar e com quem tenho trocado impressões, dizem-me que se sentem à deriva e que não gostam dessa sensação. Se conseguirmos persuadir estes colegas de que os CSP têm um destino e um desígnio, talvez seja possível preservá-los dentro no SNS. Para tal, é preciso dar um significado técnico - não burocrático - ao seu trabalho".

 

Imaginar o futuro, para melhor governar recursos

 

Se em Viana do Castelo o homem escolhido para liderar estrategicamente a nova fase da reforma se revelou optimista, o presidente da APMCG não foi menos entusiástico face aos tempos que se aproximam. João Sequeira Carlos transmitiu aos colegas do Alto Minho de que forma os novos órgãos dirigentes da associação projectam a próxima década, fazendo apelo à mais-valia de uma estratégia antecipatória: "os grandes gurus da gestão percorrem mundo com uma frase lapidar, segundo a qual gerir é antecipar cenários, o futuro e as suas implicações. Não basta reagir". É esta postura que a renovada direcção da APMCG tem procurado adoptar, sempre com um olho em lições importantes do passado e do presente. Ao Alto Minho, João Sequeira Carlos levou reflexões focadas nas definições internacionais (nomeadamente da WONCA Europa) da especialidade e do papel do MF: "a MGF apresenta competências específicas, em campos como a gestão da qualidade em saúde, ou a utilização das novas tecnologias de informação e comunicação (TIC), na prática clínica. Hoje em dia, é aceite sem grandes problemas o facto dos MF se encontrarem entre os profissionais de saúde que mais utilizam este tipo de tecnologia. Uma evidência que faz deles importantes elementos para o treino de outros técnicos".

A APMCG tenciona aprofundar relações, nos próximos anos, em torno de muitas destas dimensões que estão associadas ao crescimento da especialidade. Para tal, a direcção que tomou posse em 2009 definiu um programa em torno de uma mão-cheia de "i's": inovação, intervenção, informação, investigação/desenvolvimento técnico-científico, internato e internacional.  

 

Relações Internacionais: uma prioridade!

 

"As relações internacionais são cada vez mais preponderantes. Não podemos estar isolados, orgulhosamente sós. Temos que viver dentro da comunidade internacional. De facto, o pulsar da MGF faz-se, acima de tudo, com base em relações internacionais e no conhecimento de que possamos usufruir a partir desses contactos", acentuou João Sequeira Carlos.

 

Um novo "Livro Azul" para a MGF portuguesa

 

 Outro dos objectivos da APMCG - desenhado a pensar na dinamização da MGF portuguesa e dos CSP - é a publicação de um novo documento que fixe as linhas estratégicas para o futuro dos cuidados primários. O presidente da APMCG clarifica a meta: "o chamado livro azul, publicado em 1990 pela APMCG, está prestes a completar 20 anos de existência. Uma das determinações desta direcção é não deixar passar esse marco histórico sem iniciar um projecto que venha a desembocar num novo documento que trace as coordenadas para o futuro da MGF".

Outro eixo significativo no qual a APMCG deseja desenvolver esforços é o dos recursos médicos - e respectiva formação especializada. Sempre na óptica da pedagogia pública. "Recentemente, ouvi o director do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar dizer que até 2020 teremos oito mil licenciados sem possibilidade de entrar num programa de internato médico. Quando a associação foi chamada à comissão parlamentar da Saúde, mostrou gráficos e fez passar as suas ideias sobre esta matéria. Mesmo assim, alguns deputados recusaram-se a perceber que, no futuro, poderemos ter um problema de desemprego médico. De facto, o cenário de escassez de recursos humanos é tão preocupante que se torna difícil, para quem está fora destes processos, entender um fenómeno futuro que parece contradizer o quadro actual", apontou o presidente da APMCG.

O mesmo responsável adianta que os MF devem ter em mente as suas obrigações enquanto motores da mudança, numa altura em que a reforma dos CSP necessita do empenho geral: "estamos a liderar o processo de reforma e não podemos, de forma desresponsabilizada, colocar os encargos nas mãos da tutela. Todos nós, quanto temos o paciente à nossa frente, somos agentes da reforma dos CSP e da reforma das lideranças. E quando falamos em lideranças, abrangemos, não só os governantes, coordenadores de missão e secretários de Estado, mas a generalidade dos profissionais".

 

Como ensinar uma geração, quando se afastam os mestres?

 

No Encontro de Medicina Geral e Familiar do Alto Minho emergiram, como tema natural de conversa, as dificuldades de regeneração do efectivo médico em Portugal. Sobretudo, após semanas de vivo debate em torno de um número crescente de pedidos de aposentação de médicos, em particular de MF. Pedro Nunes, bastonário da Ordem dos Médicos (OM), procurou contextualizar, na cerimónia de encerramento, o problema que afecta o país: "o Estado português não se apercebe que fomentando a reforma precoce dos médicos mais velhos - ao mesmo tempo que escancara as portas das faculdades de Medicina -, arrisca uma situação problemática. Daqui a alguns anos, os nossos futuros colegas (que hoje são estudantes) podem não ter quem os forme e não conseguir um lugar nos serviços públicos de saúde".

Pedro Nunes apelou mesmo a uma defesa intransigente da MGF, daqui em diante, já que segundo este dirigente a disciplina pode ser alvo de graves distorções: "no caso de existir uma pletora de profissionais a saírem das faculdades - e face à pressão das populações, que não sabem distinguir qualitativamente entre os diferentes médicos -, a tentação de degradar a qualidade da formação médica, de modo a criar títulos mais ou menos artificiais, será grande. Podemos regressar a um passado não desejado, que se caracteriza pelo médico indiferenciado, debaixo da designação de Clínica Geral ou de outra qualquer. O perigo é que tal deformação se confunda com o trabalho dos verdadeiros protagonistas de uma das mais difíceis especialidades médicas, a MGF".    

 

Artes científicas e visuais convivem em harmonia

 

Este ano foram enviados para apreciação dos júris do 11º Encontro de Medicina Geral e Familiar do Alto Minho um total de 104 trabalhos científicos (62 posters e 42 comunicações orais). "Um número de que nos devemos orgulhar", sublinha Lurdes Matos, membro da comissão científica do evento. Para além da expressão quantitativa, os trabalhos destacaram-se pela dispersão geográfica, uma vez que os seus autores exercem Medicina nos mais diferentes pontos do território continental e das ilhas. De entre o leque de trabalhos submetidos a concurso, foram aceites 42 posters e 24 comunicações orais. O júri decidiu atribuir o primeiro prémio de comunicação oral ao trabalho "Uso do telefone na consulta de cuidados de saúde primários - Qual a evidência?", realizado por Ana Sofia Ribeiro (USF Viver Mais), Ricardo Jorge Faria (USF Renascer) e Cindy Vieira Pinto (USF Alpendurada). Este prémio foi patrocinado pelo Grupo Medinfar. Na referida categoria foram ainda atribuídas menções honrosas aos trabalhos "DPOC: não basta não fumar" - de Pedro Lopes Guimarães (CS de Famalicão) e Pedro Coelho (CS de Lixa) - e "Arando na profilaxia das infecções urinárias recorrentes: revisão baseada na evidência", desenvolvido pelos profissionais Irene Lopes (USF Oceanos), Alexandra Pina (USF Horizonte), Ana Campos (Unidade de Saúde Atlântida), Ana Figueiredo (USF Horizonte), Clara Pinto Ferreira (USF Horizonte), Isabel Ribeiro (Unidade de Saúde Atlântida) e Nuno Figueiras Alves (Unidade de Saúde Atlântida).

No que respeita aos posters, o 1º prémio foi entregue ao trabalho "Avaliação da qualidade dos registos clínicos das consultas domiciliárias no ACES Cávado III", da autoria de Sandra Garrido, Ana Soares e Noélia Novo (ACES Cávado III). Realce, ainda, para as menções honrosas com que foram distinguidos os posters "Prevenção primária de eventos cardiovasculares - aspirina vs clopidogrel", rda autoria das profissionais do ACES Cávado III atrás mencionadas, "Palpitações com razão", de Daniela Neves e Rita Almeida (USF Anta) e "A consulta aberta - problemas e desafios", de Filipe Prazeres (USF Buarcos).

Para além da produção estritamente científica, o Encontro do Alto Minho introduziu este ano um novo tipo de concurso, orientado para obras fotográficas ou de pintura criadas por profissionais dos CSP. Assim, a obra "Visita domiciliária - As Escadas", de Ana Isabel Pereira Branco, recebeu o prémio de melhor fotografia, enquanto o trabalho "Sala de espera", de Rosa Maria Ribeiro Gomes foi seleccionado como melhor pintura. Por fim, um quadro de Eulália Rodrigues Fradão, sem título, mereceu uma menção honrosa do júri na categoria de pintura.


   
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