Apesar dos consideráveis avanços registados nas últimas décadas, a sociedade continua a enfrentar enormes desafios em termos de saúde. Um olhar sobre as necessidades nesta área mostra a necessidade de mais e melhores tratamentos. Mas, apesar do esforço da indústria farmacêutica em I&D ter duplicado na última década, o aumento do número de medicamentos inovadores é pouco significativo. Em média, por cada dez mil moléculas descobertas, apenas cinco passam à fase de ensaios clínicos e destas, apenas uma chega ao mercado. Para trás ficam cerca de 15 anos de estudos e um investimento que pode oscilar entre 800 e 1200 milhões de euros.
A IV Conferência Anual sobre indústria farmacêutica, promovida pela Merck Sharp & Dohme (MSD), em parceria com o Diário Económico, esteve este ano subordinada ao tema "Um olhar sobre as necessidades em saúde". Essencialmente, o evento visou contribuir para a complexa discussão sobre a convergência necessária entre os caminhos da Investigação e Desenvolvimento em Saúde e o modelo de sustentabilidade e competitividade dos sistemas de saúde e da indústria.
Conduzidos pelo professor João Lobo Antunes, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, os trabalhos tiveram início com uma conferência proferida por Jorge Sampaio. O ex-Presidente da República é, hoje, o enviado especial da ONU na Luta Contra a Tuberculose no mundo e tem-se multiplicado em esforços para chamar a atenção dos países ricos para uma doença que já poderia ter sido erradicada.
Refira-se que, apesar de ser curável, a tuberculose ainda mata cerca de 4.500 pessoas todos os dias. Com a agravante de que as estirpes do bacilo são cada vez mais resistentes, decorrentes da ineficiência do tratamento nos países mais pobres. E mesmo em Portugal, em 2006 registaram-se 3.092 novos casos, o que corresponde a uma taxa de notificação de 29,4 casos por 100 mil habitantes contra 17 dos 15 países da União Europeia, antes do alargamento. No resto do mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, surgem anualmente mais de 8,8 milhões de novos casos de tuberculose, cerca de 80% dos quais na África subsariana e na Ásia.
Este número pode diminuir com tratamentos mais eficazes, até à sua erradicação, o que constitui o objectivo principal da ONU. Na conferência, promovida pela Merck Sharp & Dohme, Jorge Sampaio destacou o papel da indústria farmacêutica neste domínio, defendendo, por outro lado, um investimento prioritário nas áreas de Investigação e Desenvolvimento. Na sua opinião, a tuberculose foi, durante muito tempo, uma doença esquecida. Todavia, começa-se a assistir a uma ligeira alteração desta tendência. Para essa mudança contribuiu, não só o papel das fundações, como um novo sentido de responsabilidade social do mundo empresarial e o trabalho da Aliança Global para o Desenvolvimento de Medicamentos contra a tuberculose. Este papel é essencial, tanto mais que as novas formas de tuberculose resistente exigem novos medicamentos e novas vacinas. Os que existem actualmente foram descobertos há mais de 40 anos e têm que ser tomados durante seis a nove meses.
Pandemias afectam a segurança do planeta
Lembrando que doenças como a tuberculose, a SIDA ou a malária são pandemias que afectam a segurança do planeta e, num mundo globalizado, não necessitam passaporte para viajarem e se espalharem, Jorge Sampaio diz ainda que "não basta doar dinheiro para erradicar a tuberculose". É necessário, também, prestar consultoria aos países pobres e garantir uma cobertura médica suficiente.
Para além desta questão essencial, coloca-se outra: "que mais poderemos fazer de forma a melhorar o diagnóstico e o tratamento da doença?".
Na sua perspectiva do anterior presidente da república, a resposta é clara: investir no desenvolvimento de novas vacinas e de novos tratamentos, mais seguros e mais eficazes. Nesse âmbito, a responsabilidade social da indústria farmacêutica é crescente, sobretudo no que diz respeito à inovação.
Referindo-se concretamente à Merck Sharp & Dohme, Jorge Sampaio afirmou não ter dúvidas que o esforço actualmente desenvolvido pela farmacêutica "no âmbito da investigação e desenvolvimento de novos medicamentos, bem como os compromissos assumidos no âmbito do que entende ser a sua responsabilidade social, são vastos e muito importantes para a melhoria da qualidade de vida do maior número possível de pessoas". E, nesse âmbito, lançou um apelo para que inclua a tuberculose e a co-infecção com o HIV entre as suas áreas de investigação prioritárias.
Primeiro fórum global TB/HIV agendado para Julho
No combate à tuberculose, o enviado especial da ONU salienta que é necessário agir no triplo plano da prevenção, da detecção e do tratamento. "Eliminar a tuberculose enquanto problema de saúde pública é uma batalha sem tréguas, em várias frentes". Defendendo que a tuberculose e a pobreza estão estreitamente associadas e formam um verdadeiro círculo vicioso que tem que ser quebrado, Jorge Sampaio assinala que a luta contra a doença será sempre ineficaz se não for acompanhada de medidas sociais de luta contra a pobreza e pelo reforço dos recursos humanos na saúde.
"Faltam quatro milhões de profissionais nos países mais carenciados, essenciais ao combate à tuberculose", afirma. A fixação de pessoal médico nesses países – frequentemente atraídos por melhores salários e condições de trabalho dos países mais ricos - é uma medida essencial para o controlo da doença. Esta questão fulcral voltará a estar em destaque, no próximo mês de Julho, em Nova Iorque, por ocasião do primeiro fórum mundial de líderes sobre HIV/TB.
Jorge Sampaio defende a necessidade de se criar uma dinâmica de mudança ao nível social, empresarial e, sobretudo, político, com o objectivo de mobilizar mais recursos para o controlo dessa "doença esquecida" que, "apesar de ter cura - e a um preço modesto - continua a matar 1,6 milhões de pessoas por ano".
Esforço de investigação duplicou na última década
A questão da necessidade de novos tratamentos na tuberculose, assinalada por Jorge Sampaio, serviu de pontapé de saída para uma discussão incontornável: a de que "apesar de não haver um aumento significativo do número de medicamentos inovadores na última década, o esforço de investigação em fase inicial duplicou", como referiu Ottfried Zierenberg, director médico da Merck Sharp & Dohme para a Europa. Em 2007, por exemplo, só foram aprovados 31 novos tratamentos, a maioria dos quais na área do HIV/SIDA (6) e oncologia (5). Estes números podem ser justificados pelo facto desta ser a indústria mais regulada do mundo e também pelo porque as tecnologias utilizadas no desenvolvimento destes mediamentos serem cada vez mais complexas.
Outra explicação reside no facto de o processo de desenvolvimento de uma nova molécula ser agora dez vezes mais caro do que há uma década. Além disso, as companhias farmacêuticas são obrigadas a realizar mais estudos clínicos e fármaco/económicos, adiando a aprovação de novos medicamentos. Não chega que os medicamentos sejam absolutamente seguros; a sua relação custo/benefício tem que ser analisada, assim como o impacto em termos da qualidade de vida e da satisfação dos doentes.
Por outro lado, "a inovação farmacêutica é frágil, lenta e imprevisível". Há muitas falsas partidas e becos sem saída, diz o director médico da Merck Sharp & Dohme.
Em médica, por cada dez mil moléculas descobertas, apenas cinco passam à fase de ensaios clínicos e destas, apenas uma chega ao mercado. Para trás ficam cerca de 15 anos de estudos e um investimento que pode oscilar entre 800 e 1200 milhões de euros. "É difícil encontrar o produto certo para desenvolver e prever que nova molécula irá ultrapassar as três fases de desenvolvimento clínico até chegar, finalmente, à fase de registo e introdução no mercado", explica Ottfried Zierenberg.
É por isso que as companhias farmacêuticas definem cuidadosamente as áreas a apostar. Mas a ideia de que perseguem alvos fáceis é um mito, acrescenta: "estamos a enfrentar os maiores desafios da Medicina".
Europeus valorizam o acesso rápido à inovação
Co-autor do livro Health Economics, Peter Zweifel é professor de economia na Universidade de Zurique e director do Instituto sócio-económico daquela universidade. Segundo ele, apesar das dificuldades que as universidades e as empresas farmacêuticas enfrentam hoje para conseguirem desenvolver tratamentos inovadores, o principal objectivo dos países ricos continua a ser o corte na despesa pública da saúde. Como é que os cidadãos vêem essa dicotomia entre a necessidade de inovação e as políticas de restrição orçamental defendidas pelos governos? Segundo o especialista, diversos estudos mostram que, tanto a inovação terapêutica como a necessidade de encontrar novas formas de financiamento na saúde, são percepcionadas pela imensa maioria como questões fundamentais. Mais ainda, o economista é de opinião de que os europeus e norte-americanos estariam dispostos a pagar mais impostos se tivessem a garantia de ter acesso a mais e melhores cuidados de saúde.
As pessoas sabem muito bem aquilo que querem e nada está mais próximo dos indivíduos do que as questões da saúde, afirma. Aliás, as sondagens mostram que o acesso imediato à inovação médica tem um enorme valor para o cidadão comum. Nessa medida, o economista defende a flexibilidade do sistema, orientado em função das escolhas dos cidadãos, respeitando-as. E adverte que "o balanço entre o custo da inovação e o custo da redução das despesas tem que ter a aceitação das pessoas".
Prevenção das doenças crónicas é o melhor investimento
Perante os constrangimentos orçamentais do Estado, é urgente definir as prioridades de saúde pública, diz Marc Suhrcke, da Organização Mundial da Saúde. Na opinião deste especialista, o melhor investimento é, actualmente, a prevenção das doenças crónicas. Nos Estados Unidos, por exemplo, custam 8,9% do salário das mulheres e 5,6% dos homens.
Referindo-se concretamente a Portugal, o economista salienta que os níveis de mortalidade evitável continuam elevados e, no que se refere à prevenção, o esforço financeiro é inferior ao da média europeia.
"As pessoas esquecem-se do impacto que estas doenças têm na produtividade e na oferta de mão-de-obra de cada país", mas o que é certo é que os gastos em saúde podem ter um impacto mais positivo na economia de um país do que a despesa com a educação. A evidência mostra que, por exemplo, um aumento de 10% dos níveis de mortalidade cardiovascular tem um significado expressivo na redução do PIB.