| Escrito por MMM,
em 20-02-2008 15:28
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Nesta edição, damos conta de mais alguns incidentes envolvendo o último grito da tecnologia lusa desenvolvida para servir as USF indígenas: o muito badalado Alert P1
Nesta edição, damos conta de mais alguns incidentes – chamemos-lhes assim – envolvendo o último grito da tecnologia lusa desenvolvida para servir as instituições de saúde indígenas: o muito badalado Alert P1, que alegadamente se propõe aliviar o trabalho dos médicos de família na marcação de consultas hospitalares e garantir a necessária informação clínica de retorno. Desta feita, metemo-nos à estrada para verificar se as afirmações do responsável pela empresa que desenvolveu o programa, publicadas no Público ao abrigo do direito de resposta, encontravam correspondência com a realidade no terreno. Refira-se que o tal "direito de resposta" foi exercido na sequência de declarações prestadas pelo coordenador da Missão para os Cuidados de Saúde Primários, Luís Pisco, àquele matutino. Em termos gerais, ainda que por outras palavras, o também presidente da APMCG apontara ao referido programa, um nível de imprecisão operativa, equiparável à que Spalanzanni – e mais tarde Pasteur – apontaram à abiogenese de Needham.
O trabalho de investigação do repórter Médico de Família, permitiu mesmo encontrar similitudes, ainda que pela inversa, entre os fundamentos da teoria do naturalista inglês e o efeito alcançado pelo referido programa informático. De facto, se para Needham a vida surgia do nada, impulsionada por uma vis vitalis, no Alert P1 é a morte que surge espontânea, dissolvendo no nada os utentes referenciados. Encontrámos um exemplo do fenómeno na USF Valongo, onde a coordenadora da unidade, o medo estampado no rosto, no-lo relatou: "quando consulto informação sobre um doente que tarda em ser chamado ao hospital e tento imprimir a informação para lhe dar… Ou procuro esmiuçar o que se passa na aplicação, o nome da pessoa simplesmente desaparece da lista. Deixamos de saber o que se passa com aquele doente! A sensação com que fico é quanto mais procuro saber se o doente foi triado ou consultado, mais hipóteses tenho de o perder".
E porque nulla calamitas sola, descobrimos também que, ao contrário do que escreveu o presidente do Conselho de Administração da empresa Alert Life Sciences Computing, Jorge Guimarães, na carta que fez publicar no Público, a interface que permite a ligação entre aquele programa e o Sistema de Apoio ao Médico (SAM), não se encontrava em pleno funcionamento no final de Janeiro. Como também foi possível aferir que o tão ambicionado relatório electrónico, realizado pelo médico responsável pela consulta hospitalar, continua a não ser disponibilizado aos médicos de família via Alert P1.
Mas também descobrimos coisas positivas. Por exemplo, que apesar de ser de pouca serventia para o fim para que foi concebido, o programa revela grande potencial na promoção da saúde dos profissionais dos cuidados de saúde primários … Nomeadamente, no combate ao sedentarismo, que como se sabe, é uma das principais causas da hecatombe cardiovascular que desabou sobre as sociedades mais desenvolvidas. E já está mesmo a ser aproveitado para este fim. É o que acontece num centro de saúde da região de Lisboa, cuja direcção produziu recentemente uma nota interna, na qual determina que os médicos das cerca de 20 extensões deverão, em horário não assistencial, deslocar-se à sede, para fazer as referenciações "em computador disponibilizado no gabinete de estatística/informática". Ora, como pudemos verificar in loco, só graças a viagens de vários quilómetros, é possível satisfazer a ordem superior. E não se pense que o salutar exercício apenas beneficia os médicos. Nada disso. Os administrativos são igualmente convidados a participar, sendo-lhes sugerido que se desloquem à sede "nos dias em que o médico se encontre de SAP ou de recurso, a fim de obter a informação de retorno".
Ora, como não podia deixar de ser, o extraordinário potencial revelado pelo Alert já transbordou a fronteira pátria, tendo conquistado adeptos nas regiões mais insuspeitas do globo. Foi o que aconteceu no Alasca, onde a empresa portuguesa de software anunciou ter assinado um contrato com um consórcio de saúde para fornecimento de soluções informáticas a 14 instituições locais.
E é precisamente aqui que se levanta o problema que pretendemos expor neste cromo da quinzena… É que se a moda pega, corremos todos o risco de ruptura de stocks, nascida de uma compreensível falta de capacidade instalada da empresa produtora para satisfazer os pedidos que, muito certamente, chegarão de todo o mundo.
Cabe ao Governo adoptar medidas que impeçam um tal cenário. Não em nome do choque tecnológico – que no caso em apreço, como já se percebeu, o máximo que se consegue tirar da coisa são faíscas –, mas da saúde dos profissionais da dita, que bem merece ser protegida!
MMM
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