| Escrito por Tiago Reis,
em 15-02-2008 10:35
|
Na primeira entrevista após ter assumido a pasta da Saúde, Ana Jorge, a nova ministra confirma que o governo se comprometeu, sem reservas, com a reforma dos cuidados de saúde primários e que o modelo B está aí à porta. Na entrevista exclusiva que concedeu ao nosso jornal, após a ronda de visitas que efectuou a várias unidades de saúde familiar, um pouco por todo o país, Ana Jorge garante igualmente que se sente inspirada face ao entusiasmo dos primeiros grupos que ousaram lançar as sementes do futuro, quando os incentivos eram ainda uma miragem
Médico de Família – Passou, nos últimos dias, por diversas unidades de saúde familiar (USF), na primeira iniciativa de campo enquanto governante. Entre aquilo lhe foi transmitido pelos profissionais de saúde, o que reteve como mais marcante?
O que gostaria sobretudo de salientar é o entusiasmo com que as pessoas abordam a sua experiência, a forma como aderiram ao processo, com muita criatividade e empenhamento. Sobretudo, impressionou-me o facto de acreditarem que este é um movimento que vai conduzir à melhoria da qualidade dos serviços. Por outro lado, não pude deixar de perceber um sorriso na maior parte dos lábios, o que significa que gostam do que estão a fazer. Foi muito agradável de ver.
A organização dos serviços, o modo como todos aderiram às novas rotinas de trabalho, também me sensibilizaram.
Já mencionou publicamente que o Ministério fez seguir, para os parceiros sociais, as suas propostas relativamente aos incentivos planeados para o modelo B das USF. Tem consciência de que a demora na discussão deste dossier deixou muita gente inquieta, mesmo agastada, nos últimos meses? Vai ser possível recuperar o tempo perdido?
Otempo que se perdeu está perdido, não há nada a fazer. Todavia, o Ministério e o governo nunca perderam a noção de que o modelo B era intensamente desejado, desde há muito tempo. Trata-se de uma promessa feita aos profissionais e o empenhamento do governo para resolver esta matéria não pode ser negado. O Sr. primeiro-ministro interveio, inclusive, para tentar desbloquear a situação, porque percebeu que este poderia ser o salto indispensável para que mais USF se pudessem constituir. Do mesmo modo, era essencial responder àqueles que mereciam ser recompensados pelo trabalho já levado a cabo. Ou seja, os que decidiram avançar (antes mesmo da existência de qualquer incentivo) não podiam ser ignorados.
Adivinha-se que clima, à mesa negocial?
Os sindicatos pretendem ser os representantes dos diversos grupos profissionais, os seus legítimos defensores. Ora se querem defender estes profissionais, terão de os ouvir, até porque é incontestável que as USF de modelo B correspondem aos anseios de quem trabalha no terreno. Eu acredito na mudança trazida pelas USF. Espero que os sindicatos também.
Uma vez autorizada a criação das USF de modelo B, é expectável que todos - ou quase todos - os grupos, desejem avançar nessa direcção. O governo pode comprometer-se com o aumento do envelope financeiro fundamental para suportar todas as unidades?
Pode, com toda a certeza. Tínhamos, aliás, a convicção de que seria esse o desenvolvimento natural do processo, uma vez aberta a oportunidade das USF fazerem a sua opção. Todos os factores associados a esse crescimento já foram contemplados e a Missão para os Cuidados de Saúde Primários estudou bem os cenários.
Depois de tomar posse, já estabeleceu como objectivo a superação das metas traçadas pelo seu antecessor, no que respeita à criação de USF. Para tal, será necessário imprimir um pouco mais de agilidade em matérias como a entrega de equipamentos e instalações, a mobilidade dos profissionais. O que pretende fazer, exactamente?
Há um conjunto de obstáculos a considerar e que devemos combater. Antes de mais, é importante que as pessoas avancem, que apresentem as suas candidaturas sem receios. Depois, é essencial que os profissionais tenham instalações e equipamentos à altura das tarefas com que se comprometem. Neste aspecto, posso dizer que o Ministério da Saúde tudo fará para agilizar a aquisição e entrega de equipamentos, bem como a realização de todas as obras que forem consideradas necessárias. A ideia base é esta: perante a existência de profissionais que mostrem disponibilidade e apresentem planos de acção fundamentados, nada os deverá impedir de concretizar o seu projecto.
Sem dúvida que se conseguirmos ultrapassar as metas inicialmente estabelecidas (que passavam pela abertura de 150 USF até ao final de 2008, por exemplo), estaremos a fortalecer os desígnios da reforma e a resolver uma parte substancial dos problemas do país, na área da Saúde.
Podemos, então, interpretar as suas palavras como uma intenção de imprimir um ritmo mais veloz à reforma dos CSP?
Exactamente. O Ministério quer avançar rapidamente com a implementação da reforma no terreno, até porque existe a vontade política, neste momento, para suportar essa velocidade.
Não o poderão fazer, porém, sem o apoio da população. Considera que os eventuais méritos da reforma dos CSP foram bem explicados aos portugueses, que a comunicação foi a mais correcta? O cidadão comum parece ainda demasiado aturdido, confuso, com o encerramento de serviços como os SAP, para se aperceber do que agora lhe é oferecido, graças às USF…
O que o governo está a fazer é uma reforma do Serviço Nacional de Saúde, reforma essa que, simbolicamente, podemos encarar como um puzzle. Os CSP são uma peça fundamental desse puzzle. Não me canso de dizer que se conseguíssemos que toda a população tivesse médico de família, com acesso atempado e adequado a consultas de Medicina Familiar, assistiríamos a uma menor procura de serviços alternativos, das urgências e até de uma fatia substancial de consultas de especialidade hospitalar, que se revelam desnecessárias. Em toda esta dinâmica reformista, é central o objectivo que cada serviço de saúde se ocupe, apenas e só, daquilo que é realmente da sua competência. Com esta funcionalidade articulada, ganhamos capacidade para responder a um maior número de pessoas.
O Ministério terá de requalificar todos os serviços de saúde, quer ao nível dos CSP – como mostra a prática corrente – quer no que respeita à esfera hospitalar, com uma diferenciação clara do tipo de atendimento. Do mesmo modo, é preciso dissipar todas as dúvidas acerca da rede de referenciação, assegurando que todas as partes sabem quem faz o quê.
Concorda, no entanto, que a mensagem sobre como se encaixa esse puzzle não passou de forma satisfatória para os portugueses…
Parece-me que passou com muitas dificuldades, quer para as populações, quer mesmo para os profissionais. Todas as pessoas que estão envolvidas neste processo de reforma têm, penso eu, a consciência de que existe essa necessidade de reforçar, em conjunto, a comunicação de ideias chave. Comunicação interna – por um lado – no seio dos serviços de saúde, assim como externa, direccionada à população. Uma coisa é certa: se não conseguirmos que os próprios profissionais de saúde entendam o que se está fazer, então serão eles a transmitir a mensagem errada, de insegurança, para os cidadãos. Isto é grave, uma vez que os utentes necessitam, obviamente, do apoio de quem lhes presta cuidados para fazer uma leitura correcta do novo panorama com que se deparam.
Inúmeros profissionais de USF têm-nos confessado que a reestruturação do Ministério da Saúde – nomeadamente a extinção das sub-regiões de saúde – deixou um hiato que acaba por prejudicá-los, quando chega o momento de encontrar interlocutores válidos, em patamares intermédios da administração. Pensa que terá condições para acelerar a entrada em cena dos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES), de forma a contornar este problema?
Temos de perceber que estamos a passar por uma mudança profunda, que gera ansiedades e anticorpos. O que é importante, agora, é gerir as preocupações, com todo o conhecimento que se foi adquirindo ao longo deste tempo de transformações, apelando ao bom-senso e ao espírito de diálogo. Por outro lado, é importante sublinhar que a reestruturação administrativa deriva de um processo contínuo e que o nosso interesse é, acima de tudo, que não se verifiquem rupturas.
|
|
|