| Escrito por Tiago Reis,
em 03-06-2010 12:13
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Desde o passado dia 14 de Abril, o ex-coordenador da Missão para os Cuidados de Saúde Primários abandonou todas as suas tarefas enquanto estratega da reforma para se dedicar, em exclusivo, à prática clínica, na Extensão de Saúde da Foz do Arelho. Após doze anos de interregno, assumiu a sua velha lista e garante que não poderia estar mais contente. Percebeu que o velho bichinho da Medicina nunca esmorece e pretende dedicar-se, de corpo e alma, a duas velhas paixões: a Medicina Geral e Familiar e a Medicina do Trabalho. Pelo meio, talvez encontre algumas horas para experimentar a vela - uma curiosidade adiada - e para tomar conta do neto
São 10h30. Na Extensão de Saúde da Foz do Arelho (Centro de Saúde - CS - das Caldas da Rainha) reina a calma, porque quem chega arranja quase sempre consulta na hora, ou agenda-a com facilidade para o dia seguinte. A pequena unidade é servida por uma equipa reduzida (um médico, uma enfermeira e um administrativo) e funciona sem sobressaltos. Mas essa não é a principal particularidade do serviço, ou a notícia que justifica a nossa ida à Região Oeste. Lá dentro, no gabinete médico, Luís Pisco - ex-coordenador da Missão para os Cuidados de Saúde Primários (MCSP) e antigo presidente da Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral (APMCG) - está prestes a concluir a sua primeira semana de trabalho, após o regresso à actividade clínica. Apesar de ocupado com uma das tarefas que mais desagrada aos médicos de família (MF), a emissão de atestados - no caso, para efeitos de caça -, o clínico recebeu-nos com um enorme sorriso e o seu contentamento contaminava o próprio utente. Os dois conhecem-se há décadas, à semelhança do que acontece com a maioria dos doentes que integram a lista do até há pouco coordenador da reforma dos CSP. "Fui MF durante 14 anos, na Foz do Arelho. Hoje, 12 anos volvidos, tenho a curiosa e estranha sensação de que estive ausente apenas um mês. A única diferença é que as pessoas têm mais uns aninhos em cima. E eu também...", confessa o clínico.
Analisar cada ficheiro individual é um pouco como vasculhar o baú do sótão, conclui Luís Pisco: "na medida em que o SAM é de utilização muito recente, recorro ainda aos processos em papel. É engraçado encontrar anotações escritas por mim, com exames pedidos há mais de uma década!".
... Mãos na massa!!!
Após terminar as suas funções na MCSP, Luís Pisco decidiu colocar de imediato as mãos na massa e após algumas semanas de refrescamento científico (aproveitadas para colocar em dia o conhecimento sobre normas de orientação clínica, boas práticas, procedimentos administrativos, etc.), juntou-se em consulta à colega que veio substituir, para oficializar a passagem de testemunho. "A colega que estava nesta extensão saiu com alguma tristeza, mas foi muito simpática, acolheu-me de forma cordial e compreendeu a situação. Afinal de contas, sempre tive a certeza de que, um dia, regressaria para fazer consultas. Nunca deixei de me ver como MF, de ter orgulho na minha profissão, pelo que do ponto de vista psicológico sempre estive na pele do médico, ao longo dos anos em que desempenhei outro tipo de funções", declarou ao nosso jornal.
Os utentes da Foz do Arelho não têm poupado saudações de boas vindas ao seu médico de sempre, alguém que acompanhavam à distância com atenção, testemunha o ex-presidente da APMCG: "as pessoas estavam informadas sobre o que se passava. Viam-me na televisão, liam artigos sobre a actividade transitória que desenvolvia em Lisboa. Aliás, o ano passado planeava o meu regresso e a notícia foi publicada na Gazeta das Caldas. Ou seja, a mensagem de que, mais tarde ou mais cedo, estaria de volta, foi sendo difundida".
Montar, de novo, a bicicleta
A sabedoria popular garante - no contexto velocipédico - que quem sabe jamais esquece. Assim parece ser o caso na Medicina Familiar e no exemplo de Luís Pisco: "neste momento de retorno, os sentimentos são muito semelhantes aos que experimentei em 1984, quando comecei a dar consulta na Foz do Arelho. Acima de tudo, uma enorme tranquilidade e satisfação e nada de stress e de taquicardias. Ser médico é fazer algo para o qual eu e os restantes colegas estamos preparados; é assumir algo de natural". Por oposição, quando olha para o percurso que fez num passado recente, para todos os anos em que desempenhou cargos que o afastavam da prática clínica, Luís Pisco elege uma alegoria automobilística: "os participantes no Rally Paris-Dakar sentem-se, de certeza, muito motivados pelo desafio. Mas não deixam de fazer sacrifícios, de dormir no deserto, de montar e desmontar tendas. Quando chegam a Dakar, são tomados pela consciência do dever cumprido e pela enormidade da travessia do deserto. A sensação que tenho, em relação a estes doze anos, é a de que fiz a minha travessia do deserto".
Se, nas praias de Dakar, os pilotos reencontram muitos dos seus familiares e amigos, na Foz do Arelho Luís Pisco teve também a oportunidade de rever caras conhecidas. José Manuel Cardoso trabalhou com Luís Pisco, na Foz do Arelho, há quase década e meia. Quando o ex-presidente da APMCG optou por regressar às lides clínicas, fez questão de convidar o secretário clínico (com 37 anos de carreira no SNS) para colaborar, de novo, na extensão de saúde. "O Dr. Pisco continua a mesma pessoa. É sempre muito fácil trabalhar com ele e, como médico, nada desaprendeu. Até porque quem sai de um centro de saúde, depois de muitos anos de prática, nunca perde o jeito", assegura. José Manuel Cardoso admite que "não se podem fazer as coisas de um dia para outro", mas que a dinâmica dentro da pequena equipa de saúde (da qual faz também parte a enfermeira Paula Castro) está bem e recomenda-se.
Seja bem vindo, Senhor Dr.!!!
Maria Fernanda lembra-se bem de Luís Pisco, apesar de terem decorrido mais de doze anos desde a última vez que recorreu à sua consulta: "fiquei muito contente de o ver por cá e guardo excelentes memórias do tempo em que era meu médico. Tenho esperança de que não tenha mudado por aí além". Os doentes, esses sim, têm alterado condutas menos próprias e prometem facilitar a vida a Luís Pisco, desde logo no cumprimento de horários.
Não há tempo para queixumes
No decurso dos seus mandatos enquanto coordenador da MCSP, Luís Pisco escutou incontáveis queixas sobre sistemas informáticos, instalações degradadas e fracas condições de trabalho, à medida que visitava centros de saúde e unidades de saúde familiar (USF). Agora, desligado de qualquer responsabilidade na condução da reforma dos cuidados de saúde primários (CSP), poderia sentir-se tentado a dar o salto para o outro lado da barricada, e lançar-se, também ele, na ladainha das lamentações. Nada disso. Nem sequer ao nível informático, contexto em que se acumulam os lamentos de muitos MF portugueses. "Não fiz nenhuma formação específica no SAM. Passei apenas duas horas com uma técnica de informática, que me explicou mais ou menos como funcionava a aplicação. É óbvio que só é possível tirar bom partido de um software após algum tempo de uso. Mas, sem treino especial e logo na primeira semana de trabalho, tenho passado receitas, credenciais de MCDT e de transporte, bem como atestados através do SAM", frisa.
Ao nosso jornal, Luís Pisco confessou que ainda não lhe foi possível inserir devidamente toda a informação clínica dos doentes no seu registo electrónico, por atravessar uma fase de adaptação e por observar 17 a 18 doentes por período de consulta. Essa será, contudo, uma das prioridades a curto prazo.
No que respeita às instalações, também não se vislumbram queixas de maior do ex-dirigente da APMCG. Apesar de ter trabalhado muitos anos na Foz do Arelho, o actual edifício da extensão representa uma novidade: "antigamente trabalhava em instalações pré-fabricadas, de má qualidade. O espaço que hoje ocupamos precisa de pequenas pinturas e ajustes, nada mais. Bastou-me trazer os quadros e personalizar o gabinete. Aliás, nem toda a gente se pode gabar de ver, no local de trabalho e através da sua janela, a Lagoa de Óbidos. Não tenho razões para me insurgir, em especial quando olho para as instalações do CS das Caldas da Rainha ou para os espaços ocupados pela direcção executiva do ACES e pela unidade de apoio à gestão. Sinto-me privilegiado ".
Igualmente privilegiada é a vista de que desfruta este médico, a caminho do seu posto de trabalho. Um verdadeiro tónico matinal: "demoro cinco minutos de carro entre a minha casa e a unidade de saúde, num percurso paralelo à água. De manhã, a lagoa parece um espelho, um daqueles lagos austríacos de que tanto gosto. São, portanto, breves minutos de um trajecto verdadeiramente relaxante. Muito diferente das quase três horas diárias que passava no carro durante os últimos anos, em deslocações de e para Lisboa. É um ganho muito importante, a que se junta a crença de que volto a um lugar onde sou estimado".
Dedicado em exclusividade ... ao SNS e ao neto
Neste regresso à Extensão da Foz do Arelho, Luís Pisco cumpre 42 horas semanais de trabalho, em exclusividade. A seu cargo, tem uma lista de 1500 utentes, para os quais disponibiliza a tradicional consulta de adulto, atendimento ao nível da Saúde Infantil e do Planeamento Familiar.
"Uma das características que sempre preservei, ao longo dos 14 anos que dei consulta na Foz do Arelho, foi a acessibilidade. É algo que pretendo manter agora e têm sido raros os casos de pessoas que não são consultadas no próprio dia, quando não possuem um agendamento", avança o MF.
Prepara-se, também, para iniciar um serviço de Saúde Ocupacional, acessível a todos os profissionais do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Oeste Norte (cerca de 420) e que lhe ocupará doze horas por semana. "Tendo eu também a especialidade de Medicina do Trabalho, não faria sentido que não a pusesse ao serviço do ACES. Depois, este serviço foi percepcionado pela direcção do ACES como uma mais-valia, ao nível da prevenção da doença e promoção da saúde, com particular incidência para a gestão do stress ocupacional", lembra Luís Pisco. O clínico mostra-se muito entusiasmado com este projecto, um dos primeiros do género a nascer no seio dos ACES e dotado de uma equipa multidisciplinar completa (médico, enfermeiro, higienista oral, etc.).
Apesar de ter recebido vários convites para colaborar em projectos internacionais, no domínio da avaliação da qualidade em saúde, Luís Pisco não deseja sair do país e pensa que terá um importante contributo a dar por via da recentemente criada Sociedade Portuguesa para a Qualidade na Saúde. "É uma área que sempre me interessou e é normal que venha a participar em acções subordinadas a este tema", confirmou-nos.
Para além de todos os desígnios associados à prática clínica, Luís Pisco tem outra responsabilidade de vulto entre mãos, a única que lhe faz desviar rumo para fora do SNS: "de vez em quando, a minha filha pergunta-me se posso ficar a tomar conta do meu neto. Tem nove meses de idade e implica um trabalho bem sério!".
Special One? Nem pensar...
Luís Pisco quer ser, no seio do ACES Oeste Norte, um MF como os outros. Recusa, desde já, qualquer tratamento preferencial e mostra-se indisponível para coordenar ou dinamizar seja o que for. "Estou concentrado em ser um bom MF, em puder justificar as minhas decisões clínicas com base em evidência científica, em ter uma política de prescrição racional e em trabalhar bem os registos clínicos", afirma.
Embora tenha sido convidado para integrar uma USF nas Caldas da Rainha e tenha ponderado trabalhar no CS do Bombarral (onde colaborou, em tempos, no Serviço de Atendimento Permanente), Luís Pisco acabou mesmo por ceder à tentação da Foz do Arelho: "sinto-me muito bem na Foz do Arelho, integrado numa unidade de cuidados de saúde personalizados, um modelo em nada inferior ao da USF".
Sob o resguardo do anonimato e do seu papel de simples MF, Luís Pisco sente, sobretudo, um enorme prazer em acompanhar a evolução dos CSP como um observador atento, mas descomprometido. Não consegue, ainda assim, evitar um comentário irónico: "é uma tranquilidade abrir, de manhã, a caixa de correio electrónico e saber que não somos responsáveis por nenhuma das desgraças que surgem anunciadas". O ex-coordenador da MCSP relembra, inclusive, que já sabe o que significa entrar num ritmo mais sereno e num contexto socioprofissional diferente, sem criar grandes alaridos: "não é a primeira vez que passo por uma experiência destas, de descompressão. Durante muitos anos estive na direcção da APMCG, recebi e dei muito nesse período, mas consegui cortar esse cordão umbilical. Nunca mais ninguém me ouviu tecer qualquer comentário sobre a associação. O mesmo se passou na direcção da WONCA Europa e no Instituto da Qualidade em Saúde. As coisas têm o seu tempo e surgem, naturalmente, outros protagonistas. Há que saber sair de cena".
Ao fim de uma semana de trabalho, sossegado pelos sinais que detecta em si mesmo (paz interior, receptividade aos doentes, conforto no acto médico), Luís Pisco mostra-se confiante de que deu o passo certo: "ao contrário do que se poderia pensar e do que é habitual dizer-se, julgo que se perdeu um mau dirigente e se ganhou um bom médico. Sinto que devo dar um novo contributo à reforma dos CSP sendo, apenas e só, um bom MF".
À nossa reportagem, o novo/velho médico da Foz do Arelho mostrou-se intrigado com o interesse mediático que ainda possa existir em torno da sua pessoa, avançando, ainda assim, com uma teoria plausível: "fiquei surpreendido com a presença de um repórter do Médico de Família à porta da extensão de saúde. Não temos por estas bandas USF e aqui apenas exerce um MF rural. O que despertará o interesse do vosso jornal será, porventura, as mensagens que recebem e que questionam o facto de eu estar, com toda a certeza, a 100 quilómetros de Lisboa. Mas posso garantir que sim... estou bem longe, muito ocupado e, acima de tudo, muito satisfeito. Posso, desta forma, tranquilizar as pessoas que viviam inseguras face a tal dúvida". Receios de que os doentes se tornem aborrecidos, obstinados ou demasiado exigentes podem lançar nuvens sobre o futuro de Luís Pisco, mas o MF consegue colocar tais pensamentos na perspectiva certa: "sou uma pessoa tranquila e é difícil fazer-me perder as estribeiras. Não há nada que um doente me possa comunicar que se compare às perguntas de alguns jornalistas, maldispostos...".
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