| Escrito por Adelaide Oliveira,
em 18-06-2010 15:56
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O desenvolvimento da cooperação com os
países de língua portuguesa é encarado pelos responsáveis políticos e da Saúde
como uma prioridade estratégica. Respondendo ao repto lançado pelo Hospital do
Futuro, representantes de Portugal, Angola e São Tomé e Príncipe, reflectiram
sobre os contornos dessa colaboração. A mobilidade dos profissionais no espaço
da CPLP, a formação pré e pós-graduada, internatos partilhados e o
desenvolvimento de plataformas de informação e comunicação, como o e-Portuguese, são áreas privilegiadas de
actuação
Entre
as várias medidas em estudo no âmbito da colaboração dos países lusófonos,
Manuel Pizarro, secretário de Estado da Saúde, anunciou o estabelecimento de parcerias
visando o desenvolvimento de internatos médicos partilhados. Angola,
Moçambique, Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe são alguns dos Estados que estão
a analisar esta medida em conjunto com Portugal.
Na I
Cimeira Lusofonia e Saúde, o governante frisou ainda que "não é moralmente
aceitável" que Portugal forme menos médicos do que a sua capacidade de
formação permite (sob o pretexto de que o nosso país poderá ter, dentro de
alguns anos, médicos em excesso), quando Angola, por exemplo, com uma população
de 16 milhões de habitantes, tem apenas 2.400 clínicos e em Moçambique, com 20
milhões de pessoas, existem 800.
A
posição de Portugal, neste cenário de colaboração com os países da CPLP, tem
que ser olhada "de uma forma estratégica", defendeu o governante.
Mobilidade dos profissionais deve ser
garantida
A
cimeira, que contou com o apoio da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica
Geral, entre outras instituições, teve como principal objectivo debater a
importância da cooperação dos países de língua portuguesa em matérias como os
recursos humanos e o acesso a cuidados e à informação.
A
definição de estratégias a médio e longo prazo foi um ponto consensual entre os
27 responsáveis políticos e da área da Saúde que participaram no encontro.
Na reunião que precedeu a sessão pública da
Cimeira, os responsáveis políticos e da área da Saúde de Portugal, Angola e São
Tomé e Príncipe defenderam a definição de estratégias concretas a médio e longo
prazo
Para
evitar projectos atomizados, que terminam por falta de apoio, os vários
intervenientes na cimeira alertaram igualmente para a necessidade de se estabelecerem
objectivos e prioridades que envolvam toda a sociedade, nomeadamente o poder
político. "Os governos devem criar condições para que os profissionais de saúde
possam ter mobilidade no espaço lusófono, sem perderem as regalias
profissionais existentes no país de origem", defenderam.
O
acesso à informação, de forma acessível, foi outro dos aspectos abordados no think-tank
que precedeu a sessão pública do encontro. Nomeadamente, através de redes
de informação, distribuição física de materiais em zonas onde não há acesso à
Internet e bibliotecas móveis.
Nesta
área, destaca-se o e-Portuguese, uma
plataforma desenvolvida pela OMS com o objectivo de partilhar o conhecimento e
colaborar na capacitação dos recursos humanos da Saúde nos oito países de
língua portuguesa.
O papel das associações científicas e
profissionais
No
plano da cooperação, as associações profissionais e científicas podem
desempenhar um papel importante. "O nosso contributo é também essencial
para o desenvolvimento dos sistemas de saúde no espaço lusófono", defendeu
João Sequeira Carlos, presidente da APMCG.
João Sequeira Carlos, presidente da APMCG, defende
que o contributo das associações e profissionais são também essenciais para o
desenvolvimento dos sistemas de saúde no espaço lusófono
Entre
as áreas de potencial intervenção da APMCG, Sequeira Carlos destaca o
intercâmbio ao nível da formação pré e pós-graduada (à semelhança do que
acontece já com o Brasil e que poderão ser alargados a outros países da CPLP),
a estruturação de programas de formação e a partilha de informação científica. "A
APMCG, com todo o capital que possui nesta área, pode participar activamente na
plataforma e-Portuguese, numa
lógica de partilha da informação e de conteúdos científicos em áreas
fundamentais como são a da investigação, qualidade e recursos humanos".
A cimeira dos contrastes
A
Cimeira da Lusofonia pode ser também analisada como um encontro de contrastes,
tendo em conta as diversas realidades existentes em cada um dos países
lusófonos. Segundo José Carlos Abrahão, presidente da Federação Internacional dos
Hospitais e da Confederação Nacional de Saúde do Brasil, neste país o chamado
"complexo da saúde" move, anualmente, cerca de 130 mil milhões de
dólares, emprega dois milhões e oitocentos mil trabalhadores e mesmo no actual
cenário de crise mundial, continua a recrutar profissionais.
José Carlos Abrahão (na foto com Nunes de Abreu e
João Sequeira Carlos) aponta que, no Brasil, o chamado "complexo da
saúde" move, anualmente, cerca de 130 mil milhões de dólares
A
situação do Brasil, onde o sector da saúde representa cerca de 8% do PIB, é
diametralmente oposta à que se regista em São Tomé e Príncipe, por exemplo,
onde mais de 90% dos estudantes que vieram estudar Medicina para Portugal não
quiseram regressar. A "responsabilidade" não é sua mas "de quem
gastou uma fortuna na sua formação e depois não garantiu as condições internas
para os poder acolher", diz Juliana Ramos, directora do gabinete do
Ministro da Saúde daquele país africano. "É importante que o país se
aperceba de que este é um sinal grave e que se tomem medidas estruturantes e
não apenas paliativas, como tem sucedido ao longo dos últimos anos".
A
única solução é "potenciar o desenvolvimento", defende aquela
responsável, frisando que o país, com cerca de 150 mil habitantes, é
suficientemente rico em recursos naturais para dar a mesma qualidade de vida à sua
população que a que gozam os habitante das Ilhas Maurícias ou das Seychelles,
por exemplo.
Angola abriu cinco faculdades de
Medicina em 2009
O
problema da "fuga de cérebros" afecta igualmente Angola que, em 2009,
decidiu investir na formação, abrindo cinco faculdades de Medicina em várias
zonas do seu extenso território. "Começaram com cerca de 40 alunos cada
mas, este ano, já entraram mais", diz Jorge Dupret, assessor do ministro
da Saúde daquele país. "Até 2025, pensamos ter médicos suficientes para
cobrir todo o território".
As
faculdades são apoiadas por médicos de Cuba, país para onde também foram
enviados mais de uma centena de alunos de Medicina. Esta medida, segundo
Dupret, deve ser encarada de duas perspectivas diferentes. Por um lado, os
custos de formação são "mais baixos" e, por outro, corresponde a um apoio
indirecto "à república irmã de Cuba".
CPLP desenha plano estratégico de
cooperação
Recentemente,
registaram-se novos avanços na cooperação entre os países da CPLP. Segundo o
director-geral da Saúde, Francisco George, Portugal participou, em Março
último, num conjunto de reuniões e contactos com delegações de todos os países
de língua portuguesa, realizados à margem da Assembleia Mundial de Saúde, em
Genebra. Nesses encontros, promovidos pelo ministro da Saúde brasileiro, José
Gomes Temporão, foi desenhado um plano estratégico com vista ao desenvolvimento
da cooperação entre os estados lusófonos.
Jorge Dupret, assessor do ministro da Saúde de Angola
afirma que, com a abertura de cinco faculdades de Medicina no seu país, "até
2025, pensamos ter médicos suficientes para cobrir todo o território"
Em
Lisboa, Francisco George frisou que "há financiamento assegurado para
esses projectos", alguns dos quais já começaram a ser concretizados. Entre
outras medidas, o director-geral da Saúde refere a decisão de trocar, com mais
frequência, informação científica, publicações em língua portuguesa e apoiar os
esforços da Organização Mundial da Saúde no desenvolvimento do site e-Portuguese.
Portugal aposta no desenvolvimento da
telemedicina
Francisco
George insiste também no desenvolvimento de projectos de telemedicina, que
permitem pôr em contacto os profissionais de saúde do espaço lusófono, evitando
a deslocação de doentes. "Na Direcção-geral da Saúde, estamos disponíveis
para, em conjunto com outros Estados membro da CPLP, desenhar projectos de
aprofundamento nesta área". Por outro lado, "a Divisão da Mobilidade
dos Doentes, da DGS, está pronta para agilizar os mecanismos e os acordos com
os países que requererem o tratamento de doentes em Portugal".
Como
exemplo das potencialidades da telemedicina, durante a cimeira foi destacado o
trabalho desenvolvido pelo Serviço de Cardiologia Pediátrica, do Hospital
Pediátrico de Coimbra, que desde Outubro de 1998, liga aquele hospital a
unidades de Luanda, Benguela e à cidade da Praia, em Cabo Verde.
De
acordo com o director daquele serviço, Eduardo Castela, prevê-se que, até ao
final do ano, o projecto passe a abranger, também, São Tomé e Príncipe.
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