| Escrito por Cláudia Brito Marques,
em 18-06-2010 16:50
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Tornar Portugal num país mais atractivo para a
realização de ensaios clínicos é o grande objectivo do Clinical Research
Master, promovido em parceria pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade
Nova de Lisboa e pela Northeastern University de Boston, com o patrocínio da
APIFARMA. O envolvimento de médicos de família - para além de especialistas
hospitalares e farmacêuticos - na investigação clínica, é uma das
particularidades deste curso, que, entre inúmeros benefícios, vai permitir o
acesso do nosso país à European Clinical Research Infrastructures Network. É o
primeiro mestrado do género em Portugal e irá decorrer entre 2010 e 2012,
dividindo-se por três semestres. Os interessados podem inscrever-se até 30 de
Junho próximo
Analisando o contexto da investigação clínica
em Portugal, facilmente se justifica a criação de um curso de mestrado, cujo
principal objectivo é aumentar o número de centros portugueses envolvidos em
ensaios clínicos; capacitar/motivar os médicos para a investigação clínica, dotando-os
de boas práticas e metodologias de investigação; fazer de Portugal um país mais
atractivo e credível junto dos promotores de ensaios clínicos, nomeadamente da
indústria farmacêutica (IF).
O primeiro mestrado com estas características
surge agora no nosso país, fruto de uma parceria entre a Faculdade de Ciências
Médicas da Universidade Nova de Lisboa (FCM/UNL) e a Northeastern University
(NU), sendo uma das suas grandes mais-valias a importação do know-how de
Boston (Massachussets) - o estado norte-americano com mais ensaios clínicos per
capita - para Portugal.
De acordo com o coordenador científico do
Clinical Research Master, Pedro Caetano, "nos Estados Unidos da América (EUA),
o hospital onde trabalho - o Brigham and Women's da Harvard Medical School em
Boston (estado de Massachusetts)- tem cerca de 311 ensaios clínicos a decorrer,
neste momento. Mas por vezes chegam a ser 500, num único hospital. Em Portugal,
temos actualmente apenas 500 ensaios clínicos a decorrer, em todo o país. Já no
estado de Massachusetts, no seu todo, decorrem cerca de seis mil ensaios
clínicos neste momento, o que equivale a 2.400% mais ensaios que em Portugal.
Uma grande diferença, se considerarmos que este estado tem bastante menos
população que Portugal". Muitos dos professores de investigação clínica na NU
são também investigadores e profissionais de saúde nos hospitais de Boston
associados com a Harvard Medical School e com outras faculdades de medicina de
Boston, ou nas companhias farmacêuticas e de dispositivos médicos sediadas em
Boston.
As vantagens de integrar a ECRIN
O acesso do nosso país na European Clinical
Research Infrastructures Network (ECRIN) é outra das mais-valias decorrentes
deste mestrado, aponta Pedro Caetano.
A ECRIN é uma infra-estrutura de suporte
multinacional para projectos de investigação clínica na Europa, que
disponibiliza aos investigadores aderentes a estrutura necessária para a
realização de um ensaio clínico.
"Se eu for um médico português com imensa
energia, vontade e uma ideia concreta para levar a cabo um ensaio clínico no
meu hospital ou centro de saúde (CS) deparo-me com a ausência de uma estrutura
de apoio. Nos EUA, isto não acontece. Nos hospitais e CS associados à Harvard
Medical School tenho à minha disposição uma comissão de ética, estatísticos,
gestores de dados, informáticos, farmacêuticos que me vão fazer os comprimidos
de placebo iguais ao do fármaco em estudo, entre outros profissionais", aponta.
"Quem fizer este mestrado pode lidar com
investigadores da ECRIN e beneficiar das mais-valias desta estrutura, cujo
principal objectivo é promover ensaios clínicos que partam da iniciativa de um
investigador individual, à margem da IF", explica o coordenador científico do
Clinical Research Master. Neste sentido, a ECRIN é também um banco europeu de
recursos. "Uma vez que o médico não pode desenhar o protocolo de um ensaio
sozinho, pode recorrer aos especialistas da ECRIN, em qualquer ponto da Europa
e ao conselho científico português deste mestrado", destaca Pedro Caetano.
O recrutamento de participantes é outro dos
pontos críticos na realização de ensaios clínicos, no qual a ECRIN pode prestar
um apoio imprescindível. "No caso de um ensaio sobre uma doença rara, por
exemplo, os investigadores da ECRIN podem recrutar doentes em vários países
europeus, de forma a conseguirem uma amostra significativa", explicou ao nosso
jornal o especialista em investigação clínica.
A importância de uma diferenciação
Se a ligação à Europa é importante, não menos
crucial é a ponte com os EUA, estabelecida através desta formação.
Especialmente destinado a médicos
hospitalares ou de cuidados de saúde primários (CSP) com interesse na
realização de ensaios clínicos ou estudos epidemiológicos, bem como
farmacêuticos, enfermeiros e gestores/administradores hospitalares e dos CSP
com experiência em investigação clínica - serão preferencialmente seleccionados
os profissionais pertencentes aos hospitais e CS associados à FCM/UNL - este
mestrado possibilita aos seus formandos "os conhecimentos técnico-científicos e
a credibilidade necessários para se diferenciarem numa área crítica para a
prática da Medicina", salienta a professora do Departamento de Medicina Geral e
Familiar (MGF) da FCM/UNL, Isabel Santos, que integra o advisory board
deste curso.
Segundo a médica de família (MF) do CS de
Oeiras, "a diferenciação nesta área importa em termos de conhecimento prático,
mas também em termos de carreira. A vida é cada vez mais competitiva, pelo que
uma diferenciação precisa e boa do ponto de vista técnico-científico e por
entidades de qualidade é crucial". Na óptica da professora, "o conteúdo e as
entidades são duas grandes mais-valias deste mestrado, que oferece ainda a
possibilidade de intercâmbio com os EUA, onde os formandos podem realizar
estágios profissionais".
Pedro Caetano partilha esta opinião: "em 2015
haverá um excedente de médicos, pelo que os que se conseguirem diferenciar, de
uma ou outra forma, acabarão por se destacar", defende, sublinhando que "este
mestrado é acreditado nos EUA, pelo que as probabilidades de os formandos virem
a colaborar em ensaios do outro lado do Atlântico é maior se possuírem esta
acreditação".
Para concluir o mestrado, os formandos
poderão optar por fazer um estágio profissional ou uma dissertação. "Os
interessados em avançar para um doutoramento nesta área e apostar na carreira
académica ficam com a parte curricular do doutoramento em medicina (ramo de
investigação clínica) feita", salientou, ainda, o coordenador científico do
curso.
Que mais-valias para a MGF?
Pela primeira vez, uma formação na área da
investigação clínica parece apostada em envolver MF. Até aqui, estes
profissionais têm sido utilizados em ensaios clínicos como "mera mão-de-obra",
lamenta Isabel Santos, salientando que "o Clinical Research Master tem uma perspectiva
diferente, visando a realização de estudos da iniciativa de MF e a integração,
de pleno direito, destes profissionais, em equipas de investigação".
Apesar de serem os maiores prescritores e os
especialistas que lidam com um maior número de fármacos e um mais vasto leque
de classes terapêuticas, os MF continuam a não ser chamados a colabora nos
desenhos dos ensaios. "Nós queremos mudar esta realidade", sustenta Pedro
Caetano. "Normalmente, quem desenvolve os protocolos são os directores de
serviço ou os médicos de indústria que já não vêem doentes há anos... O ideal
seria um MF participar no desenho dos protocolos, trazendo para o estudo/ensaio
as particularidades da prática clínica", defende o professor.
Aumentar a capacidade crítica dos MF face à
investigação clínica é, assim, um dos desideratos deste mestrado. "Queremos
possibilitar um novo futuro aos MF, abrindo-lhes um novo ramo de intervenção e
criar massa crítica de referência nesta área, que seja reconhecida extra e
interpares", adiantou o coordenador científico do curso.
Por não estarem tão expostos à metodologia
estatística e epidemiológica característica dos ensaios clínicos, os MF também
se tornam "presas fáceis" da indústria, na altura de apresentar resultados,
lembra Pedro Caetano. Ao receberem formação específica nesta área, os médicos
de família poderão ter uma visão mais crítica sobre os estudos, o que acaba por
ser um "ganho colateral" da participação neste mestrado.
De acordo com o especialista, os MF podem
retirar grandes benefícios deste curso que, a par dos ensaios clínicos, foca
também os estudos observacionais epidemiológicos - um campo enorme de
intervenção para os CSP.
Para Isabel Santos, a actual fase de reforma
dos CSP pode levar a que os MF estejam mais "despertos" para estas questões da
investigação clínica. Para a MGF, enquanto disciplina, "a diferenciação na
componente farmacológica é muito importante, ou não fosse esta vertente
instrumental/saber técnico-científico crucial para a sobrevivência da
especialidade".
Com o patrocínio da APIFARMA - e
possivelmente da FLAD - será possível reduzir o preço inicial do Clinical
Research Master para um valor que Pedro Caetano considera "razoável", se
tivermos em conta que o curso dá um diploma duplo, com acreditação nos EUA e
que um mestrado tirado nos EUA custa normalmente cerca de 30 mil euros. Cinco
mil e quinhentos euros é quanto custa a inscrição no mestrado. A nível
hospitalar, há algumas instituições que vão fornecer bolsas aos seus
profissionais. No que toca à MGF, Isabel Santos considera que idêntico esforço
poderia ser efectuado por parte dos agrupamentos de centros de saúde e das
Administrações Regionais de Saúde, não sendo de descartar o apoio que a
Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral (APMCG) possa dar aos MF que
venham a ser admitidos neste curso.
Formato "conveniente"
O Clinical Research Master foi desenhado para
profissionais que trabalham e têm pouco tempo livre. Assim sendo, o formato do
curso é "bastante conveniente" e divide-se em disciplinas on-line (em
regime asinchronyzed), aulas em horário pós-laboral e duas semanas de
cursos intensivos com formadores vindos de Boston:
• Três semestres (18 meses): 10 disciplinas +
projecto de investigação/dissertação ou estágio profissional.
• Cinco disciplinas administradas por
investigadores/professores da FCM/UNL, em horário pós-laboral (Regulação,
Bioestatística, Epidemiologia, Investigação Translacional, Escrita Científica).
• Cinco disciplinas administradas por
investigadores/professores da NU: uma semana intensiva de aulas presenciais
(Validação e audição de dados para ensaios clínicos e Análise de dados em
desenvolvimento de fármacos); duas disciplinas obrigatórias on-line (Experimentação
em humanos e Optimização do desenho de ensaios clínicos); uma disciplina
opcional on-line (Segurança e Farmacovigilância; Equipamentos médicos e
biológicos; Gestão de projectos em desenvolvimento de fármacos; Gestão de
ensaios clínicos internacionais).
Inscrições até 30 de Junho
As inscrições para o Clinical Research Master
estarão abertas até ao próximo dia 30 de Junho. Os interessados devem
contactar:
Gabinete de Estudos Pós-Graduados
Campo Mártires da Pátria, nº130, 1169-056
Lisboa
Tel.: +351 21 880 30 66
Fax: +351 21 880 30 68
E-mail:
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Website: www.fcm.unl.pt/gepg
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